A verdade a as lacunas
Borges disse várias vezes que o perfeito livro policial seria aquele no qual ao final houvesse uma frase que indicaria que a solução descoberta pelo detetive estava errada e o leitor, ao reler, descobriria ele próprio a solução correta, enfim, um livro no qual o leitor descobre-se mais esperto que o detetive. Acho que a regra não se aplica apenas às histórias policiais, mesmo em textos mais racionais como um ensaio é possível às vezes deixar lacunas, obstáculos, falsas pistas, sempre haverá o leitor que percebe, por exemplo, que entre uma epígrafe que coloco no texto e a conclusão a que eu chego parece faltar ou sobrar algo.
Em um outro nível de tática similar há aquela história que é contada por diversos personagens, no qual a decisão ou julgamento final cabe ao leitor. No cinema abusou-se um tanto deste recurso celebrizado pro Cidadão Kane e portanto ele perdeu um tanto seu encanto. Na literatura acabou se prestando mais a jogos técnicos do que a utilização efetiva. Nesta parte da literatura que considero meio falsa as múltiplas versões são confrontadas no fina pela opinião do autor, tirando boa parte do gosto do jogo.
Akhenaton, o faraó herege, do escritor egípcio Naguib Mahfouz, é um dos bons exercícios desta técnica. Não faço idéia de qual é o subtítulo do original em árabe, mas na edição em inglês a editora não foi tão apelativa quanto a Companhia das Letras e utilizou o subtítulo muito mais esclarecedor de “a busca da verdade”.
O personagem central, um jovem sacerdote, decide entrevistar diversos personagens que viveram e conviveram com Akhenaton desde a infância para tentar descobrir nos relatos o que realmente aconteceu nos conflitos que levaram a reforma de Akhenaton e em sua derrubada, com a subseqüente instalação de Tutankamon em seu lugar e restauração do culto tradicional.
Os vários relatos me lembraram aquela história contada por Attar, de que Deus é um espelho que quando caiu na Terra partiu-se em mil pedaços, cada pessoa pega um pedaço, olha para ele e diz: este é Deus.
Não vou entrar em detalhes da história porque como sempre digo o objetivo de todo post não é substituir mas justamente instigar a leitura do livro. Mas não poderia deixar de dizer que cada um vê na história aquilo que tem dentro de si, o sacerdote ambicioso vê uma conspiração estritamente política para aumentar o poder do trono, o sábio piedoso vê uma mente iluminada dominada pro uma fé profunda e assim por diante.
Engraçado que com certa variação da técnica de Borges no extremo o leitor pode até não descobrir qual é a verdadeira história de Akhenaton, mas a partir de sua identificação com um dos relatos corre até o risco de descobrir o que há em seu coração.

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