Uma utopia mais do que pessoal
Hoje eu queria propor a cada leitor um pequeno exercício de imaginação e, quem sabe, auto-conhecimento. Queria que cada um imaginasse como seria o mundo se todas as pessoas fossem iguais a ele nos valores, nos comportamentos, nas posturas, e sinceramente refletisse se um mundo cheio de imagens de si mesmo seria melhor ou pior do que o mundo no qual vive.
Imagino que a grande maioria das pessoas, em algum grau pelo menos, quer um mundo melhor e tem alguma idéia de como ele seria, algum projeto, alguma coisa que gostaria de melhorar. Alguns até se empenham de alguma forma para melhorar o mundo em sua volta – me lembrei aqui da inscrição na oficina de ferreiro do protagonista do excelente filme Cruzada: “que homem é o homem que não torna o mundo melhor” - mas mesmo aqueles que não agem neste sentido tem alguma noção de algo que poderia ser melhorado.
Contudo em todo desejo de melhorar o mundo reside o perigo terrível de ser, no fundo, um certo escapismo, uma forma de lidar com a incapacidade de melhorar a si próprio. Como diz um trechinho de Pessoa que mencionei diversas vezes:
”Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido.”
O que não significa de forma alguma que devemos deixar de lutar por um mundo melhor, até mesmo o aspecto meio quixotesco que esta luta às vezes assume o torna ainda mais importante e necessário. A noção de não fazer ao outro o que não se deseja que seja feito a si próprio, no qual pode ser resumida a ética de praticamente todas as religiões, acabou se tornando também um pouco distante e abstrata, então este exercício que proponho é um pouco a proposição inversa, o imaginar como seria ser tratado por todos, em todas as situações como trata aos outros.
Não sei quantos conseguem ser sinceros neste exercício, mas creio que imaginar como seria mover-se em um mundo de “clones” de si próprios, como reagiria sendo atendido no balcão da padaria por alguém que o tratasse exatamente como si mesmo trataria, ter a si próprio como chefe e subordinado, professor e aluno, enfrentar a si próprio como motorista e passageiro em um engarrafamento. Imaginar que o presidente da República e os deputados e senadores pensariam e agiriam exatamente como se fosse você mesmo naquela posição.
O mais difícil nesta “empatia ao contrário” seria ser capaz de avaliar se o9 mundo seria melhor ou pior. Talvez fosse mais chato, visto que muito do sentido do mundo vem da diversidade de visões e opiniões e sentimentos, mas a identidade de pessoas não significaria obrigatoriamente que tudo seria igual. Aliás uma das coisas que me atrairam em pensar neste jogo mental é justamente como agimos de forma diferente, justificamos com argumentos diferentes nossas atitudes quando estamos em “lados diferentes do balcão”.
Chego a imaginar até que quanto mais incoerente uma pessoa seja nos seus diversos papéis mais conturbado e até conflituoso seria este mundo hipotético. Não significa que devemos ser coerentes em tudo, nos mínimos aspectos de nossa vida, pelo contrário acho que a sabedoria está em grande parte em ser capaz de dar respostas adequadas a universos restritos específicos.
Mas algumas das contradições deste comportamento aflorariam de forma clara porque nos obrigaria a pensar se somos justos no tratamento dos outros. Como seria nosso chefe se ele nos tratasse exatamente da mesma forma que tratamos nossos subordinados; como seriam nossos subordinados se agissem exatamente como agimos em relação a nossos chefes.
Como se sentiria o vendedor insistente ou o cliente arrogante se tivesse de lidar com alguém que o tratasse exatamente da mesma forma que ele. E se todo mundo dirigisse exatamente da mesma forma que você dirige, será que o trânsito seria melhor ou pior, será que haveria mais engarrafamentos, acidentes, atropelamentos, mais ou menos buzinadas, xingamentos, brigas ou ele fluiria com mais tranqüilidade e lógica. Às vezes penso que uma resposta sincera a esta questão simples como esta teria um potencial quase revolucionário, porque a cada vez que estou em um engarrafamento quase vejo ali concentrados todos os problemas éticos e psicológicos da humanidade, infelizmente com a maioria mostrando seu pior lado.
Engraçado que nem sinto necessidade de estender muito o exercício para outras tarefas maiores, por exemplo sugerir que o leitor imagine como seria o Brasil se o Presidente da República, os parlamentares, os juízes pensassem exatamente como ele. De alguma forma sinto que se fossemos capazes de imaginar este cenário nas pequenas coisas – e, claro, tomassemos as atitudes para fazer que com o tempo este mundo imaginário fosse melhor – todas as demais coisas se tornariam muito melhores. Partindo da premissa, talvez contestável, de que no fundo o homem tem ao menos um vago desejo de ser bom.
Enfim, se o leitor fosse capaz de responder sinceramente se este mundo imaginário seria um cenário edênico ou kafkiano eu acho que só esta resposta – ainda mais no segundo caso – teria um efeito mais do que revolucionário.

Comentários
Exercício de imaginação
Engraçado que esta é uma preocupação minha, de me ver na posição oposta, tentando sentir como reagiria ou o que sentiria, e sempre, questionando se trato os outros como gostaria de ser tratada. Mas a minha fantasia maior fluíu quando comecei a imaginar como seria se o mundo fosse composto de pessoas fisicamente iguais aos padrões de beleza "imposta" pelo consenso da industria de beleza. Percebi que criaria uma monotonia estética que seria insuportável. E dei graças à Deus por existirem seres tão maravilhosamente desiguais e não - compreendi - feios. Levando este entendimento para o campo das ações, acho que nos privaríamos - talvez - de alguns sentimentos que, à um primeiro olhar parecem negativos e dolorosos, mas que nos impulsionam para o crescimento interior.
Beijos,
Renilde (estou muito feliz vendo que retornou ao seu rítmo normal)
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