José Ortega y Gasset, Monteiro Lobato, Naguib Mahfouz, Ruyard Kipling, Oliver Shanti, Desmond Morris, Jalaluddin Rumi, Oliviero Toscani, Frithjof Schuon, Marcia Nestardo, Stuart Mil, Platão de Atenas, Ruth Benedict, Philip Coombs, Miguel de Cervantes Saavedra, Aldous Huxley, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes, Sócrates, Aristóteles, Arnold Hauser, Friedrich Wilhelm Nietzsche, Shakespeare, Akira Kurosawa, Omar Khayyam, Rabi'a al-Adawiyya, Edward Marlborough FitzGerald, Jorge Luis Borge, Mario Covas, Marcio Moreira Alves, DH Lawrence, Swedenborg, Farid ud-din Attar, Marcelo Dantas, René Guénon, Platão, Sófocles, Eurípides, José Police Neto, Poetas, Omar Khayyam, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Ortega y Gasset, Hesse, Coombs

Talento e técnica

Uma das histórias do Mullah Nasrudin conta que um grupo de garotos o procura para dividir entre eles um monte de nozes. O mullah pergunta se eles desejam que ele faça a divisão segundo as leis de Deus ou dos homens. Como eles respondem que desejam que a repartição seja feita segundo as leis de Deus, Nasrudin dá a um monte de nozes, a outro uma, a outro nenhuma e segue assim distribuindo de forma arbitrária.

Esta história veio a memória na continuação da reflexão iniciada em post anterior sobre inspiração e técnica, talento e esforço – pares similares mas não idênticos – na questão do processo criativo. Há um paradoxo curioso nestes pares, ainda mais quando se pensa em outro par – arte de elite ou arte democrática – cuja importância é crucial no pensamento estético contemporâneo.

Só a prosa é que se emenda

The Nine Muses inspiring Arion, Orpheus and Pythagoras under the auspieces of the Personified Air, source of all Harmony, 13th century, Public Library RheimsSebastião disse: não tem nada que saber do Belo, deixa o Belo pra lá, artista tem mais o que fazer. Este pessoal te amola muito? O Pessoal é este de quem os meninos fogem, saindo pelos fundos, pra não aturar frescuras: mãe, tem um pessoal das artes te chamando.” (Adélia Prado, Os componentes da Banda)

Uma das respostas cuja busca tem me atormentado é sobre o peso da inspiração e do esforço na arte. Grande parte de mim responde sem hesitar: a inspiração é a essência, é a parte verdadeira da criação. Quero crer como Pessoa-Caeiro na frase que serve de título que a poesia não se emenda, ela surge ou é descoberta.

Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança, por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.

Nós, o Povo

Jeca Tatu“Mas pra mim, seu doutor não leve a mal, pra mim coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza...” (Guimarães Rosa, Sagarana)

 

Abstração terrível este de “povo”. Seja para ser aclamada ou vilipendiada ainda assim é uma abstração terrível, tanto pela sua absurda imprecisão de tentar reunir milhares de indivíduos em uma única categoria seja pela assustadora constatação de que ela faz algum sentido.

A tentação da ação

Fernando pessoaA vida prática sempre me pareceu o menos cômodo dos suicídios. Agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho injustamente condenado. Ter influência no mundo exterior, alterar coisas, transpor entes, influir em gente — tudo isto pareceu-me sempre de uma substância mais nebulosa que a dos meus devaneios. A futilidade imanente de todas as formas da ação foi, desde a minha infância, uma das medidas mais queridas do meu desapego até de mim. (Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego”)


 

 

Poucos ditados populares encontrariam tanto reforço nas mais elevadas e complexas teologias como o que diz que “de boas intenções o Inferno está cheio”. A nossa incompreensão dos intrincados mecanismos das coisas do mundo e até das sociedades nos faz tantas e tantas vezes agir de forma desastrosa até quando a intenção é fazer algo positivo. Talvez sabedoras disto as mais antigas e sólidas tradições religiosas tenham consagrado como o seu ideal de santo aquele que nada faz, só fica parado em contemplação e justificando assim a existência do mundo, tal como os grandes santos hindus, budistas, cristãos e alguns sheikhs sufis.

Guerra e Paz

Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se fizesse. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano, creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Mas o enorme esforço que é a guerra, só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um sistema de esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O outro é puro erro. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma coisa que importa fazer, que há que fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz não "está aí", simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo, de construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. “ (Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)

Já disse em inúmeras oportunidades que os melhores livros contra a guerra foram os escritos por soldados. Nada de Novo no Front escrito por um ex-soldado de pouca instrução é muito mais convincente do que mil tratados pacifistas calmamente escritos em gabinetes refrigerados de ministérios. Vivemos numa era em que boas intenções e más ações convivem e se misturam não só por hipocrisia mas também pela falta de coragem de pensar.

O discurso pacifista parece ser algo impossível de se atacar, afinal quem quer a guerra e todas as tragédias que ela traz? A questão, como bem aponta Ortega y Gasset, é que sob o rótulo de pacifismo combinam-se as mais várias visões de mundo, boa parte delas equivocada ao menos em alguns pontos.

Intuição

"Rumos opostos ao redor do círculo
São um rumo certo de Encontro" (DH Lawrence)

Quando a intuição falou
Fiquei pasmo de não ter visto
Tantas placas de aviso,
O tempo todo estava lá.

Percorri o círculo
E voltei ao início
Senti o sol em mim
E fui convidar a lua
Para um Eclipse

Professores e mestres

Professores e mestres

Alexandre Gomes

Há um diferença enorme entre ser professor - burocrata cumpridor de horários e planos de ensino - e ser mestre realmente preocupado com seus discípulos. O primeiro vê apenas números e notas, o segundo enxerga homens que podem ser melhorados. E já nem incluo neste rol um terceiro tipo, que sequer professor é, que anda proliferando pelas escolas do país contaminando o futuro da nação.
Um pequeno texto que circula há muito tempo, lembro de tê-lo lido em uma Seleções antiga e agora o redescubro na Internet, fala muito desta diferença entre professor e mestre. O título é "Lecionei a todos eles" e a versão mais comum é a seguinte:

O senhor das moscas

O senhor das moscas

“Se fizer uma revolução, a faça por diversão
Não a faça com a cara zangada
Nem a faça com mortal seriedade
Faça-a por diversão
(...)
Não a faça porque odeia as pessoas
mas para abrir seus olhos” (DH Lawrence, A Sane Revolution)

Geometria

Platão vetou a entrada na Academia
aos ignorantes da geometria
Imaginaram compassos e esquadros
Mas não enxergaram o jardim

Outros depois multiplicaram
Inúmeras dimensões daqui
Até as profundezas abissais
Mas não olharam para o céu

Bastaria ter começado aqui mesmo
Corte uma dimensão do hipercubo
entenderá, então, a eternidade
E terá tempo para Deus

Sobra então um cubo
Ignore a profundidade
tenta ver o que está oculto
e assim poderá se elevar às altitudes

Do quadrado que restou

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