Voltaire

Pobres escolas

Pobres escolas

Alexandre Gomes

"Mas do que escolas, me instruiu uma biblioteca" (Borges)

As escolas são um meio ineficiente de educar, sempre foram e sempre serão. Em primeiro lugar porque só servem para a média dos indivíduos, quem está acima ou quem está abaixo desta média não terá jamais um espaço adequado lá porque elas jamais fornecerão a estes indivíduos toda a atenção que eles necessitam.

Em segundo lugar porque o objetivo primordial das escolas nunca foi o de educar, mas sim o de doutrinar (domesticar?) consciências medíocres e aptas a conviver em sociedade - e portanto respeitar as instituições. Em seu livro, tão excelente quanto pouco conhecido, "os demônios de Loudon", Aldous Huxley ironiza a pretensão dos jesuítas de moldar a mente dos seus alunos tal como se molda o corpo de uma criança enfaixando-a quando nasce.

Vathek: uma infernal jóia oriental

Vathek: uma infernal jóia oriental

Alexandre Gomes

Borges distinguiu o Inferno de Dante do descrito no Vathek de Beckford por considerar o primeiro não um lugar atroz, mas um lugar onde ocorrem fatos atrozes, enquanto o último seria o primeiro inferno realmente atroz da literatura. Confesso que o livro de Beckford passou inúmeras vezes pela minha mão no Outro Contos, este nosso templo da leitura que modestamente se chama apenas de sebo, talvez nunca o compraria se não fosse os comentários de Borges.
Não que o livro não tivesse me chamado a atenção, mas entre tantas tentações é sempre necessário traçar listas de prioridades nas quais ele acabou sendo sempre excluido à última hora. Mal compro o livro e devoro em poucas horas seu conteúdo, escrito numa prosa agradável que consegue ser rica sem ser rebuscada e numa história repleta de descrições minuciosas sem deixar de ser eficiente e atrativa.

Livros de insônia

Livros de insônia

Alexandre Gomes

Já citei inúmeras vezes aqui a frase de Borges segundo a qual mais do que escolas, ele foi educado por uma biblioteca. Há um outro aspecto desta frase, contudo, que eu não explorei. A leitura é geralmente vista como uma atividade de lazer, um modo agradável de passar o tempo, um meio para se conhecer o mundo numa viagem onírica (ainda que seja pelo sonho dos outros).
Mas reduzir a leitura, em especial de bons livros - cada vez mais raros - a simples hobby é não ser dotado da real capacidade de leitura. Ler é algo mais do que esta tarefa prosaica a qual se pode dedicar algumas horas vagas. Já houve quem tenha descrito o ofício de escritor como uma maldiçõa que impele o indivíduo a escrever, pouco se improtanto até mesmo se alguém vai ler, escreve porque para o verdadeiro escritor escrever é igual viver, ele é incapaz de conceber a vida sem escrever, assim como nào a concebe sem respirar.

Voltaire e o Islam

Voltaire e o Islam

Hilal Iskandar

A cultura Islâmica deu contribuições à cultura ocidental incomensuráveis que em geral são desconhecidas ou menosprezadas pelos ocidentais. Nos manuais escolares ensina-se, por exemplo, que os muçulmanos não produziram nada mas apenas coletaram conhecimentos de culturas mais antigas. Ainda que isto fosse verdade, o trabalho de síntese das tradições helênicas/helenística, egípcia, persa, hindu, siríaca, hebraica, bizantina e latinas não poderia ser menosprezada como "mera cópia".

Mas o objetivo deste pequeno ensaio não é discutir esta questão a fundo, apenas apresentar como um autor específico se aproveitou de alguns textos e histórias e ao mesmo tempo se colocava publicamente como inimigo do Islam. A prática de se copiar textos em árabe para apresentá-los como seus nunca foi novidade na cultura ocidental. A obra-prima que abre, por assim dizer, a Renascença - A Divina Comédia de Dante é parte plágio da Eneida e parte plágio de alguns relatos populares muçulmanos sobre a Viagem Noturna do profeta Mohammad (A paz e as bênçãos de Deus estejam com ele). Antes dele São Tomas de Aquino usa fartamente exposições e argumentos de Al Ghazali na sua Suma Teológica que norteia até hoje boa parte do clero cristão.

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