Pessoal

Só a prosa é que se emenda

The Nine Muses inspiring Arion, Orpheus and Pythagoras under the auspieces of the Personified Air, source of all Harmony, 13th century, Public Library RheimsSebastião disse: não tem nada que saber do Belo, deixa o Belo pra lá, artista tem mais o que fazer. Este pessoal te amola muito? O Pessoal é este de quem os meninos fogem, saindo pelos fundos, pra não aturar frescuras: mãe, tem um pessoal das artes te chamando.” (Adélia Prado, Os componentes da Banda)

Uma das respostas cuja busca tem me atormentado é sobre o peso da inspiração e do esforço na arte. Grande parte de mim responde sem hesitar: a inspiração é a essência, é a parte verdadeira da criação. Quero crer como Pessoa-Caeiro na frase que serve de título que a poesia não se emenda, ela surge ou é descoberta.

Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança, por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.

Real e ideal

 

Maquiavel“Entretanto, como é meu desejo escrever coisa útil para os que tiverem interesse. mais conveniente me pareceu buscar a verdade pelo fito das coisas, do que por aquilo que delas se venha a supor. E muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos e nunca tidos como verdadeiros. Tanta diferença existe entre o modo como se vive e como se deveria viver. que aquele que se preocupar com o que deveria ser feito em vez do que se faz. antes aprende a própria ruína do que a maneira de se conservar; e um homem que desejar fazer profissão de bondade, mui natural é que se arruíne entre tantos que são Perversos.” (Maquiavel, O Príncipe)

 

MorusTenho tentado, continuou Rafael, descrever-vos a forma desta república, que julgo ser, não somente a melhor, como a única que pode se arrogar, com boa justiça, do nome de república. Porque, em qualquer outra parte, aqueles que falam de interesse geral não cuidam senão de seu interesse pessoal; enquanto que lá, onde não se possui nada em particular, todo mundo se ocupa seriamente da causa pública, pois o bem particular realmente se confunde com o bem geral..(Thomas Morus, Utopia)

 

Quase sempre que me pedem alguma exposição sobre política começo citando estes dois textos, de Maquiavel e Morus, como início da conversa. Por algum motivo meio misterioso – não sei se biológico, cultural, social ou seja lá qual for – o pensamento humano é viciado em dicotomias, nesta mania de separar o mundo em duas metades distintas – nem sempre muito bem feita. Enxergar o mundo como antíteses tem o defeito de impedir ou limitar duas ouras formas de ver as coisas. De um lado impede que se verifique a possibilidade de um continuum (que numa verdadeira dicotomia seria impossível pelos termos serem mutuamente excludentes) e de outro impede a síntese que a cada momento pode contribuir para uma explicação mais precisa.

Profissão, Vocação, Destino

A famosa citação de Weber sobre a política como vocação e a política como profissão tem servido aos mais variados usos equivocados. Ela também está parcialmente contaminada por uma visão tornada arcaica pela complexidade crescente do mundo e da gestão pela qual a política deve ser hobby de aristocratas ociosos. Hoje nem mesmo os setores da burgueisia e os altos executivos poderiam dispender seu tempo na política e ao mesmo tempo serem capazes de desempenhar suas funções.

Entre escravos

411181-Djinn_largeTornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
” ( Fausto, Goethe)

Houve tempos nos quais podia escrever para outros um texto do qual discordasse, de forma rápida e praticamente indolor. Este exercício foi ficando cada vez mais penoso e ainda embora ainda seja capaz deste ofício de ghost-writer confesso que o resultado é um produto sem sem alma. Pateticamente percebo que muitos, em especial os clientes, não percebem a diferença .

A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em comparação com o passado . Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de grandeza ou fraqueza libertei.

Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá remorso tê-lo usado de forma tão vil em tarefas tão banais . Se um dia eu também for livre como ele sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.

Outra visita do djin

Visita esperada



Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...

(...)

O Voto é Sagrado

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A escola onde voto em São Paulo – a FAI, na Avenida Nazaré no bairro do Ipiranga – já foi um seminário e conserva algo da atmosfera de mosteiro com os arcos ao estilo mourisco nos corredores ladeando o jardim, além dos diversos ciprestes. Fica fácil, assim, lembrar-me que o voto é sagrado cada vez que compareço às urnas, em um ambiente que mesmo já bastante alterado ainda faz lembrar um espaço de meditação e elevada reflexão

Modernos, modernistas e modernosos

Paranóia E Mistificação: quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no

Paranóia E Mistificação: (a esquerda) quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no "Homem Amarelo"de Malfatti (a direita) em 1916, gerando a polêmica com Monteiro lobato

A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. (Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação)

anita2 Um amigo me pede um texto sobre Monteiro Lobato e os modernistas após alguma polêmica sobre o assunto. Se eu precisasse reduzir todo o comentário a uma frase diria que Lobato é que era verdadeiramente moderno naquele momento. Se pudesse ainda acrescentar algo comentaria que a crítica de Lobato aos modernistas não é pela inovação proposta por eles, mas pela falta de novidade e sinceridade do movimento.
O que ocorria de mais moderno no país, naquele momento, era justamente a superação dos modelos copiados das últimas modas européias, francesas em particular. Moderno de fato era a crença profunda de Lobato que o pensamento brasileiro deveria refletir sobre os problemas do país, usando a linguagem do povo e jogando no lixo os academicismos, elitismos e sectarismos todos.

Antígona e o Bobo

3097473~King-Lear-and-the-Fool-in-the-Storm-Act-III-Scene-2-from-King-Lear-by-William-Shakespeare-1836-Posters Bobo - Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. (Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV)

Antígona - Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura (Sófocles, Antígona)

Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo portanto seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.

Horário Eleitoral na Grécia Antiga

A Escola de Athenas, de Rafael

Antígona - ...a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram! Tais decretos, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham a punir os deuses! (Antígona, Sófocles)

Repete-se a ponto de ter se tornado lugar comum a exaltação aos múltiplos legados da Grécia Clássica, em particular citando os dois mais destacados: a Filosofia e a Democracia. O senso comum perde muito da riqueza desta herança ao não ver que estes dois ramos construíram-se em profunda oposição um ao outro. Da mesma forma quem vê as costumeiras máscaras simbolizando a tragédia e a comédia poucas vezes se dá conta do intenso debate político travado através destes gêneros.

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