Educação

Só a prosa é que se emenda

The Nine Muses inspiring Arion, Orpheus and Pythagoras under the auspieces of the Personified Air, source of all Harmony, 13th century, Public Library RheimsSebastião disse: não tem nada que saber do Belo, deixa o Belo pra lá, artista tem mais o que fazer. Este pessoal te amola muito? O Pessoal é este de quem os meninos fogem, saindo pelos fundos, pra não aturar frescuras: mãe, tem um pessoal das artes te chamando.” (Adélia Prado, Os componentes da Banda)

Uma das respostas cuja busca tem me atormentado é sobre o peso da inspiração e do esforço na arte. Grande parte de mim responde sem hesitar: a inspiração é a essência, é a parte verdadeira da criação. Quero crer como Pessoa-Caeiro na frase que serve de título que a poesia não se emenda, ela surge ou é descoberta.

Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança, por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.

Modernos, modernistas e modernosos

Paranóia E Mistificação: quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no

Paranóia E Mistificação: (a esquerda) quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no "Homem Amarelo"de Malfatti (a direita) em 1916, gerando a polêmica com Monteiro lobato

A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. (Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação)

anita2 Um amigo me pede um texto sobre Monteiro Lobato e os modernistas após alguma polêmica sobre o assunto. Se eu precisasse reduzir todo o comentário a uma frase diria que Lobato é que era verdadeiramente moderno naquele momento. Se pudesse ainda acrescentar algo comentaria que a crítica de Lobato aos modernistas não é pela inovação proposta por eles, mas pela falta de novidade e sinceridade do movimento.
O que ocorria de mais moderno no país, naquele momento, era justamente a superação dos modelos copiados das últimas modas européias, francesas em particular. Moderno de fato era a crença profunda de Lobato que o pensamento brasileiro deveria refletir sobre os problemas do país, usando a linguagem do povo e jogando no lixo os academicismos, elitismos e sectarismos todos.

Educação, quantidade e qualidade

"Acima de tudo, precisarão de coisas que o dinheiro não poder comprar: idéias e coragem, determinação e disposição para auto-avaliação, reforçadas por um desejo de aventura e mudança" (Philip Coombs, A Crise Mundial da Educação)

 

O djinn me fala sobre liberdade e escravidão

Quem passou esta semana para visitar-me foi aquele djinn que por algum tempo foi meu escravo, encarregado de redigir boa parte de meus textos. Veio de livre e espontânea vontade, com um bronzeado de quem está aproveitando as férias após milênios de escravidão e certo ar de sarcasmo de sempre.
Fiquei com a impressão de que só perguntou o que eu andava fazendo por educação, porque parece muito bem informado sobre meus afazeres atuais, não teve dificuldade nenhuma em encontrar minha nova sala 5 andares acima da anterior e ainda estava afiado para debater minhas ações atuais.

O cansaço da elite

Fico espantado com a aversão que se tem hoje pela palavra elite, atirada como xingamento ou ostentada pelo seu inverso. A questão essencial parece ser apenas a ausência de uma definição dos termos, ou seja de se compreender que elite significa aquela parte da humanidade que transcende a existência vulgar. Ela não se contrapõe à “verdade evidente por si mesma” – na bela forma da Declaração de Independência dos Estados Unidos – de que os homens nascem iguais, mas apenas reconhece também a outra verdade evidente por si mesma que o uso que os homens fazem da vida que recebem não é igual.
Repito talvez pela milésima vez que há a igualdade de direitos, não a de deveres. Qualquer um que reivindique mais direitos ou menos deveres pertence não à elite, mas á escória. A elite é justamente aquela parte da humanidade que não precisa de absolutamente nada – nem leis, nem contenção, nem repressão, nem castigo, nem reconhecimento, nem apreço, nem recompensa, nem prêmio, nem poder – para agir corretamente e cumprir sua missão. Por isto raramente se verá um integrante desta elite reivindicar sua posição de elite, afinal a opinião da massa pouco importa a ele.

O homem que escrevia

Às vezes me sinto como um dos últimos sobreviventes de alguma etnia em extinção. Imagino que deve ter sido uma sensação semelhante a de Dom Quixote antes de simplesmente perder de vez o juízo. Basta olhar em volta para ver que o exercício da escrita está desaparecendo.
Não, não adianta dizer que nunca as pessoas escreveram tanto e citar, por exemplo, as mensagens da Internet como um exemplo. Em primeiro lugar, sem nem entrar no mérito da qualidade terrível do conteúdo, em geral elas são reproduzidas até o infinito, muito pouco é criado de fato e as pessoas sequer são capazes de exercer a mínima reflexão crítica sobre elas. Em muitos casos desconfiam que sequer quem a reenvia a lê.
Ainda sem entrar na questão do gosto duvidoso, faço sobre este mau exemplo duas observações. A primeira é que há coisas que não podem ser ensinadas pela palavra escrita – diga-se de passagem, que a grande maioria dos mestres de verdade jamais escreveu uma linha.

Admirável Mundo Novo nos filmes infantis

Tenho falado diversas vezes sobre o triste fim da literatura infantil, em triste decadência. Sempre uso o exemplo de que as obras infantis de Monteiro Lobato dificilmente conseguiriam ser lidas pelas crianças de hoje, mas por outro lado tenho de reconhecer a qualidade crescente dos filmes infantis. E quando falo em qualidade não me refiro apenas à crescente e impressionante qualidade técnica, mas também à sofisticação dos roteiros.

Seleção e eleição

Uma de minhas maiores ambições intelectuais – cuja dificuldade de ser realizada não impede que seja um estímulo à reflexão – é ser capaz de juntar as duas pontas opostas do legado da Grécia Clássica. De um lado a filosofia – de natureza essencialmente aristocrática – e de outro sua antítese a democracia, contra a qual os filósofos – em especial a ainda insuperada tríade Sócrates, Platão e Aristóteles – construiram a maior parte das suas idéias.

Uma utopia mais do que pessoal

Hoje eu queria propor a cada leitor um pequeno exercício de imaginação e, quem sabe, auto-conhecimento. Queria que cada um imaginasse como seria o mundo se todas as pessoas fossem iguais a ele nos valores, nos comportamentos, nas posturas, e sinceramente refletisse se um mundo cheio de imagens de si mesmo seria melhor ou pior do que o mundo no qual vive.
Imagino que a grande maioria das pessoas, em algum grau pelo menos, quer um mundo melhor e tem alguma idéia de como ele seria, algum projeto, alguma coisa que gostaria de melhorar. Alguns até se empenham de alguma forma para melhorar o mundo em sua volta – me lembrei aqui da inscrição na oficina de ferreiro do protagonista do excelente filme Cruzada: “que homem é o homem que não torna o mundo melhor” - mas mesmo aqueles que não agem neste sentido tem alguma noção de algo que poderia ser melhorado.

Guerreiros e pacifistas

Sou um pacifista radical, mas um pacifista que não só não deixa de admirar as qualidades de guerreiro – como dizia Gandhi, ao pacifista são necessárias todas as qualidades do guerreiro menos o crime – como também tenho a consciência de que há momentos nos quais a luta é necessária. Não só aquela luta íntima pelo aprimoramento constante, pela necessidade de superar-se sempre, mas ás vezes também a luta que tenta restabelecer o equilíbrio ao redor. Talvez por isto eu tenha a satisfação de ter entre meus amigos tantos pacifistas radicais como diversos militares e me entenda muito bem com ambos.

Divulgar conteúdo