Jorge Luis Borge

Só a prosa é que se emenda

The Nine Muses inspiring Arion, Orpheus and Pythagoras under the auspieces of the Personified Air, source of all Harmony, 13th century, Public Library RheimsSebastião disse: não tem nada que saber do Belo, deixa o Belo pra lá, artista tem mais o que fazer. Este pessoal te amola muito? O Pessoal é este de quem os meninos fogem, saindo pelos fundos, pra não aturar frescuras: mãe, tem um pessoal das artes te chamando.” (Adélia Prado, Os componentes da Banda)

Uma das respostas cuja busca tem me atormentado é sobre o peso da inspiração e do esforço na arte. Grande parte de mim responde sem hesitar: a inspiração é a essência, é a parte verdadeira da criação. Quero crer como Pessoa-Caeiro na frase que serve de título que a poesia não se emenda, ela surge ou é descoberta.

Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança, por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.

Pobres escolas

Pobres escolas

Alexandre Gomes

"Mas do que escolas, me instruiu uma biblioteca" (Borges)

As escolas são um meio ineficiente de educar, sempre foram e sempre serão. Em primeiro lugar porque só servem para a média dos indivíduos, quem está acima ou quem está abaixo desta média não terá jamais um espaço adequado lá porque elas jamais fornecerão a estes indivíduos toda a atenção que eles necessitam.

Em segundo lugar porque o objetivo primordial das escolas nunca foi o de educar, mas sim o de doutrinar (domesticar?) consciências medíocres e aptas a conviver em sociedade - e portanto respeitar as instituições. Em seu livro, tão excelente quanto pouco conhecido, "os demônios de Loudon", Aldous Huxley ironiza a pretensão dos jesuítas de moldar a mente dos seus alunos tal como se molda o corpo de uma criança enfaixando-a quando nasce.

Ágora eletrônica ou teletela cibernética

Ágora eletrônica ou teletela cibernética

"Segundo a tradição, [os governos] foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham taxas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta os acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e suas efígies. Os políticos tiveram que buscar ofícios honestos; alguns foram bons cômicos ou bons curandeiros." (Borges, Utopia de um homem que está cansado)

Alexandre Gomes

Tenho dito diversas vezes que em breve o homem será chamado a decidir qual o futuro que deseja, se o renascimento da velha Atenas em um patamar mais elevado, se o mundo orwelliano das demências - em especial da demência da miséria e a demência da opressão. Alguém certamente protestará a respeito da petulância de um jornalistazinho de província que se propõe a imaginar como será o mundo, mas este tipo de observação é uma disgressão, Não um argumento e portanto pouco me importa.

A última e mais concreta muralha

A última e mais concreta muralha

Alexandre Gomes

"É curioso o destino do escritor. No início é barroco, vaidosamente barroco, e ao cabo de anos pode lograr, se lhe são favoráveis os astros, não a simplicidade, que não é nada, mas a modesta e secreta complexidade" (Borges)

A ciência nos ensina que a natureza evolui do simples ao complexo e por isto há no senso-comum a noção de que tudo é assim. Nas artes e na literatura em geral os efeitos deste pensamento equivocado é catastrófico.
Contrário ao conselho de Mario Quintana que devemos primeiro ser artesãos e, só com a mestria que o tempo e a experiência dão, tornarmos-nos artistas, hoje todos querem iniciar no topo. As condições de ignorância generalizada e desprezo (preguiça) pelo passado, somado ao câncer do talento que é a vaidade, tornam muito propício a generalização de obras que escondem sua incompetência e insensibilidade atrás de um pretenso hermetismo.

A inebriante liberdade dos Rubayat

A inebriante liberdade dos Rubayat

Alexandre Gomes

"Nada, eles não sabem nada, nada querem saber/ Vês esses ignorantes, eles dominam o mundo./ Se não é deles, chamam-te de descrente" (Khayyam, Rubayat)

Durante muito tempo da minha vida fui ateu. Não de um ateísmo sincero, mas um ateísmo religiosamente militante, fruto mais daquela presunção intelectual da adolescência que de um sentimento real. Há alguns anos tento me reconciliar com Deus que, a exemplo de tantas outras dádivas que tenho recebido, me devolveu a fé.

