Sociologia e cia.

Sampa

Vista aérea da Praça da Sé, que recebeu uma multidão de 300 mil pessoas no dia 25 de janeiro de 1984 (Foto: Agência Estado/arquivo) A Cidade parece ser o local onde se torna possível a explicitação das vocações mais diversas e, portanto, a especialização mais particular através da comunicação e da colaboração. A especialização, por sua vez, leva à dependência de uma atividade em relação às outras e, breve, à limitação da autonomia. Daí a necessidade de reaparecer, distinguir-se e recolocar um significado e um aspecto à própria individualidade. Aqui nascem, também a competição e o conflito. Cooperação e luta, envolvimento e isolamento chocam-se em uma intensa mobilidade que é também movimento, ir adiante, descobrir-se a si próprio e ao mundo, mudá-los.” (Roberto Guiducci, A Cidade dos Cidadãos)

 

 

2010 para mim foi o “Ano do Plano Diretor”, na minha mania de nomear meus anos. Passei o ano discutindo sobre desenvolvimento urbano, incontáveis reuniões de todo tipo, milhares de páginas de relatórios para serem mastigados pela análise estatística para transformarem-se em um uma folha apontando tendências, conversas e mais conversas com sábios, tolos e loucos aprendendo sempre algo em cada uma, dezenas de livros de todas as tendências e visões para tentar compreender o assunto, dos mais conservadores aos mais radicais, mapas e mais mapas quase tão repletos de cores e legendas quanto as pessoas que moram naquele território representado. Emfim, um turbilhão de informação a ser processada, digerida, condensada em conceitos e transformada em ferramenta para a ação.

A pena e a bomba

Como disse outro dia, estou relendo "O Crisântemo e a Espada" - estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.

Reflexões de aniversário

"Contra o que se sóe julgar, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em essencial servidão. Não saboreia sua vida se não a faz consistir em serviço para algo transcendente. Porisso não considera a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por azar lhe falta, sente desassossego e inventa novas normas, mais difíceis, mais exigentes, que o oprimam. Isto é a vida como disciplina - a vida nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos." (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

 

Todos os que proclamam algum processo de elevação espiritual como algum tipo de processo mágico jamais poderão ser capazes d sentir a satisfação e o efeito das pequenas ações cotidianas que marcam a caminho longo deste processo e estão acessíveis a qualquer um capaz de um mínimo de disciplina. Falo isto para justificar este meu post de aniversário, afinal uma das ações que tem sido mais relevantes para a minha vida tem sido planejar minha ações a cada dia e fazer o balanço do que consigo ou não realizar e porque no final do dia.

A memória do herói

Agrada-me certa noção presente em algumas tradições segundo a qual a meta de nossa existência seria acrescentar certo tipo de “memória emotiva” à divindade, através a qual Ele pudesse enxergar-se. Em tal concepção o maior pecado seria ser chato, ter uma vida convencional da qual se é apenas sujeito passivo, portanto falhando do intuito fundamental da existência que seria o de acrescentar alguma vivência rica à unidade.

Absoluto e relativo

A noção de que a verdade é múltipla e certa interpretação, a meu ver equivocada, do termo “pluralismo” – designando não a multiplicidade de opiniões e o direito à existência desta multiplicidade, mas a igual validade de todas as visões de mundo – parecem a primeira vista uma idéia muito simpática e pacificadora. Como qualquer visão do mundo é possível, legítima e igualmente válida ninguém tem o direito de tentar impor a sua a outro – o que é correto – mas também não precisa justificar a sua, convencer, persuadir e, sobretudo, buscar os pontos em comum e a partir dos muitos pontos de início da largada tentar chegar a um ponto de vista comum na chegada.

O homem que escrevia

Às vezes me sinto como um dos últimos sobreviventes de alguma etnia em extinção. Imagino que deve ter sido uma sensação semelhante a de Dom Quixote antes de simplesmente perder de vez o juízo. Basta olhar em volta para ver que o exercício da escrita está desaparecendo.
Não, não adianta dizer que nunca as pessoas escreveram tanto e citar, por exemplo, as mensagens da Internet como um exemplo. Em primeiro lugar, sem nem entrar no mérito da qualidade terrível do conteúdo, em geral elas são reproduzidas até o infinito, muito pouco é criado de fato e as pessoas sequer são capazes de exercer a mínima reflexão crítica sobre elas. Em muitos casos desconfiam que sequer quem a reenvia a lê.
Ainda sem entrar na questão do gosto duvidoso, faço sobre este mau exemplo duas observações. A primeira é que há coisas que não podem ser ensinadas pela palavra escrita – diga-se de passagem, que a grande maioria dos mestres de verdade jamais escreveu uma linha.

