Comunicação

Entre escravos

411181-Djinn_largeTornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
” ( Fausto, Goethe)

Houve tempos nos quais podia escrever para outros um texto do qual discordasse, de forma rápida e praticamente indolor. Este exercício foi ficando cada vez mais penoso e ainda embora ainda seja capaz deste ofício de ghost-writer confesso que o resultado é um produto sem sem alma. Pateticamente percebo que muitos, em especial os clientes, não percebem a diferença .

A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em comparação com o passado . Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de grandeza ou fraqueza libertei.

Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá remorso tê-lo usado de forma tão vil em tarefas tão banais . Se um dia eu também for livre como ele sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.

O Voto é Sagrado

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A escola onde voto em São Paulo – a FAI, na Avenida Nazaré no bairro do Ipiranga – já foi um seminário e conserva algo da atmosfera de mosteiro com os arcos ao estilo mourisco nos corredores ladeando o jardim, além dos diversos ciprestes. Fica fácil, assim, lembrar-me que o voto é sagrado cada vez que compareço às urnas, em um ambiente que mesmo já bastante alterado ainda faz lembrar um espaço de meditação e elevada reflexão

Reflexões de aniversário

"Contra o que se sóe julgar, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em essencial servidão. Não saboreia sua vida se não a faz consistir em serviço para algo transcendente. Porisso não considera a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por azar lhe falta, sente desassossego e inventa novas normas, mais difíceis, mais exigentes, que o oprimam. Isto é a vida como disciplina - a vida nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos." (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

 

Todos os que proclamam algum processo de elevação espiritual como algum tipo de processo mágico jamais poderão ser capazes d sentir a satisfação e o efeito das pequenas ações cotidianas que marcam a caminho longo deste processo e estão acessíveis a qualquer um capaz de um mínimo de disciplina. Falo isto para justificar este meu post de aniversário, afinal uma das ações que tem sido mais relevantes para a minha vida tem sido planejar minha ações a cada dia e fazer o balanço do que consigo ou não realizar e porque no final do dia.

A memória do herói

Agrada-me certa noção presente em algumas tradições segundo a qual a meta de nossa existência seria acrescentar certo tipo de “memória emotiva” à divindade, através a qual Ele pudesse enxergar-se. Em tal concepção o maior pecado seria ser chato, ter uma vida convencional da qual se é apenas sujeito passivo, portanto falhando do intuito fundamental da existência que seria o de acrescentar alguma vivência rica à unidade.

O resgate do poder da palavra

 "Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência e, ademais, de imaginar outra nunca existida (...)O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. A imaginação é o poder libertador que um homem tem. Um povo é capaz de organizar um Estado na medida da sua imaginação" (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas).

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A crise institucional do país aparece de forma clara, evidente por si mesma e atinge em especial aos parlamentos. É preciso enfrentar a questão de frente e ir para além da simples discussão técnica sobre reforma política, emendas e remendos na legislação. A despeito de ser possível enfrentar alguns aspectos específicos desta crise através de mudanças na legislação, em particular nos sistemas eleitorais, a raiz mesmo da questão parece estar mais ligada a outros elementos que, se não forem pensados, tornarão mesmo a mais radical reforma política inócua.

Democracia e aristocracias

Não consigo chegar a nenhum acordo comigo mesmo sobre a democracia. De um lado sinto a democracia real como algo que caminha para o grotesco, impele o ser humano para os mais baixos degraus da vida social, estimula a mediocridade e a corrupção, entrega o poder a pessoas que nenhuma autoridade tem para exercê-lo. De um outro lado a vejo como um ideal sublime, única forma de governo capaz de realmente fazer jus à condição humana e a única na qual é possível evitar a degradação.
Não, a questão não está em distinguir a democracia ideal e a real. Esta seria uma distinção simplista e, ademais, há pontos questionáveis na democracia ideal tanto quanto há aspectos elevados na democracia real.

Cassandras e Prometeus

srubens114 Desde a época na qual a vocação e a profissão da política não se entremeavam, quando tentava apontar caminhos enquanto jornalista para a política, sentia que pesava sobre mim maldição similar a de Cassandra – a troiana que

Absoluto e relativo

A noção de que a verdade é múltipla e certa interpretação, a meu ver equivocada, do termo “pluralismo” – designando não a multiplicidade de opiniões e o direito à existência desta multiplicidade, mas a igual validade de todas as visões de mundo – parecem a primeira vista uma idéia muito simpática e pacificadora. Como qualquer visão do mundo é possível, legítima e igualmente válida ninguém tem o direito de tentar impor a sua a outro – o que é correto – mas também não precisa justificar a sua, convencer, persuadir e, sobretudo, buscar os pontos em comum e a partir dos muitos pontos de início da largada tentar chegar a um ponto de vista comum na chegada.

Tiranias

Em um aparente paradoxo, sempre são as massas que criam as ditaduras, os totalitarismos. Historicamente mesmo as várias democracias tem sido momentos de transição para as tiranias, ainda que ao menos pareça que se consegue algo novo em alguns momentos.Ortega y Gasset diz que "quando a massa atua por si própria, o faz de uma só maneira, porque não tem outra: lincha". Tocqueville assinala o risco de um Estado que é tudo frente a um indivíduo que não é nada como caminho quase natural da democracia, no qual os cidadãos são "mais que reis e menos que homens".

Um cadáver perfumado sorrindo

Cadáver sorridente: Capa do livro "A publicidade é um cadáver que nos sorri" de Oliviero Toscani, responsável pelas campanhas polêmicas da Benetton.Cadáver sorridente: Capa do livro "A publicidade é um cadáver que nos sorri" de Oliviero Toscani, responsável pelas campanhas polêmicas da Benetton.Raramente assisto TV, ainda mais TV aberta, eventualmente um ou outro programa e de vez em quando, por necessidade profissional, algum telejornal – não para me informar, claro, mas apenas para ver que tipo de informação os telespectadores estão recebendo. Nesta semana quando me arrisquei a ligar a TV fiquei meio chocado com a brutalidade de uma propaganda de perfume e fiquei imaginando como uma empresa que até me parecia séria pelas suas preocupações ambientais tem tão pouco apreço a sua imagem – ou tanta confiança na insensibilidade de seus consumidores – a ponto de idolatrar o consumidor e ironizar a beleza.
Na propaganda um garoto esforça-se para decorar um famoso soneto de Camões – que como incorporado à letra de uma música do rock nacional imagino que não seja nada assim tão transcendental – e quando o recita para a garota ela se espanta, ele fala pra ela esquecer e então dá o perfume e ela fica contente. Difícil ser mais grosseiro, retratar melhor o que há de pior na modernidade com a eliminação da beleza e do sentimento em proveito do consumismo.

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