Religião

Entre escravos

411181-Djinn_largeTornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
” ( Fausto, Goethe)

Houve tempos nos quais podia escrever para outros um texto do qual discordasse, de forma rápida e praticamente indolor. Este exercício foi ficando cada vez mais penoso e ainda embora ainda seja capaz deste ofício de ghost-writer confesso que o resultado é um produto sem sem alma. Pateticamente percebo que muitos, em especial os clientes, não percebem a diferença .

A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em comparação com o passado . Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de grandeza ou fraqueza libertei.

Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá remorso tê-lo usado de forma tão vil em tarefas tão banais . Se um dia eu também for livre como ele sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.

O Voto é Sagrado

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A escola onde voto em São Paulo – a FAI, na Avenida Nazaré no bairro do Ipiranga – já foi um seminário e conserva algo da atmosfera de mosteiro com os arcos ao estilo mourisco nos corredores ladeando o jardim, além dos diversos ciprestes. Fica fácil, assim, lembrar-me que o voto é sagrado cada vez que compareço às urnas, em um ambiente que mesmo já bastante alterado ainda faz lembrar um espaço de meditação e elevada reflexão

Antígona e o Bobo

3097473~King-Lear-and-the-Fool-in-the-Storm-Act-III-Scene-2-from-King-Lear-by-William-Shakespeare-1836-Posters Bobo - Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. (Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV)

Antígona - Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura (Sófocles, Antígona)

Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo portanto seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.

Horário Eleitoral na Grécia Antiga

A Escola de Athenas, de Rafael

Antígona - ...a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram! Tais decretos, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham a punir os deuses! (Antígona, Sófocles)

Repete-se a ponto de ter se tornado lugar comum a exaltação aos múltiplos legados da Grécia Clássica, em particular citando os dois mais destacados: a Filosofia e a Democracia. O senso comum perde muito da riqueza desta herança ao não ver que estes dois ramos construíram-se em profunda oposição um ao outro. Da mesma forma quem vê as costumeiras máscaras simbolizando a tragédia e a comédia poucas vezes se dá conta do intenso debate político travado através destes gêneros.

Reflexões de aniversário

"Contra o que se sóe julgar, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em essencial servidão. Não saboreia sua vida se não a faz consistir em serviço para algo transcendente. Porisso não considera a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por azar lhe falta, sente desassossego e inventa novas normas, mais difíceis, mais exigentes, que o oprimam. Isto é a vida como disciplina - a vida nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos." (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

 

Todos os que proclamam algum processo de elevação espiritual como algum tipo de processo mágico jamais poderão ser capazes d sentir a satisfação e o efeito das pequenas ações cotidianas que marcam a caminho longo deste processo e estão acessíveis a qualquer um capaz de um mínimo de disciplina. Falo isto para justificar este meu post de aniversário, afinal uma das ações que tem sido mais relevantes para a minha vida tem sido planejar minha ações a cada dia e fazer o balanço do que consigo ou não realizar e porque no final do dia.

Eterno e etéreo

“O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem” (Guimarães Rosa, citado no artigo Sobre política e jardinagem, Folha de São Paulo, 19/5/200 de Rubem Alves)

Absoluto e relativo

A noção de que a verdade é múltipla e certa interpretação, a meu ver equivocada, do termo “pluralismo” – designando não a multiplicidade de opiniões e o direito à existência desta multiplicidade, mas a igual validade de todas as visões de mundo – parecem a primeira vista uma idéia muito simpática e pacificadora. Como qualquer visão do mundo é possível, legítima e igualmente válida ninguém tem o direito de tentar impor a sua a outro – o que é correto – mas também não precisa justificar a sua, convencer, persuadir e, sobretudo, buscar os pontos em comum e a partir dos muitos pontos de início da largada tentar chegar a um ponto de vista comum na chegada.

