Cinema

Talento e técnica

Uma das histórias do Mullah Nasrudin conta que um grupo de garotos o procura para dividir entre eles um monte de nozes. O mullah pergunta se eles desejam que ele faça a divisão segundo as leis de Deus ou dos homens. Como eles respondem que desejam que a repartição seja feita segundo as leis de Deus, Nasrudin dá a um monte de nozes, a outro uma, a outro nenhuma e segue assim distribuindo de forma arbitrária.

Esta história veio a memória na continuação da reflexão iniciada em post anterior sobre inspiração e técnica, talento e esforço – pares similares mas não idênticos – na questão do processo criativo. Há um paradoxo curioso nestes pares, ainda mais quando se pensa em outro par – arte de elite ou arte democrática – cuja importância é crucial no pensamento estético contemporâneo.

Antígona e o Bobo

3097473~King-Lear-and-the-Fool-in-the-Storm-Act-III-Scene-2-from-King-Lear-by-William-Shakespeare-1836-Posters Bobo - Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. (Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV)

Antígona - Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura (Sófocles, Antígona)

Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo portanto seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.

A pena e a bomba

Como disse outro dia, estou relendo "O Crisântemo e a Espada" - estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.

Vidas plenas

Estou com a mesa cheia de coisa para fazer, textos para escrever, idéias no papel para colocar em prática. Mas não dava para não escrever, curioso como tudo flui melhor quando escrevo e fui chegando a conclusão que este é um exercício fundamental. Passei os últimos dias meio aborrecido com os imensos vazios à minha volta no ambiente profissional. Aqui da minha baia ouço os ruídos todos, mesmo sem querer, e me dava certa sensação de revolta jamais ouvir falar nada sério, nunca se conversar com prazer sobre política, por exemplo.
Também as notícias que vem lá da fortaleza de Kurtz nem sempre são animadoras, demonstrando que mais do que algo casual ou local é algo generalizado. Quando nem Kurtz, que tal como o personagem acredita que são preciso menos e melhores pessoas para ter chance de ganhar as batalhas não consegue recrutar os guerreiros que deseja é sinal da imensa falta de seres humanos que há no Brasil.

Uma reunião com o coronel Kurtz

Uma das oposições centrais de "No Coração das Trevas" parece-me ser entre a monotonia rotineira e desmotivada dos agentes coloniais em oposição à apaixonada ação de Kurtz. Ao longo de todo o trajeto - seja no Vietnã ou no Congo - o protagonista vai ouvindo falar de Kurtz. Só ele quer estar ali, só ele tem idéia do que fazer ali, só ele não está de passagem, só ele leva a sério certo discurso de civilização e humanismo. Não tenho dúvidas que por tudo isto Kurtz é irmão de Quixote e, como ele, enlouquece de uma insânia que nem por ser mais violenta deixa de ser a mesma.

Kurtz tem me ligado diversas vezes nestes dias. Acordei hoje com ele ao telefone me falando de suas idéias enquanto ia a uma reunião. No final da tarde sou eu quem me reúno com ele lá no coração das trevas. Como o protagonista da história de Conrad vou me sentindo percorrendo o rio e ouvindo falar de Kurtz e suas historias e projetos, me fascinando com aquele ponto alucinado de luz em meio a um dos lugares mais escuros da terra.

O macaco estava certo

Dr. Zaius: Guardião dos segredos terríveis e da dúvida se o macaco estava certo.Dr. Zaius: Guardião dos segredos terríveis e da dúvida se o macaco estava certo.
Um dos meus filmes preferidos sempre foi “O Planeta dos Macacos” de 1968. Ainda era criança a primeira vez que assisti mas me impressionou muito e a cada vez que assisto me chama a atenção um outro ângulo. Caso raro no qual os roteiristas e o diretor conseguiram produzir um resultado muito melhor e mais profundo do que o livro no qual foi baseado alterando quase tudo. Para ter uma idéia do livro basta dizer que a infeliz versão mais recente de “O Planeta dos Macacos” é relativamente fiel ao livro, por isto não estava lá a maioria dos elementos que tornaram a versão de 68 um clássico, mesmo nestes tempos de efeitos especiais. O primeiro ângulo que me chamou a atenção no filme, ainda quando tinha uns 6 anos, foi a questão dos maus-tratos aos animais, a vivissecção, as caçadas, as quais ganham uma força significativa através da inversão de papéis. Como até hoje esta é uma questão relevante para mim e uma das minhas batalhas pessoais, profissionais e políticas sinto a importância daquele filme.

