Filosofia e cia

Equilíbrio

Notável a escassez de acontecimentos ou crises existentes nas nossas histórias; pouco exercitados de espírito temos sido nós; quão poucas são as experiências que temos amassado. Gostaria de assegurar-me que me desenvolvo a olhos vistos e pujantemente, embora o meu próprio desenvolvimento perturbe essa frouxa equanimidade — embora seja com luta através de noites longas, sombrias e sufocantes, ou zonas de sombras. Bom seria se todas as nossas vidas fossem até uma tragédia divina, em vez dessa comédia ou farsa trivial.” (Thoreau, Andar a pé)

 
 
Equilíbrio é palavra que anda fácil pelas bocas, quem é que pode ser contra o equilíbrio? Mas ao mesmo tempo o que é o equilíbrio?
Com certeza não é aquele morno que enojava Jesus, desconfio que nem mesmo é a Áurea Mediocridade de Aristóteles. Um pouco continuando a toada de ontem tenho de dizer que equilíbrio não é ausência de conflito, para que exista equilíbrio é necessário que ao menos duas forças de sentido diverso estejam em disputa. Diria que é quase um conceito geométrico envolvendo vetores e bissetrizes, tal como vejo o conceito e como parece deixar claro sua própria etimologia.

Guerra e Paz

Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se fizesse. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano, creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Mas o enorme esforço que é a guerra, só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um sistema de esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O outro é puro erro. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma coisa que importa fazer, que há que fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz não "está aí", simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo, de construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. “ (Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)

Já disse em inúmeras oportunidades que os melhores livros contra a guerra foram os escritos por soldados. Nada de Novo no Front escrito por um ex-soldado de pouca instrução é muito mais convincente do que mil tratados pacifistas calmamente escritos em gabinetes refrigerados de ministérios. Vivemos numa era em que boas intenções e más ações convivem e se misturam não só por hipocrisia mas também pela falta de coragem de pensar.

O discurso pacifista parece ser algo impossível de se atacar, afinal quem quer a guerra e todas as tragédias que ela traz? A questão, como bem aponta Ortega y Gasset, é que sob o rótulo de pacifismo combinam-se as mais várias visões de mundo, boa parte delas equivocada ao menos em alguns pontos.

Modernos, modernistas e modernosos

Paranóia E Mistificação: quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no

Paranóia E Mistificação: (a esquerda) quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no "Homem Amarelo"de Malfatti (a direita) em 1916, gerando a polêmica com Monteiro lobato

A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. (Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação)

anita2 Um amigo me pede um texto sobre Monteiro Lobato e os modernistas após alguma polêmica sobre o assunto. Se eu precisasse reduzir todo o comentário a uma frase diria que Lobato é que era verdadeiramente moderno naquele momento. Se pudesse ainda acrescentar algo comentaria que a crítica de Lobato aos modernistas não é pela inovação proposta por eles, mas pela falta de novidade e sinceridade do movimento.
O que ocorria de mais moderno no país, naquele momento, era justamente a superação dos modelos copiados das últimas modas européias, francesas em particular. Moderno de fato era a crença profunda de Lobato que o pensamento brasileiro deveria refletir sobre os problemas do país, usando a linguagem do povo e jogando no lixo os academicismos, elitismos e sectarismos todos.

Horário Eleitoral na Grécia Antiga

A Escola de Athenas, de Rafael

Antígona - ...a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram! Tais decretos, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham a punir os deuses! (Antígona, Sófocles)

Repete-se a ponto de ter se tornado lugar comum a exaltação aos múltiplos legados da Grécia Clássica, em particular citando os dois mais destacados: a Filosofia e a Democracia. O senso comum perde muito da riqueza desta herança ao não ver que estes dois ramos construíram-se em profunda oposição um ao outro. Da mesma forma quem vê as costumeiras máscaras simbolizando a tragédia e a comédia poucas vezes se dá conta do intenso debate político travado através destes gêneros.

A pena e a bomba

Como disse outro dia, estou relendo "O Crisântemo e a Espada" - estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.

