Literatura

Talento e técnica

Uma das histórias do Mullah Nasrudin conta que um grupo de garotos o procura para dividir entre eles um monte de nozes. O mullah pergunta se eles desejam que ele faça a divisão segundo as leis de Deus ou dos homens. Como eles respondem que desejam que a repartição seja feita segundo as leis de Deus, Nasrudin dá a um monte de nozes, a outro uma, a outro nenhuma e segue assim distribuindo de forma arbitrária.

Esta história veio a memória na continuação da reflexão iniciada em post anterior sobre inspiração e técnica, talento e esforço – pares similares mas não idênticos – na questão do processo criativo. Há um paradoxo curioso nestes pares, ainda mais quando se pensa em outro par – arte de elite ou arte democrática – cuja importância é crucial no pensamento estético contemporâneo.

Só a prosa é que se emenda

The Nine Muses inspiring Arion, Orpheus and Pythagoras under the auspieces of the Personified Air, source of all Harmony, 13th century, Public Library RheimsSebastião disse: não tem nada que saber do Belo, deixa o Belo pra lá, artista tem mais o que fazer. Este pessoal te amola muito? O Pessoal é este de quem os meninos fogem, saindo pelos fundos, pra não aturar frescuras: mãe, tem um pessoal das artes te chamando.” (Adélia Prado, Os componentes da Banda)

Uma das respostas cuja busca tem me atormentado é sobre o peso da inspiração e do esforço na arte. Grande parte de mim responde sem hesitar: a inspiração é a essência, é a parte verdadeira da criação. Quero crer como Pessoa-Caeiro na frase que serve de título que a poesia não se emenda, ela surge ou é descoberta.

Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança, por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.

Nós, o Povo

Jeca Tatu“Mas pra mim, seu doutor não leve a mal, pra mim coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza...” (Guimarães Rosa, Sagarana)

 

Abstração terrível este de “povo”. Seja para ser aclamada ou vilipendiada ainda assim é uma abstração terrível, tanto pela sua absurda imprecisão de tentar reunir milhares de indivíduos em uma única categoria seja pela assustadora constatação de que ela faz algum sentido.

Entre escravos

411181-Djinn_largeTornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
” ( Fausto, Goethe)

Houve tempos nos quais podia escrever para outros um texto do qual discordasse, de forma rápida e praticamente indolor. Este exercício foi ficando cada vez mais penoso e ainda embora ainda seja capaz deste ofício de ghost-writer confesso que o resultado é um produto sem sem alma. Pateticamente percebo que muitos, em especial os clientes, não percebem a diferença .

A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em comparação com o passado . Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de grandeza ou fraqueza libertei.

Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá remorso tê-lo usado de forma tão vil em tarefas tão banais . Se um dia eu também for livre como ele sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.

Outra visita do djin

Visita esperada



Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

Modernos, modernistas e modernosos

Paranóia E Mistificação: quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no

Paranóia E Mistificação: (a esquerda) quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no "Homem Amarelo"de Malfatti (a direita) em 1916, gerando a polêmica com Monteiro lobato

A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. (Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação)

anita2 Um amigo me pede um texto sobre Monteiro Lobato e os modernistas após alguma polêmica sobre o assunto. Se eu precisasse reduzir todo o comentário a uma frase diria que Lobato é que era verdadeiramente moderno naquele momento. Se pudesse ainda acrescentar algo comentaria que a crítica de Lobato aos modernistas não é pela inovação proposta por eles, mas pela falta de novidade e sinceridade do movimento.
O que ocorria de mais moderno no país, naquele momento, era justamente a superação dos modelos copiados das últimas modas européias, francesas em particular. Moderno de fato era a crença profunda de Lobato que o pensamento brasileiro deveria refletir sobre os problemas do país, usando a linguagem do povo e jogando no lixo os academicismos, elitismos e sectarismos todos.

Eterno e etéreo

“O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem” (Guimarães Rosa, citado no artigo Sobre política e jardinagem, Folha de São Paulo, 19/5/200 de Rubem Alves)

Uma reunião com o coronel Kurtz

Uma das oposições centrais de "No Coração das Trevas" parece-me ser entre a monotonia rotineira e desmotivada dos agentes coloniais em oposição à apaixonada ação de Kurtz. Ao longo de todo o trajeto - seja no Vietnã ou no Congo - o protagonista vai ouvindo falar de Kurtz. Só ele quer estar ali, só ele tem idéia do que fazer ali, só ele não está de passagem, só ele leva a sério certo discurso de civilização e humanismo. Não tenho dúvidas que por tudo isto Kurtz é irmão de Quixote e, como ele, enlouquece de uma insânia que nem por ser mais violenta deixa de ser a mesma.

Kurtz tem me ligado diversas vezes nestes dias. Acordei hoje com ele ao telefone me falando de suas idéias enquanto ia a uma reunião. No final da tarde sou eu quem me reúno com ele lá no coração das trevas. Como o protagonista da história de Conrad vou me sentindo percorrendo o rio e ouvindo falar de Kurtz e suas historias e projetos, me fascinando com aquele ponto alucinado de luz em meio a um dos lugares mais escuros da terra.

Admirável Mundo Novo nos filmes infantis

Tenho falado diversas vezes sobre o triste fim da literatura infantil, em triste decadência. Sempre uso o exemplo de que as obras infantis de Monteiro Lobato dificilmente conseguiriam ser lidas pelas crianças de hoje, mas por outro lado tenho de reconhecer a qualidade crescente dos filmes infantis. E quando falo em qualidade não me refiro apenas à crescente e impressionante qualidade técnica, mas também à sofisticação dos roteiros.

Seleção e eleição

Uma de minhas maiores ambições intelectuais – cuja dificuldade de ser realizada não impede que seja um estímulo à reflexão – é ser capaz de juntar as duas pontas opostas do legado da Grécia Clássica. De um lado a filosofia – de natureza essencialmente aristocrática – e de outro sua antítese a democracia, contra a qual os filósofos – em especial a ainda insuperada tríade Sócrates, Platão e Aristóteles – construiram a maior parte das suas idéias.

Divulgar conteúdo