O futuro

A tentação da ação

Fernando pessoaA vida prática sempre me pareceu o menos cômodo dos suicídios. Agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho injustamente condenado. Ter influência no mundo exterior, alterar coisas, transpor entes, influir em gente — tudo isto pareceu-me sempre de uma substância mais nebulosa que a dos meus devaneios. A futilidade imanente de todas as formas da ação foi, desde a minha infância, uma das medidas mais queridas do meu desapego até de mim. (Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego”)


 

 

Poucos ditados populares encontrariam tanto reforço nas mais elevadas e complexas teologias como o que diz que “de boas intenções o Inferno está cheio”. A nossa incompreensão dos intrincados mecanismos das coisas do mundo e até das sociedades nos faz tantas e tantas vezes agir de forma desastrosa até quando a intenção é fazer algo positivo. Talvez sabedoras disto as mais antigas e sólidas tradições religiosas tenham consagrado como o seu ideal de santo aquele que nada faz, só fica parado em contemplação e justificando assim a existência do mundo, tal como os grandes santos hindus, budistas, cristãos e alguns sheikhs sufis.

Real e ideal

 

Maquiavel“Entretanto, como é meu desejo escrever coisa útil para os que tiverem interesse. mais conveniente me pareceu buscar a verdade pelo fito das coisas, do que por aquilo que delas se venha a supor. E muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos e nunca tidos como verdadeiros. Tanta diferença existe entre o modo como se vive e como se deveria viver. que aquele que se preocupar com o que deveria ser feito em vez do que se faz. antes aprende a própria ruína do que a maneira de se conservar; e um homem que desejar fazer profissão de bondade, mui natural é que se arruíne entre tantos que são Perversos.” (Maquiavel, O Príncipe)

 

MorusTenho tentado, continuou Rafael, descrever-vos a forma desta república, que julgo ser, não somente a melhor, como a única que pode se arrogar, com boa justiça, do nome de república. Porque, em qualquer outra parte, aqueles que falam de interesse geral não cuidam senão de seu interesse pessoal; enquanto que lá, onde não se possui nada em particular, todo mundo se ocupa seriamente da causa pública, pois o bem particular realmente se confunde com o bem geral..(Thomas Morus, Utopia)

 

Quase sempre que me pedem alguma exposição sobre política começo citando estes dois textos, de Maquiavel e Morus, como início da conversa. Por algum motivo meio misterioso – não sei se biológico, cultural, social ou seja lá qual for – o pensamento humano é viciado em dicotomias, nesta mania de separar o mundo em duas metades distintas – nem sempre muito bem feita. Enxergar o mundo como antíteses tem o defeito de impedir ou limitar duas ouras formas de ver as coisas. De um lado impede que se verifique a possibilidade de um continuum (que numa verdadeira dicotomia seria impossível pelos termos serem mutuamente excludentes) e de outro impede a síntese que a cada momento pode contribuir para uma explicação mais precisa.

Guerra e Paz

Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se fizesse. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano, creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Mas o enorme esforço que é a guerra, só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um sistema de esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O outro é puro erro. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma coisa que importa fazer, que há que fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz não "está aí", simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo, de construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. “ (Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)

Já disse em inúmeras oportunidades que os melhores livros contra a guerra foram os escritos por soldados. Nada de Novo no Front escrito por um ex-soldado de pouca instrução é muito mais convincente do que mil tratados pacifistas calmamente escritos em gabinetes refrigerados de ministérios. Vivemos numa era em que boas intenções e más ações convivem e se misturam não só por hipocrisia mas também pela falta de coragem de pensar.

O discurso pacifista parece ser algo impossível de se atacar, afinal quem quer a guerra e todas as tragédias que ela traz? A questão, como bem aponta Ortega y Gasset, é que sob o rótulo de pacifismo combinam-se as mais várias visões de mundo, boa parte delas equivocada ao menos em alguns pontos.

Antígona e o Bobo

3097473~King-Lear-and-the-Fool-in-the-Storm-Act-III-Scene-2-from-King-Lear-by-William-Shakespeare-1836-Posters Bobo - Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. (Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV)

Antígona - Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura (Sófocles, Antígona)

Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo portanto seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.

