Islam

Entre escravos

411181-Djinn_largeTornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
” ( Fausto, Goethe)

Houve tempos nos quais podia escrever para outros um texto do qual discordasse, de forma rápida e praticamente indolor. Este exercício foi ficando cada vez mais penoso e ainda embora ainda seja capaz deste ofício de ghost-writer confesso que o resultado é um produto sem sem alma. Pateticamente percebo que muitos, em especial os clientes, não percebem a diferença .

A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em comparação com o passado . Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de grandeza ou fraqueza libertei.

Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá remorso tê-lo usado de forma tão vil em tarefas tão banais . Se um dia eu também for livre como ele sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.

Outra visita do djin

Visita esperada



Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

O Voto é Sagrado

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A escola onde voto em São Paulo – a FAI, na Avenida Nazaré no bairro do Ipiranga – já foi um seminário e conserva algo da atmosfera de mosteiro com os arcos ao estilo mourisco nos corredores ladeando o jardim, além dos diversos ciprestes. Fica fácil, assim, lembrar-me que o voto é sagrado cada vez que compareço às urnas, em um ambiente que mesmo já bastante alterado ainda faz lembrar um espaço de meditação e elevada reflexão

A pena e a bomba

Como disse outro dia, estou relendo "O Crisântemo e a Espada" - estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.

A memória do herói

Agrada-me certa noção presente em algumas tradições segundo a qual a meta de nossa existência seria acrescentar certo tipo de “memória emotiva” à divindade, através a qual Ele pudesse enxergar-se. Em tal concepção o maior pecado seria ser chato, ter uma vida convencional da qual se é apenas sujeito passivo, portanto falhando do intuito fundamental da existência que seria o de acrescentar alguma vivência rica à unidade.

O djinn me fala sobre liberdade e escravidão

Quem passou esta semana para visitar-me foi aquele djinn que por algum tempo foi meu escravo, encarregado de redigir boa parte de meus textos. Veio de livre e espontânea vontade, com um bronzeado de quem está aproveitando as férias após milênios de escravidão e certo ar de sarcasmo de sempre.
Fiquei com a impressão de que só perguntou o que eu andava fazendo por educação, porque parece muito bem informado sobre meus afazeres atuais, não teve dificuldade nenhuma em encontrar minha nova sala 5 andares acima da anterior e ainda estava afiado para debater minhas ações atuais.

Filhos do Sol, filhos da terra

A terra desempenha em inúmeras crenças – para não falar da imagem no senso comum – um papel gerador. Já houve mesmo teorias científicas e econômicas sobre o papel da terra. Assim como não nos damos conta que na realidade o sol não nasce e se põe todos os dias – a despeito destas imagens estarem fortemente enraizadas na nossa linguagem diária – também o papel da terra na geração e manutenção da vida é ínfimo.

Eterno e etéreo

“O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem” (Guimarães Rosa, citado no artigo Sobre política e jardinagem, Folha de São Paulo, 19/5/200 de Rubem Alves)

Absoluto e relativo

A noção de que a verdade é múltipla e certa interpretação, a meu ver equivocada, do termo “pluralismo” – designando não a multiplicidade de opiniões e o direito à existência desta multiplicidade, mas a igual validade de todas as visões de mundo – parecem a primeira vista uma idéia muito simpática e pacificadora. Como qualquer visão do mundo é possível, legítima e igualmente válida ninguém tem o direito de tentar impor a sua a outro – o que é correto – mas também não precisa justificar a sua, convencer, persuadir e, sobretudo, buscar os pontos em comum e a partir dos muitos pontos de início da largada tentar chegar a um ponto de vista comum na chegada.

Animal e humano

Sempre acho curiosa a construção de uma oposição humano-animal que costuma figurar em tantos sistemas de pensamento. Até posso compreender certo sentido simbólico desta pretensa dualidade, pelo sentido que faz pelo desconhecimento do comportamento animal ou pelo conhecimento superficial. Na imensa maioria dos casos, contudo, a expressão é utilizada para avaliar ou até justificar comportamentos que nada tem a ver com a animalidade em si.
Ainda que pareça paradoxal, penso que a imensa maioria dos nossos defeitos vem do nosso livre arbítrio, ou seja, da nossa natureza divina, mais do que de nosso substrato animal. Lembro-me da frase de Schuon: “os homens vão ao fogo porque são deuses e salvam-se porque são criaturas”. Também não posso deixar de lembrar-me de um texto de Lobato no qual ele diz que o homem é um macaco que caiu de cabeça de uma árvore e como seqüela desta “Queda” passou a agir de forma estúpida, diferente da natureza onde todos os comportamentos têm um sentido.

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