Viagens diversas na mesma jornada

Recebo sempre explicações e comentários diversos sobre as coisas que escrevo, em especial sobre alguns conceitos que ficam em aberto, passíveis de várias leituras. Há inúmeras formas, por exemplo, que meus posts sobre os aprendizados do imbecil são interpretados, assim como recebi explicações das mais diversas sobre esta minha “equipe” que redige meu blog e sobre a qual eu falei no post de segunda |eu, eu mesmo e meu blog|, das psicanalíticas às esotéricas, passando pelas epistemológicas – que prefiro tanto no caso do imbecil contra a esta esquizofrenia virtual.
Mas o fato de preferir esta às demais não invalida nenhuma das outras, todas são válidas na medida em que de alguma forma fizeram sentido para quem as leu, afinal um texto é sobretudo aquela impressão que causou em que leu. Aproveito este gancho para falar do livro de hoje, afinal é quarta-feira e portanto dia de falar de algum deles.
Houve livros cuja imagem acabou fugindo do controle de seu autor. Acho que o caso mais famoso é o Dom Quixote, que Cervantes começou a escrever para exorcizar suas quixotices de juventude na luta contra os mouros, que lhe custaram anos de cárcere no Marrocos, mas acabou se tornando no decorrer da obra justamente o elogio desta capacidade de sonhar e entregar-se ao sonho.
Mas queria falar hoje sobre um caso mais drástico, As Viagens de Gulliver, de Swift. Ironizando o destino deste livro Borges falava que o deão irlandês escreveu um livro destinado a injuriar a raça humana e acabou sendo lido como um livro infantil. É verdade que em parte este equívoco se dá pelo fato de serem mais conhecidas as versões “adaptadas” das duas primeiras viagens, deixando-se de lado as demais muito mais amargas e sombrias e, em especial, a última que é mais do que todas um tapa na cara da humanidade.
Nesta última viagem ele visita um país no qual os cavalos são civilizados e os homens animais selvagens sujos e grosseiros. Suspeito, embora não tenha outras provas senão as similaridades, que a antiga versão de Planeta dos Macacos, de 1968, foi em parte mais baseada nesta viagem de Swift do que no livro original – o qual serviu de base par a versão mais moderna do filme, muito inferior a primeira.
Digo principalmente por conta de uma certa conclusão a que ambas as obras chegam, tanto os cavalos quanto os macacos chegam à conclusão que há entre aqueles humanos selvagens e os que se consideram civilizados muito poucas diferenças. É esta conclusão pouco lisonjeira para nós, que faz com que a contra-gosto o capitão Lemuel Gulliver ser banido de volta a nossa civilização, permeia o diálogo dos macacos e leva à cena final do filme – que algum designer inconseqüente gravou na capa do DVD do filme, estragando o impacto da cena para quem não tinha assistido.
Curioso que uma das pessoas que mais se dedicou a estudar o homem enquanto espécie animal, o zoólogo Desmond Morris – famoso pelo “O Macaco Nú” muito comentado e pouco lido nos 70 e até hoje – chega a uma conclusão muito mais lisonjeira sobre esta nossa animalidade. Ao invés de em seu estudo justificar e legitimar muitas das malandragens feitas em nome desta nossa animalidade, o zoólogo avalia que a família, a fidelidade, a capacidade dos grupos conviverem pacificamente, os diversos rituais sociais estabelecidos, a redução das diferenças de comportamento entre macho e fêmea e relaxamento das relações de dominância e submissão entre os membros da comunidade– em relação aos demais primatas superiores – foram essenciais para que o ser humano fosse uma espécie bem sucedida.
Mas, voltando a Swift, sua amarga misantropia talvez tenha vindo mais de sua experiência pessoal traumática, sua progressiva perda de confiança e esperança na política e na religião, sua sensação de que o mundo estava se degradando – quase inevitável em qualquer um que como ele amava os clássicos. Talvez se a loucura não o tivesse alcançado antes tivesse visto alguma saída, mas mesmo neste seu sentimento de revolta há uma importante defesa da dignidade do ser humano, assim mesmo a sua cruel misantropia não deixou de servir, portanto, de uma ferramenta.
O terrível “Modesta Proposta para que os filhos dos pobres da Irlanda não pesem sobre o País ou sobre seus Pais” - no qual ele acaba exercendo o papel do agente imperial enviado para submeter os dominados mas acaba se identificando com eles a ponto de ser muito mais irlandês que inglês – fez um alerta extremo que todos se recusaram a ouvir e que só no século passado conseguiu começar a ser revertido. Entre a brutalidade verbal de Swift e a física do IRA há um problema que as pessoas se recusaram a resolver.
Há também nas viagens passagem por muitos temas atuais, demonstrando que a época na qual ele vivia enfrentava problemas similares aos nossos. Em Laputa ele sente os efeitos de uma Academia cujos métodos de destruir tudo para tentar construir algo científico, aquele conceito de que é moderno é sempre melhor que o antigo, só por ser mais novo. Em Luggnag ele descobre que a imortalidade pode não ser uma benção em um mundo como o nosso. Em outra descobre os riscos de conhecer os autores pelos comentadores de suas obras, na outra encontra pessoas para as quais o lucro é mais importante que outros laços e valores.
Só posso dizer que seria ótimo que as Viagens fossem mesmo um livro infantil, mesmo com certa brutalidade e referências que coraram Voltaire – é verdade, ele diz em Micromegas que se fosse o Deão Swift teria nomeado certas partes – produziria crianças capazes de enxergar as coisas de uma forma mais livre. Em grande parte por conta desta necessidade de reenxergar as coisas dedico-me a este aprendizado do imbecil, tentando tornar-me capaz de enxergar as coisas não como livros arrumados em uma estante, catalogados e organizados.

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