A verdade se defende
Há aqueles que citam por vaidade ou embuste e aqueles que citam por modéstia. Os primeiros tentam ostentar seu conhecimento, no melhor dos casos, ou, muito mais perigoso, tentam usar da falácia da autoridade afirmando que como fulano reconhecido disse aquilo então é verdade. Os segundo tentam apenas demonstrar que aquela idéia não é deles ou, no mínimo, a inspiração para ter aquela idéia veio do pensamento de determinada pessoa.
O primeiro tipo é cada vez mais comum, numa época na qual apesar de se apregoar tanto a originalidade há pouco conhecimento sendo produzido ou ainda há tão pouco hábito de dialogar à luz da razão, dos argumentos, das demonstrações. É evidente que o conhecimento discursivo não é suficiente para se compreender a realidade, e sempre insisto nisto, contudo ele é certamente o primeiro passo. Qualquer avanço da consciência a níveis mais elevados, até por uma questão de hierarquia do pensamento, virá do domínio do conhecimento discursivo para sua posterior superação.
Para que esta afirmação não pareça ela própria tirada de alguma afirmação a priori, dogmática, diria que a superação do conhecimento discursivo, passo importante para se chegar à sabedoria, envolve em primeiro lugar a disciplina da mente. Sem esta disciplina, esta capacidade de concentrar, meditar, refletir, não se será capaz de apreender e aplicar algum conhecimento superior. Ao mesmo tempo é também necessário o amor pelo conhecimento, a vontade de aprender e superar-se, o qual requer por sua vez uma postura de humildade perante a sabedoria, a qual não pode existir nas mentes que simplesmente aceitam um conceito e pronto, sem questioná-lo.
Falei diversas vezes do psíquico e do espiritual, penso que também no aspecto do conhecimento há esta distinção essencial a ser realizada. Há a sabedoria espiritual, supra-consciente, que só com muita elevação se pode obter, assim como há o conhecimento infra-consciente, inconsciente se preferirem, formado pelas nossas idiossincrasia, opiniões pré-concebidas, conceitos e pré-conceitos. A distinção entre um e outro nem sempre é simples, até porque ambos às vezes compartilham uma compreensão paradoxal da realidade que confronta o conhecimento discursivo e consciente.
Os sábios diriam que o reconhecimento vem do fato que o primeiro é sempre único, condizente com o conhecimento tradicional com o qual guarda uma formidável consistência – e de certa forma a grande identidade para além das barreiras culturais, dogmas religiosos e diversidades simbólicos das visões extáticas demonstram este aspecto. Ao mesmo tempo o segundo tipo, o sub-conhecimento, é uma negação da fantástica qualidade divina do homem que é o intelecto, assim como tenta cortar as raízes com a tradição.
Na prática nem sempre a distinção é tão clara e evidente. A recorrência a fórmulas tradicionais tanto dá margem a muita cópia desprovida de real conteúdo – porque afinal estamos acostumados com conviver com símbolos e imagens tradicionais através da cultura. Há na arte, na literatura e em especial na poesia muitas imagens simbólicas que são usadas não por serem fruto de uma intuição inspiradora, mas porque reproduzem formas tradicionais de imagens utilizadas há séculos, ainda que desprovidas de seu sentido mais elevado para aqueles que as usam.
Ao mesmo tempo este processo de repetição ocorre também neste universo do conhecimento psíquico, que não raro se utiliza das imagens tradicionais dos quais não deixa de ser uma certa caricatura, ou um plágio. E a Márcia me cochicha a referência a uma música de Zeca Balero, O Heavy metal do Senhor, no qual o compositor diz que só Deus cria enquanto o diabo “no inferno toca cover das canções celestiais”. Assim não é raro que trechos incompletos ou, mais comumente até como prova a história de todas as “heresias”, entendidos em seu sentido literal e não simbólico, ou ainda reinterpretado. Ao mesmo tempo é às vezes a preservação destes conhecimentos tradicionais por seitas que os interpretam de forma literal que permite que esta conhecimento seja preservado e “redescoberto” em seu momento adequado – um ótimo exemplo disto, por exemplo, é a recuperação de várias teorias cosmogônicas pro Suhrawardi a partir das crenças ismaelitas.
É o próprio Suhrawardi, por sinal, que fala sobre o equilíbrio necessário entre a Razão e a Intuição, uma sendo estéril e a outra caótica sem o devido equilíbrio entre as duas. Ele próprio, ao mesmo tempo em que é um pensador extremamente rico e original, esforça-se por harmonizar dois filósofos antigos, Pitágoras e Platão. Ao mesmo tempo citaria também Ibn 'Arabi, cujo conhecimento provindo principalmente de visões extáticas não deixava de ser absolutamente ortodoxo ou ao menos possível de ser conciliado com uma visão estrita da revelação corânica – como ocorre com os grandes santos de todas as fés, por sinal. Quando no início do século XX as três últimas autoridades espirituais do xamanismo sioux vêem o risco da sua tradição desaparecer decidem torná-las públicas, acreditando que “a verdade defende a si própria”, como relata Schuon em “O Cachimbo Sagrado”, que é um destes relatos.
Mesmo o místico tido como um dos poucos “hereges” do Islam, Al-Halajj, é criticado por diversos pensadores mais “ortodoxos”, inclusive por al-Ghazalli, não pelo conteúdo em si de seu pensamento – no qual mesmo o estrito Ghazalli não vê nada de herético – mas sim pelo fato de revelar a todos um conhecimento que seria reservado aqueles capazes de compreendê-lo, por dizer em público aquilo que deveria ser mantido privado. Sua própria condenação, assim como a de Suhrawardi, deveu-se mais a motivos políticos do que por conta de qualquer questão religiosa.
Chego, então, ao ponto de voltar ao começo do texto, quando falava das citações. Esta parecem só serem capazes de realmente ser úteis quando ao mesmo tempo em que revelam a humildade de quem escreve vinculando sua reflexão a raízes mais antigas como, ao mesmo tempo, justifica-se e argumenta por si, sem precisar recorrer á autoridade do nome que invocam.

Comentários
Alexandre, Estou muito feliz
Alexandre,
Estou muito feliz por você estar de volta, trazendo dois textos extremamente interessantes para nossas reflexões.
Abraços!
Marisa.
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