A verdade e seus amigos

“Não procure saber quem diz a verdade, encontre primeiro a verdade e reconhecerá por quais boas ela anda” ('Al-Ghazalli, a Libertação do Erro)

Não me agradam os rótulos. Por meio deles perdemos o sentido concreto das coisas, nos limitamos a uma definição estreita daquilo que podia ser uma coisa. Um dos meus objetivos deste processo que chamo de “aprendizado do imbecil” é chegar a um ponto no qual os rótulos signifiquem tão pouco que possa ver em cada coisa algo como o aleph de Borges, um ponto no qual todos os outros estão concentrados de forma simultânea.
Todos que me lêem sabem que não me agrada Nietzsche, mas há leitores dele que me tem como amigos e dos quais prezo a amizade. Também não me agrada Brecht, mas há muitas pessoas que gostam dele entre meus amigos. Sou muçulmano mas discuto religião– apenas de forma privada porque esta é uma questão muito delicada para debates públicos – com pessoas de fés muito diferentes da minha, nclusive ateus e agnósticos, e quando conversamos sempre temos a noção de ver mais semelhanças que diferenças. Falo de política com libertários e conservadores e também fico muito preocupado de encontrar tantos pontos de contato entre mim e qualquer um dos dois. Só para pegar exemplos de posições bem distintas.
Alguns de meus amigos são defensores intransigentes dos Direitos Humanos, outros tantos acham que é necessária uma política de Segurança Pública mais firme para combater o crime organizado. Alguns tem gosto clássicos, outros fazem experiências de linguagem de vanguarda. O mais estranho é que converso com todos, ouço seus argumentos, concordo com alguns, discordo de outros, mas tenho prazer em conversar com ambos. Às vezes até sinto me sinto um pouco como um personagem de um filme antigo, não me lembro o nome, que desafia simultaneamente dois campeões de xadrez e usa contra um as jogadas que o outro faz, porque é comum que as vezes faça as pontes entre os argumentos de um lado e de outro.
Não sou nenhum modelo de tolerância, tampouco endosso todas estas teorias multiculturalistas que circulam por aí, segundo as quais há uma multiplicidade tão grande de verdades que não há de fato verdade alguma. Acredito, pelo contrário, que há uma verdade só, oculta na essências das coisas e que só pode ser atingida conforme nos aprofundamos nelas.
Assim, se digo que as diversas religiões tem a mesma mensagem não quero dizer que elas são supérfluas, ou que tanto faz seguir uma outra. Digo, ao contrário, que é preciso se aprofundar na que escolher, levá-la a sério, aceitá-la em seu coração com a mais absoluta sinceridade, aceitar dela os deveres mais do que os direitos.
Aos poucos vou tentando fazer o mesmo com todas as coisas, libertando a mente das amarras que nos vinculam ao sistema x ou y, porque para mim parece que isto significa ver o mundo de uma forma pobre e ilusória. Não viciar minha visão com uma imagem pré-concebida, na qual a verdade tem de ser distorcida para caber no quebra-cabeça dos sistemas, me permite que não apenas olhe, mas veja.
Isto só é possível porque tanto eu como as pessoas com as quais tenho satisfação de dialogar não estão preocupadas em ganhar a discussão, mas estão muito preocupadas em encontrar alguma trilha que em algum momento leve a verdade naqueles temas que os preocupam. Há, enfim, muita sinceridade em todas estas discussões intermináveis entre pessoas que só tem perguntas e não que disparam respostas prontas. Alguém poderia objetar que a maioria das pessoas não são assim, ainda mais na Internet, a quem diz isto só posso desejar que tenha um dia amigos como os que eu tenho!

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