Admirável Mundo Novo nos filmes infantis

Tenho falado diversas vezes sobre o triste fim da literatura infantil, em triste decadência. Sempre uso o exemplo de que as obras infantis de Monteiro Lobato dificilmente conseguiriam ser lidas pelas crianças de hoje, mas por outro lado tenho de reconhecer a qualidade crescente dos filmes infantis. E quando falo em qualidade não me refiro apenas à crescente e impressionante qualidade técnica, mas também à sofisticação dos roteiros.

Ainda sobre Almodóvar, mulheres e homens

Fale com ela: Rosário Flores e Pedro Almodóvar durante as filmagens de "Fale com Ela" (2002).  www.imdb.comFale com ela: Rosário Flores e Pedro Almodóvar durante as filmagens de "Fale com Ela" (2002). www.imdb.com

Um dos comentários que fiz no texto anterior, sobre o filme “Volver”, é que ao mesmo tempo em que ele destaca certa diferença de percepção masculina e feminina, o próprio fato dele ser um homem realizando filmes “de sensibilidade feminina” e que tem esmagadora maioria de seu público composto por mulheres é uma negação se não da diferença ao menos de que ela tenha a amplitude toda que faz parecer. Evidente que há algo de estilizado, portanto caricato como disse ontem, mas os aplausos do público feminino, por sua vez, também estabelecem certa contradição com esta idéia do caricato.
No filme considerado “masculino” de Almodóvar, “Fale com ela”, é evidente certa inversão de papéis, com uma mulher em um papel de toureiro que mais do que masculino é considerado até certo “símbolo” de virilidade enquanto mostra um homem em um papel de enfermeiro também não só usualmente exercido por mulheres, mas também carregado de certa “simbologia” feminina.

Volver

Volver: Carmem Maura e Penélope Cruz, "Volver". www.imdb.comVolver: Carmem Maura e Penélope Cruz , "Volver". www.imdb.com

Meus filmes preferidos de Almodóvar são “A Flor de Meu Segredo” e “Fale com ela”, mas sem dúvida o último filme, “Volver”, é bem impressionante. A temática principal do filme, para mim, pareceu ser a cumplicidade feminina, e neste sentido “faz par” com a cumplicidade masculina de “Fale com Ela”. Claro que é uma teoria muito particular e qualquer explicação sobre a criação tende a ser reducionista e frágil. Contudo é preciso notar que Almodóvar sempre parece ter uma linha ao longo da qual cria os filmes.

Uma utopia mais do que pessoal

Hoje eu queria propor a cada leitor um pequeno exercício de imaginação e, quem sabe, auto-conhecimento. Queria que cada um imaginasse como seria o mundo se todas as pessoas fossem iguais a ele nos valores, nos comportamentos, nas posturas, e sinceramente refletisse se um mundo cheio de imagens de si mesmo seria melhor ou pior do que o mundo no qual vive.
Imagino que a grande maioria das pessoas, em algum grau pelo menos, quer um mundo melhor e tem alguma idéia de como ele seria, algum projeto, alguma coisa que gostaria de melhorar. Alguns até se empenham de alguma forma para melhorar o mundo em sua volta – me lembrei aqui da inscrição na oficina de ferreiro do protagonista do excelente filme Cruzada: “que homem é o homem que não torna o mundo melhor” - mas mesmo aqueles que não agem neste sentido tem alguma noção de algo que poderia ser melhorado.

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