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Alexandre Gomes

The Nine Muses inspiring Arion, Orpheus and Pythagoras under the auspieces of the Personified Air, source of all Harmony, 13th century, Public Library RheimsSebastião disse: não tem nada que saber do Belo, deixa o Belo pra lá, artista tem mais o que fazer. Este pessoal te amola muito? O Pessoal é este de quem os meninos fogem, saindo pelos fundos, pra não aturar frescuras: mãe, tem um pessoal das artes te chamando.” (Adélia Prado, Os componentes da Banda)

Uma das respostas cuja busca tem me atormentado é sobre o peso da inspiração e do esforço na arte. Grande parte de mim responde sem hesitar: a inspiração é a essência, é a parte verdadeira da criação. Quero crer como Pessoa-Caeiro na frase que serve de título que a poesia não se emenda, ela surge ou é descoberta.

Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança, por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.

Alexandre Gomes

Cinzas da cidade

 

Para Sampa em seu 457o. Aniversário

 

É fácil admirar o colorido,

Mas seus tons de cinza,

Feitos de chumbo e carvão,

Só podem ser apreciados

Em movimento.

 

É fácil apreciar o silêncio,

Mas seus sons de mil vozes,

Feitos de sussurros de cobiça ou gritos de miséria

Só soam como música

Em movimento.

 

Esta sua fuligem não é como a poeira dos tempos

Cobrindo ruínas outrora sagradas,

Esse seu manto cinza é cosido pela velocidade

Lembrando como tudo que é moderno

Termina em cinzas.

 

Se a metafísica é uma trilha na floresta antiga

Pela qual se anda a pé e com vagar

Então a dialética é este explodir de sons

da sua multidão tropeçando em si mesma.

Pela qual atravessamos rápidos e atentos.

 

Mas para nunca esquecer,

Mesmo os que falaram daquilo que é eterno

E imutável, insuflaram ou condenaram o progresso,

Só puderam fazê-lo nas cidades que eram

Como você.

 

É cinza porque na sua paleta

Só há Luz e Trevas

Misturadas de todas as formas.

Suas cinzas são o que restou do homem,

E ninho aonde ele renasce todos os dias.

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Alexandre Gomes

Uma das histórias do Mullah Nasrudin conta que um grupo de garotos o procura para dividir entre eles um monte de nozes. O mullah pergunta se eles desejam que ele faça a divisão segundo as leis de Deus ou dos homens. Como eles respondem que desejam que a repartição seja feita segundo as leis de Deus, Nasrudin dá a um monte de nozes, a outro uma, a outro nenhuma e segue assim distribuindo de forma arbitrária.

Esta história veio a memória na continuação da reflexão iniciada em post anterior sobre inspiração e técnica, talento e esforço – pares similares mas não idênticos – na questão do processo criativo. Há um paradoxo curioso nestes pares, ainda mais quando se pensa em outro par – arte de elite ou arte democrática – cuja importância é crucial no pensamento estético contemporâneo.

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Alexandre Gomes

A tentação de Santo Antão, BoschInspiração não é voz

Falando na sua cabeça

É o mais terrível silêncio

Possível de ser imaginado

 

Alcançar este silêncio

Não requer esforço

ou sabedoria

Só coragem

 

A coragem de imergir

No Oceano primordial

Antes dele ser habitado

Pelo Caos.