Um email do arquipélago

Eu tenho poucos amigos no sentido mais estrito e profundo do termo. Alguns sequer conheço pessoalmente - Renilde, Daniel, Wagner - outros passo anos sem ver, mas quando os reencontro é como se tivéssemos mantido contato por todo aquele tempo. São amizades que dispensam a presença física e até mesmo o contato freqüente para se manter ativas e fortes, mas é sempre um grande prazer reencontrar qualquer um destes grandes amigos.

Assim, foi com enorme satisfação que abri minha caixa de emails ontem e encontrei uma mensagem do meu amigo argelino, que não vejo há uns 10 anos e que não tinha mais contato há tempos. Sei que algumas das pessoas com as quais converso imaginam que meu amigo argelino é uma espécie de personagem literário, alguma versão islâmica de Mr. Slang - o amigo inglês no qual Lobato coloca alguns comentários - mas na verdade ele existe mesmo e a maioria das histórias que conto em tantas conversas aconteceu mesmo.

Uma das histórias envolvendo meu amigo argelino que mais conto é aquela na qual ele, encantado com o Brasil, me pede algumas sugestões de lugares para visitar. Entre as sugestões menciono as cidades históricas de Minas. Ele me pergunta quantos anos elas tem, eu respondo algo entre 300 e 400 anos, mas com o auge em cerca de 250 anos atrás. Ele então responde, não com afetação ou orgulho, mas com simplicidade, que a casa onde ele mora na Argélia - situada em uma cidade construída pelos romanos, mas famosa pelas suas mil mesquitas - tem mais de 800. Não porque nos achasse sem história, mas por viver em um mundo tão repleto de história no qual sempre viveu na Argélia e na França aquilo que é eterno, em particular a natureza, interessava muito mais e tornava o Brasil muito mais fascinante para ele. Diria que preferia ver as criações de Deus às dos homens.

Admirável Mundo Novo nos filmes infantis

Tenho falado diversas vezes sobre o triste fim da literatura infantil, em triste decadência. Sempre uso o exemplo de que as obras infantis de Monteiro Lobato dificilmente conseguiriam ser lidas pelas crianças de hoje, mas por outro lado tenho de reconhecer a qualidade crescente dos filmes infantis. E quando falo em qualidade não me refiro apenas à crescente e impressionante qualidade técnica, mas também à sofisticação dos roteiros.

O caminho nos escolhe

Às vezes me perguntam porque sou muçulmano. Fico meio sem saber o que responder em alguns momentos, porque pressinto na pergunta o estereótipo, a noção de que eu deveria usar roupas estranhas, ter uma longa barba, ser intolerante, fanático, não ler as coisas que leio, escrever as que escrevo, ser algum tipo de “estrangeiro” e como pareço uma pessoa normal isto parece gerar alguma dissonância cognitiva nas pessoas.
Mas ás vezes sinto que a pergunta é sincera e então me esforço por responder, ainda que nem sempre o saiba com certeza. A primeira resposta que me vem a mente é que apreciando e reconhecendo o sagrado em todas as fés, a que me tocou, a que me fez sentir realmente entrando em uma jornada espiritual foi o Islam.

Eminências podres

Eminências podres

Leio na crônica de Cony hoje na Folha i a frase de que “Todos os petistas envolvidos no esquema de corrupção, lá atrás, nos começos das militâncias, foram idealistas, (...)Tudo boa gente, disposta a sacrificar a própria vida pelo ideal de justiça social e pela ética na vida pública”. Mesmo sem levar em conta a hipérbole da afirmação, gentileza que o cronista faz para ressaltar o argumento, há algo de mais preocupante naqueles cujo amor por uma idéia é tão grande que não há obstáculos que não julguem-se no direito de transpor.
O grande protótipo deste tipo de personagem é o Padre José, chanceler de Richelieu, retratado de forma brilhante em “Eminência Parda” de Aldous Huxley. Na defesa dos interesses da França e Fé Católica o padre José disseminou o horror, a fome, a guerra pela Europa, em particular através da Guerra dos Trinta Anos. É sem dúvida o tipo de coisa que aqueles que tem uma fé cega, que acham que qualquer meio se justifica em nome da causa – sempre lembrando que o infeliz maquiavel levou indevidamente a fama por este conceito dos meios justificarem os fins – costumam fazer, muitas vezes sem pensar na conseqüência.

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