Animal e humano

Sempre acho curiosa a construção de uma oposição humano-animal que costuma figurar em tantos sistemas de pensamento. Até posso compreender certo sentido simbólico desta pretensa dualidade, pelo sentido que faz pelo desconhecimento do comportamento animal ou pelo conhecimento superficial. Na imensa maioria dos casos, contudo, a expressão é utilizada para avaliar ou até justificar comportamentos que nada tem a ver com a animalidade em si.
Ainda que pareça paradoxal, penso que a imensa maioria dos nossos defeitos vem do nosso livre arbítrio, ou seja, da nossa natureza divina, mais do que de nosso substrato animal. Lembro-me da frase de Schuon: “os homens vão ao fogo porque são deuses e salvam-se porque são criaturas”. Também não posso deixar de lembrar-me de um texto de Lobato no qual ele diz que o homem é um macaco que caiu de cabeça de uma árvore e como seqüela desta “Queda” passou a agir de forma estúpida, diferente da natureza onde todos os comportamentos têm um sentido.

O cansaço da elite

Fico espantado com a aversão que se tem hoje pela palavra elite, atirada como xingamento ou ostentada pelo seu inverso. A questão essencial parece ser apenas a ausência de uma definição dos termos, ou seja de se compreender que elite significa aquela parte da humanidade que transcende a existência vulgar. Ela não se contrapõe à “verdade evidente por si mesma” – na bela forma da Declaração de Independência dos Estados Unidos – de que os homens nascem iguais, mas apenas reconhece também a outra verdade evidente por si mesma que o uso que os homens fazem da vida que recebem não é igual.
Repito talvez pela milésima vez que há a igualdade de direitos, não a de deveres. Qualquer um que reivindique mais direitos ou menos deveres pertence não à elite, mas á escória. A elite é justamente aquela parte da humanidade que não precisa de absolutamente nada – nem leis, nem contenção, nem repressão, nem castigo, nem reconhecimento, nem apreço, nem recompensa, nem prêmio, nem poder – para agir corretamente e cumprir sua missão. Por isto raramente se verá um integrante desta elite reivindicar sua posição de elite, afinal a opinião da massa pouco importa a ele.

Um email do arquipélago

Eu tenho poucos amigos no sentido mais estrito e profundo do termo. Alguns sequer conheço pessoalmente - Renilde, Daniel, Wagner - outros passo anos sem ver, mas quando os reencontro é como se tivéssemos mantido contato por todo aquele tempo. São amizades que dispensam a presença física e até mesmo o contato freqüente para se manter ativas e fortes, mas é sempre um grande prazer reencontrar qualquer um destes grandes amigos.

Assim, foi com enorme satisfação que abri minha caixa de emails ontem e encontrei uma mensagem do meu amigo argelino, que não vejo há uns 10 anos e que não tinha mais contato há tempos. Sei que algumas das pessoas com as quais converso imaginam que meu amigo argelino é uma espécie de personagem literário, alguma versão islâmica de Mr. Slang - o amigo inglês no qual Lobato coloca alguns comentários - mas na verdade ele existe mesmo e a maioria das histórias que conto em tantas conversas aconteceu mesmo.

Uma das histórias envolvendo meu amigo argelino que mais conto é aquela na qual ele, encantado com o Brasil, me pede algumas sugestões de lugares para visitar. Entre as sugestões menciono as cidades históricas de Minas. Ele me pergunta quantos anos elas tem, eu respondo algo entre 300 e 400 anos, mas com o auge em cerca de 250 anos atrás. Ele então responde, não com afetação ou orgulho, mas com simplicidade, que a casa onde ele mora na Argélia - situada em uma cidade construída pelos romanos, mas famosa pelas suas mil mesquitas - tem mais de 800. Não porque nos achasse sem história, mas por viver em um mundo tão repleto de história no qual sempre viveu na Argélia e na França aquilo que é eterno, em particular a natureza, interessava muito mais e tornava o Brasil muito mais fascinante para ele. Diria que preferia ver as criações de Deus às dos homens.

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