Política

A tentação da ação

Fernando pessoaA vida prática sempre me pareceu o menos cômodo dos suicídios. Agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho injustamente condenado. Ter influência no mundo exterior, alterar coisas, transpor entes, influir em gente — tudo isto pareceu-me sempre de uma substância mais nebulosa que a dos meus devaneios. A futilidade imanente de todas as formas da ação foi, desde a minha infância, uma das medidas mais queridas do meu desapego até de mim. (Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego”)


 

 

Poucos ditados populares encontrariam tanto reforço nas mais elevadas e complexas teologias como o que diz que “de boas intenções o Inferno está cheio”. A nossa incompreensão dos intrincados mecanismos das coisas do mundo e até das sociedades nos faz tantas e tantas vezes agir de forma desastrosa até quando a intenção é fazer algo positivo. Talvez sabedoras disto as mais antigas e sólidas tradições religiosas tenham consagrado como o seu ideal de santo aquele que nada faz, só fica parado em contemplação e justificando assim a existência do mundo, tal como os grandes santos hindus, budistas, cristãos e alguns sheikhs sufis.

Realistado

O mundo andava chato e sem sentido. O sintoma claro do meu desencanto era aquela vontade reiterada de mudar pro mato e plantar jabuticabas, goiabas, gabirobas e coisas do tipo.
Digo que andava sem sentido não com aquela sóbria visão como a que Caeiro/Pessoa diz que basta uma coisa existir para ser completa e que são vãos e inúteis todos os esforços do pensamento de tentar compreender a mínima coisa. Digo sem sentido porque quando não se sabe para onde vai mesmo que se veja a estrada não há com se decidir por um lado dela.
Digo que andava chato porque parecia que mais nada nele conseguia despertar do enfado do cotidiano, nada quebrava o sono que não era o bom sono de quem está no mundo sem ser do mundo, mas sim o sono da apatia de quem não está no mundo mas tampouco fora dele.

Andava nestas quando Kurtz ligou de seu posto lá no ponto mais negro do Coração das Trevas. 

Divulgar conteúdo