Volver
Volver: Carmem Maura e Penélope Cruz , "Volver". www.imdb.com
Meus filmes preferidos de Almodóvar são “A Flor de Meu Segredo” e “Fale com ela”, mas sem dúvida o último filme, “Volver”, é bem impressionante. A temática principal do filme, para mim, pareceu ser a cumplicidade feminina, e neste sentido “faz par” com a cumplicidade masculina de “Fale com Ela”
Sempre destaco que praticamente todos os filmes até “Tudo sobre minha mãe” já estavam em esboço em um filme dele de 83, “Maus Hábitos”
A despeito de certa representação estilizada, portanto sempre tendendo a certa caricatura, não deixa de ser curioso que em “Fale com ela” o centro sejam dois personagens masculinos, mas o foco sejam as mulheres, enquanto em “Volver” os homens são quase ausentes, sendo apenas elementos perturbadores. O fato de ser um homem a escrever e dirigir filmes que tem uma esmagadora platéia feminina e que fala sobre as mulheres e os sentimentos femininos é, por si só, uma certa contra-prova da tese central do diretor que há uma sensibilidade feminina diferenciada da masculina. Às vezes até acho que no fundo há uma certa misoginia em Almodóvar, quem sabe até uma “inveja do útero” como diria alguma escola de psicanálise heterodoxa.
Uma das referências que piscaram na minha mente quando assisti o filme foi um trecho de Mircea Eliade no qual ele compara a visão religiosa da morte nas sociedades primitivas baseadas na caça – de natureza masculina – e a visão das sociedades agrícolas – de natureza feminina. A despeito de certos discursos sexistas, as sociedades humanas evoluiram do patriarcado das sociedades de caça – que deram o caráter coletivo e público às sociedades masculinas e a perspectiva individual e privada das mulheres para as sociedades matriarcais baseadas na agricultura.
A caça, por lidar com recursos que a experiência logo mostrou serem escassos, via a morte como um acontecimento trágico. Até hoje as sociedades de caçadores – que tem como concepção de mundo a visão xamânica muito similar atestando sua antigüidade e embasando as teorias de que também nossos ancestrais pré-humanos praticavam crenças semelhantes – demonstram um respeito pela presa e invocam a necessidade de pedir perdão a ela e permissão a algum ser superior para o abate (assim como de alguma forma prevêem a existência de algum tipo de “senhor ou senhora das feras” que pune os abusos, arquétipo tanto de Diana grega como do Curupira brasileiro).
Já a descoberta da Agricultura deu ao ser humano a perspectiva de recursos renováveis e uma cosmovisão da morte relativizada. Eliade chega a insinuar que os sistemas simbólicos que falam de juízo final são masculinos e pastoris (o pastoreio sendo a versão atualizada da caça) e os centrados na transmigração sejam agrícolas
Mas a despeito de todas as reflexões sobre a morte, em particular pela belíssima cena inicial do filme em um cemitério, o filme não me pareceu ser sobre ela, mas sobre a estruturação de uma sociedade cada vez mais feminina em um mundo no qual os homens estão mais ausentes (e neste sentido “Volver” tem um certo laço com “Tudo sobre minha Mãe”). A própria cena inicial pareceu-me ter exatamente este caráter, assim como o fato dos personagens masculinos serem praticamente figurantes, mesmo quando geram algumas das chaves do filme.
Não tenho conhecimento para avaliar o filme do ponto de vista técnico, mas arrisco-me a observar que o bom desempenho da usualmente medíocre Penélope Cruz ajudou-me a resolver uma dúvida – se Almodóvar tem um talento especial para escolher bons atores e atrizes ou se é a sua direção que faz com eles rendam todo o seu potencial. Fiquei também curioso em encontrar uma explicação para a substituição dos bolerões – menos presentes desde “Fale com Ela” - pelo Flamenco, em particular pelo flamenco mais “morisco” no qual os vocaleios são mais importantes, igualmente trágico, mas enérgico ao invés de lamuriento. Certamente Cruz não é Estrella Morente, mas o desempenho quase de improviso é aceitável.
Estrella Morente cantando a música flamenca do filme, link youtube

Comentários
Alexandre, seu excelente
Alexandre, seu excelente post de hoje me fez abrir uma nova lista: "filmes que preciso ver".
Obrigada por mais esta prazerosa leitura!
Quanto ao controvertido assunto: sociedades agrárias-matrifocais versus sociedades pastoris-patriarcais, há um excelente livro da Riane Eisler: O Prazer Sagrado, editado pela Rocco, que aborda o tema sob a perspectiva da sexualidade.
Abraços!
Panorama
Alexandre, realmente você teceu um panorama bem sólido sobre Almodovar, como disse não sou lá grande fã dele e sempre o achei um tanto histérico (ou histrionico, já que histérico tem conotação não-exata), porém "Volver" consegue ir um pouco além do usual, e não consigo identificar isso em outros filmes...
Sobre Penélope, tente assistir a alguns filmes espanhóis da moçoila, o meu preferido e não-Almodovar é "Abra los ojos".
Johnny, em certo sentido
Johnny, em certo sentido acabo dizendo também que Almodóvar tem certo caráter histérico, ao menos no sentido original do termo que é justamente o de "uterino". Quanto a certa evolução de Almodóvar - que enxergo a partir de "Fale com ela", suspeito que tenha algo a ver com ele se livrar de alguns "pré-conceitos" conceituais.
Quanto a sua observação sobre Penélope Cruz vou checar as indicações que você me passou.
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