Reflexões de aniversário

"Contra o que se sóe julgar, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em essencial servidão. Não saboreia sua vida se não a faz consistir em serviço para algo transcendente. Porisso não considera a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por azar lhe falta, sente desassossego e inventa novas normas, mais difíceis, mais exigentes, que o oprimam. Isto é a vida como disciplina - a vida nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos." (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

 

Todos os que proclamam algum processo de elevação espiritual como algum tipo de processo mágico jamais poderão ser capazes d sentir a satisfação e o efeito das pequenas ações cotidianas que marcam a caminho longo deste processo e estão acessíveis a qualquer um capaz de um mínimo de disciplina. Falo isto para justificar este meu post de aniversário, afinal uma das ações que tem sido mais relevantes para a minha vida tem sido planejar minha ações a cada dia e fazer o balanço do que consigo ou não realizar e porque no final do dia.

O resgate do poder da palavra

 "Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência e, ademais, de imaginar outra nunca existida (...)O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. A imaginação é o poder libertador que um homem tem. Um povo é capaz de organizar um Estado na medida da sua imaginação" (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas).

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A crise institucional do país aparece de forma clara, evidente por si mesma e atinge em especial aos parlamentos. É preciso enfrentar a questão de frente e ir para além da simples discussão técnica sobre reforma política, emendas e remendos na legislação. A despeito de ser possível enfrentar alguns aspectos específicos desta crise através de mudanças na legislação, em particular nos sistemas eleitorais, a raiz mesmo da questão parece estar mais ligada a outros elementos que, se não forem pensados, tornarão mesmo a mais radical reforma política inócua.

Democracia e aristocracias

Não consigo chegar a nenhum acordo comigo mesmo sobre a democracia. De um lado sinto a democracia real como algo que caminha para o grotesco, impele o ser humano para os mais baixos degraus da vida social, estimula a mediocridade e a corrupção, entrega o poder a pessoas que nenhuma autoridade tem para exercê-lo. De um outro lado a vejo como um ideal sublime, única forma de governo capaz de realmente fazer jus à condição humana e a única na qual é possível evitar a degradação.
Não, a questão não está em distinguir a democracia ideal e a real. Esta seria uma distinção simplista e, ademais, há pontos questionáveis na democracia ideal tanto quanto há aspectos elevados na democracia real.

Absoluto e relativo

A noção de que a verdade é múltipla e certa interpretação, a meu ver equivocada, do termo “pluralismo” – designando não a multiplicidade de opiniões e o direito à existência desta multiplicidade, mas a igual validade de todas as visões de mundo – parecem a primeira vista uma idéia muito simpática e pacificadora. Como qualquer visão do mundo é possível, legítima e igualmente válida ninguém tem o direito de tentar impor a sua a outro – o que é correto – mas também não precisa justificar a sua, convencer, persuadir e, sobretudo, buscar os pontos em comum e a partir dos muitos pontos de início da largada tentar chegar a um ponto de vista comum na chegada.

Animal e humano

Sempre acho curiosa a construção de uma oposição humano-animal que costuma figurar em tantos sistemas de pensamento. Até posso compreender certo sentido simbólico desta pretensa dualidade, pelo sentido que faz pelo desconhecimento do comportamento animal ou pelo conhecimento superficial. Na imensa maioria dos casos, contudo, a expressão é utilizada para avaliar ou até justificar comportamentos que nada tem a ver com a animalidade em si.
Ainda que pareça paradoxal, penso que a imensa maioria dos nossos defeitos vem do nosso livre arbítrio, ou seja, da nossa natureza divina, mais do que de nosso substrato animal. Lembro-me da frase de Schuon: “os homens vão ao fogo porque são deuses e salvam-se porque são criaturas”. Também não posso deixar de lembrar-me de um texto de Lobato no qual ele diz que o homem é um macaco que caiu de cabeça de uma árvore e como seqüela desta “Queda” passou a agir de forma estúpida, diferente da natureza onde todos os comportamentos têm um sentido.

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