Vidas plenas

Estou com a mesa cheia de coisa para fazer, textos para escrever, idéias no papel para colocar em prática. Mas não dava para não escrever, curioso como tudo flui melhor quando escrevo e fui chegando a conclusão que este é um exercício fundamental. Passei os últimos dias meio aborrecido com os imensos vazios à minha volta no ambiente profissional. Aqui da minha baia ouço os ruídos todos, mesmo sem querer, e me dava certa sensação de revolta jamais ouvir falar nada sério, nunca se conversar com prazer sobre política, por exemplo.
Também as notícias que vem lá da fortaleza de Kurtz nem sempre são animadoras, demonstrando que mais do que algo casual ou local é algo generalizado. Quando nem Kurtz, que tal como o personagem acredita que são preciso menos e melhores pessoas para ter chance de ganhar as batalhas não consegue recrutar os guerreiros que deseja é sinal da imensa falta de seres humanos que há no Brasil.
Sinto-me como vindo de algum outro tempo distante e já finito, quando o enorme privilégio de fazer parte do Poder, do Estado, do núcleo dirigente, enfim, nem que fosse como contínuo – curioso lembrar que quando Kurtz começou sua trajetória era o garoto que cuidava da xérox - era um prêmio aos melhores e mais disciplinados soldados. Mas depois de refletir, meditar, pensar, esforçar-me para retirar do meu pensamento aquilo que fosse subjetivo, enviesado, cheguei à conclusão que as maiores vítimas são os próprios alienados. A indignação foi em grande parte substituída por certo sentimento de piedade com relação àqueles que vivem vidas vazias, naqueles que transformam o que poderia ser uma experiência extraordinária em mera ocupação do tempo de ócio com tédio pretensioso.
Como sempre, quando algo me irrita nos outros busco também em mim as mesmas falhas. Julgo que esta é sempre uma grande arma para lutarmos pela nossa superação, porque na imensa maioria das vezes o erro que vemos outros está em nós mesmos. Às vezes me sinto também desmotivado, fazendo muito menos do que poderia fazer, nem sempre enxergando a imensa responsabilidade que me foi dada. Não tenho ambições tacanhas ou pobres, esforço-me por concentrar-me no meu aprimoramento, mas sei que muitas vezes negligencio tantas tarefas que poderia fazer e que se estão na minha frente devem ter um motivo. Como tenho dito, a paixão da política me abandonou, mas isto também significa que agora posso ser melhor guerreiro, porque o soldado ideal – como por sinal diz Kurtz, não o meu mas o de Conrad e Coppola, e o Bahgavad-Gita – é aquele que combate sem paixões e ódios, mas pelo dever e pela consciência profunda da justiça da luta.

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