Poesia

Só a prosa é que se emenda

The Nine Muses inspiring Arion, Orpheus and Pythagoras under the auspieces of the Personified Air, source of all Harmony, 13th century, Public Library RheimsSebastião disse: não tem nada que saber do Belo, deixa o Belo pra lá, artista tem mais o que fazer. Este pessoal te amola muito? O Pessoal é este de quem os meninos fogem, saindo pelos fundos, pra não aturar frescuras: mãe, tem um pessoal das artes te chamando.” (Adélia Prado, Os componentes da Banda)

Uma das respostas cuja busca tem me atormentado é sobre o peso da inspiração e do esforço na arte. Grande parte de mim responde sem hesitar: a inspiração é a essência, é a parte verdadeira da criação. Quero crer como Pessoa-Caeiro na frase que serve de título que a poesia não se emenda, ela surge ou é descoberta.

Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança, por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.

A tentação da ação

Fernando pessoaA vida prática sempre me pareceu o menos cômodo dos suicídios. Agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho injustamente condenado. Ter influência no mundo exterior, alterar coisas, transpor entes, influir em gente — tudo isto pareceu-me sempre de uma substância mais nebulosa que a dos meus devaneios. A futilidade imanente de todas as formas da ação foi, desde a minha infância, uma das medidas mais queridas do meu desapego até de mim. (Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego”)


 

 

Poucos ditados populares encontrariam tanto reforço nas mais elevadas e complexas teologias como o que diz que “de boas intenções o Inferno está cheio”. A nossa incompreensão dos intrincados mecanismos das coisas do mundo e até das sociedades nos faz tantas e tantas vezes agir de forma desastrosa até quando a intenção é fazer algo positivo. Talvez sabedoras disto as mais antigas e sólidas tradições religiosas tenham consagrado como o seu ideal de santo aquele que nada faz, só fica parado em contemplação e justificando assim a existência do mundo, tal como os grandes santos hindus, budistas, cristãos e alguns sheikhs sufis.

O Voto é Sagrado

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A escola onde voto em São Paulo – a FAI, na Avenida Nazaré no bairro do Ipiranga – já foi um seminário e conserva algo da atmosfera de mosteiro com os arcos ao estilo mourisco nos corredores ladeando o jardim, além dos diversos ciprestes. Fica fácil, assim, lembrar-me que o voto é sagrado cada vez que compareço às urnas, em um ambiente que mesmo já bastante alterado ainda faz lembrar um espaço de meditação e elevada reflexão

Antígona e o Bobo

3097473~King-Lear-and-the-Fool-in-the-Storm-Act-III-Scene-2-from-King-Lear-by-William-Shakespeare-1836-Posters Bobo - Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. (Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV)

Antígona - Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura (Sófocles, Antígona)

Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo portanto seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.

Horário Eleitoral na Grécia Antiga

A Escola de Athenas, de Rafael

Antígona - ...a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram! Tais decretos, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham a punir os deuses! (Antígona, Sófocles)

Repete-se a ponto de ter se tornado lugar comum a exaltação aos múltiplos legados da Grécia Clássica, em particular citando os dois mais destacados: a Filosofia e a Democracia. O senso comum perde muito da riqueza desta herança ao não ver que estes dois ramos construíram-se em profunda oposição um ao outro. Da mesma forma quem vê as costumeiras máscaras simbolizando a tragédia e a comédia poucas vezes se dá conta do intenso debate político travado através destes gêneros.

Revoluções, evoluções e involuções

A primeira vez que li George Orwell estava ainda na infância. Familiares decidiram que A Revolução dos Bichos era uma leitura interessante para me curar das minhas precoces inclinações comunistas. Li e gostei do livro, mas o remédio não teve o efeito previsto, tanto que alguns anos depois, com 13 anos tornei-me militante de um PCdoB que ainda se orgulhava de ser stalinista e ainda na ilegalidade, mesmo que já fora dos períodos mais sérios da ditadura militar.

A pena e a bomba

Como disse outro dia, estou relendo "O Crisântemo e a Espada" - estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.

A memória do herói

Agrada-me certa noção presente em algumas tradições segundo a qual a meta de nossa existência seria acrescentar certo tipo de “memória emotiva” à divindade, através a qual Ele pudesse enxergar-se. Em tal concepção o maior pecado seria ser chato, ter uma vida convencional da qual se é apenas sujeito passivo, portanto falhando do intuito fundamental da existência que seria o de acrescentar alguma vivência rica à unidade.

O resgate do poder da palavra

 "Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência e, ademais, de imaginar outra nunca existida (...)O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. A imaginação é o poder libertador que um homem tem. Um povo é capaz de organizar um Estado na medida da sua imaginação" (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas).

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A crise institucional do país aparece de forma clara, evidente por si mesma e atinge em especial aos parlamentos. É preciso enfrentar a questão de frente e ir para além da simples discussão técnica sobre reforma política, emendas e remendos na legislação. A despeito de ser possível enfrentar alguns aspectos específicos desta crise através de mudanças na legislação, em particular nos sistemas eleitorais, a raiz mesmo da questão parece estar mais ligada a outros elementos que, se não forem pensados, tornarão mesmo a mais radical reforma política inócua.

Democracia e aristocracias

Não consigo chegar a nenhum acordo comigo mesmo sobre a democracia. De um lado sinto a democracia real como algo que caminha para o grotesco, impele o ser humano para os mais baixos degraus da vida social, estimula a mediocridade e a corrupção, entrega o poder a pessoas que nenhuma autoridade tem para exercê-lo. De um outro lado a vejo como um ideal sublime, única forma de governo capaz de realmente fazer jus à condição humana e a única na qual é possível evitar a degradação.
Não, a questão não está em distinguir a democracia ideal e a real. Esta seria uma distinção simplista e, ademais, há pontos questionáveis na democracia ideal tanto quanto há aspectos elevados na democracia real.

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