O medo da imortalidade

O medo da imortalidade

Alexandre Gomes

O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man) que estreou nos cinemas brasileiros esta semana traz uma edulcorada adaptação de dois contos de Isaac Asimov, como todos já devem ter lido à exaustão em milhares de textos sobre o filme. Um dos contos preferidos do próprio Asimov, O Homem Bicentenário fica bastante diluído dentro da trama da novela "O Homem Positrônico" na adaptação cinematográfica.

Há dois enredos concorrentes dentro da trama, motivada pela mistura das duas histórias. A idéia de um robô lutando para ser reconhecido como humano - o enredo de The Positronic Man - é hoje mais ou menos rotineira (embora não o fosse quando Asimov escreveu a história em 1976).

Vathek: uma infernal jóia oriental

Vathek: uma infernal jóia oriental

Alexandre Gomes

Borges distinguiu o Inferno de Dante do descrito no Vathek de Beckford por considerar o primeiro não um lugar atroz, mas um lugar onde ocorrem fatos atrozes, enquanto o último seria o primeiro inferno realmente atroz da literatura. Confesso que o livro de Beckford passou inúmeras vezes pela minha mão no Outro Contos, este nosso templo da leitura que modestamente se chama apenas de sebo, talvez nunca o compraria se não fosse os comentários de Borges.
Não que o livro não tivesse me chamado a atenção, mas entre tantas tentações é sempre necessário traçar listas de prioridades nas quais ele acabou sendo sempre excluido à última hora. Mal compro o livro e devoro em poucas horas seu conteúdo, escrito numa prosa agradável que consegue ser rica sem ser rebuscada e numa história repleta de descrições minuciosas sem deixar de ser eficiente e atrativa.

Sobre a leitura

Sobre a leitura

Alexandre Gomes

"Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que li" (Borges)

Falei antes do imenso prazer causado pelo turbilhão mental que a leitura de um bom livro pode proporcionar. Lembrei disso quando ouvi alguém me dizer que gosta muito de escrever, mas não tem paciência para ler. A observação me pareceu um disparate e arriscando-me a ser injusto já julguei mal qualquer coisa que o interlocutor infeliz poderia ter escrito.
Até acho possível, ainda que difícil, que alguém goste de ler mas não escreve. Escrever é sobretudo um dom e como tal de certa forma independe da nossa vontade e esforço escrever página memoráveis.

Forma e conteúdo

Forma e conteúdo

Alexandre Gomes

"O que é escrito sem esforço é lido sem prazer" ( Johnson)

A arte em todas as suas manifestações é prolífera em debates inúteis nos quais se radicalizam posições já em si extremadas e deixa-se de lado o sábio "caminho do meio". Um dos mais estéreis nichos deste debate é o que tenta antepor forma e conteúdo.
O estrago nesta área foi certamente maior nas artes plásticas, onde criou-se o mito de que só a forma é importante e gerou-se uma avalanche de artistas mais preocupados em mostrar que inovam as técnicas do que em dizer qualquer coisa por menor que seja. O que era uma vaga de renovação e sensibilidade nos impressionistas acabou por se tornar uma desculpa para iludir o público nos ultra-trans-neo-vanguardistas.

Livros de insônia

Livros de insônia

Alexandre Gomes

Já citei inúmeras vezes aqui a frase de Borges segundo a qual mais do que escolas, ele foi educado por uma biblioteca. Há um outro aspecto desta frase, contudo, que eu não explorei. A leitura é geralmente vista como uma atividade de lazer, um modo agradável de passar o tempo, um meio para se conhecer o mundo numa viagem onírica (ainda que seja pelo sonho dos outros).
Mas reduzir a leitura, em especial de bons livros - cada vez mais raros - a simples hobby é não ser dotado da real capacidade de leitura. Ler é algo mais do que esta tarefa prosaica a qual se pode dedicar algumas horas vagas. Já houve quem tenha descrito o ofício de escritor como uma maldiçõa que impele o indivíduo a escrever, pouco se improtanto até mesmo se alguém vai ler, escreve porque para o verdadeiro escritor escrever é igual viver, ele é incapaz de conceber a vida sem escrever, assim como nào a concebe sem respirar.

Divulgar conteúdo