Revoluções, evoluções e involuções

A primeira vez que li George Orwell estava ainda na infância. Familiares decidiram que A Revolução dos Bichos era uma leitura interessante para me curar das minhas precoces inclinações comunistas. Li e gostei do livro, mas o remédio não teve o efeito previsto, tanto que alguns anos depois, com 13 anos tornei-me militante de um PCdoB que ainda se orgulhava de ser stalinista e ainda na ilegalidade, mesmo que já fora dos períodos mais sérios da ditadura militar.

Eterno e etéreo

“O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem” (Guimarães Rosa, citado no artigo Sobre política e jardinagem, Folha de São Paulo, 19/5/200 de Rubem Alves)

Cassandras e Prometeus

srubens114 Desde a época na qual a vocação e a profissão da política não se entremeavam, quando tentava apontar caminhos enquanto jornalista para a política, sentia que pesava sobre mim maldição similar a de Cassandra – a troiana que

O aprendizado

Por conta da necessidade de organizar as idéias e planejar acabo tendo de escrever sobre política porque é difícil falar sobre outra coisa senão aquilo que se tem em mente. No meio de tantas dúvidas, incertezas, descrenças e fés vou tentando encontrar esperanças de que a política ainda possa ser um campo de luta.
Acho que poucos de todos os pensadores, antigos ou modernos, amaram tanto a democracia como o liberal e utilitarista Stuart Mill. Não vejo em nenhum outro pensador à esquerda ou à direita o mesmo sentido de defesa da democracia como valor essencial, não conjuntural, em elemento de princípio e fim em si, não mero instrumento. É com a função de preservá-la e desenvolvê-la que ele pensa as instituições, não com o de manipulá-la. Mas, encanta-me, sobretudo a noção fundamental no pensamento dele de que a democracia é o único regime no qual os homens podem aprender, desenvolver-se, portanto o único aceitável para seres humanos plenos.

O homem que escrevia

Às vezes me sinto como um dos últimos sobreviventes de alguma etnia em extinção. Imagino que deve ter sido uma sensação semelhante a de Dom Quixote antes de simplesmente perder de vez o juízo. Basta olhar em volta para ver que o exercício da escrita está desaparecendo.
Não, não adianta dizer que nunca as pessoas escreveram tanto e citar, por exemplo, as mensagens da Internet como um exemplo. Em primeiro lugar, sem nem entrar no mérito da qualidade terrível do conteúdo, em geral elas são reproduzidas até o infinito, muito pouco é criado de fato e as pessoas sequer são capazes de exercer a mínima reflexão crítica sobre elas. Em muitos casos desconfiam que sequer quem a reenvia a lê.
Ainda sem entrar na questão do gosto duvidoso, faço sobre este mau exemplo duas observações. A primeira é que há coisas que não podem ser ensinadas pela palavra escrita – diga-se de passagem, que a grande maioria dos mestres de verdade jamais escreveu uma linha.

O macaco estava certo

Dr. Zaius: Guardião dos segredos terríveis e da dúvida se o macaco estava certo.Dr. Zaius: Guardião dos segredos terríveis e da dúvida se o macaco estava certo.
Um dos meus filmes preferidos sempre foi “O Planeta dos Macacos” de 1968. Ainda era criança a primeira vez que assisti mas me impressionou muito e a cada vez que assisto me chama a atenção um outro ângulo. Caso raro no qual os roteiristas e o diretor conseguiram produzir um resultado muito melhor e mais profundo do que o livro no qual foi baseado alterando quase tudo. Para ter uma idéia do livro basta dizer que a infeliz versão mais recente de “O Planeta dos Macacos” é relativamente fiel ao livro, por isto não estava lá a maioria dos elementos que tornaram a versão de 68 um clássico, mesmo nestes tempos de efeitos especiais. O primeiro ângulo que me chamou a atenção no filme, ainda quando tinha uns 6 anos, foi a questão dos maus-tratos aos animais, a vivissecção, as caçadas, as quais ganham uma força significativa através da inversão de papéis. Como até hoje esta é uma questão relevante para mim e uma das minhas batalhas pessoais, profissionais e políticas sinto a importância daquele filme.

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