Uma trilha de garrafas e oásis
Há poucos textos esotéricos tão belos como o Arcanjo Escarlate de Suhrawardi (link para o texto em espanhol abaixo). Falo, claro, da verdadeira busca, não do misticismo de boutique, que é exatamente o oposto da Senda, através do qual podem ser compradas várias receitas e objetos mágicos sempre acima do preço, não só por serem inócuos, mas porque os resultados que eles podem gerar já estão sempre dentro de nós.
O principal relato de Surahwardi é uma lição usual ensinada por tantos mestres – na história da caverna de Platão, na Canção da Pérola dos Gnósticos, só para mencionar duas das mais relevantes - mas que ele apresenta de forma muito bela. Um amigo diz ao outro que um dia foi um falcão, capturado na rede da Predestinação pelos caçadores Destino e Decreto e levado para uma terra distante de seu ninho, atado, encarcerado, até esquecer-se de quem realmente era e mesmo ao ponto de acreditar que sempre havia sido aquele pobre prisioneiro. “Me mantinham (os dez carcereiros) tão aturdido que esqueci todo meu passado, meu ninho, meu país distante e tudo quanto havia conhecido ali. Até que cheguei a acreditar que havia sido sempre aquele em que havia me convertido”, diz o amigo relatando sua experiência como falcão.
Não vou dizer como termina o relato, recomendo que leiam o texto que recomendo abaixo, porque queria me concentrar apenas nesta situação no qual a nossa verdadeira identidade, aquela que reside em nosso coração, fica perdida. É um momento delicado porque não se lembrar o caminho pode fazer com que nos aprofundemos pelos atalhos e nos percamos ainda mais nestas florestas negras das nossas ilusões e, até, que acabemos por levar outros por este caminho.
Foi pensando nestas coisas e em outras que me veio a imagem de um náufrago perdido em uma ilha deserta, lançando mensagens na garrafa na esperança de ser salvo e então voltar para casa. Mas há também outro tipo de náufrago, aquele que nem se lembra mais de seu lar, já está tão habituado a sua rotina na ilha que teme abandoná-la. Às vezes a solidão o incomoda e então ele também lança mensagens em garrafas, mas sua esperança é que algum navio que a receba também naufrague e assim, como disse num exercício de poesia no qual tentei expor esta imagem “tenha companhia em seu exílio”.
Parece absurdo e paradoxal, mas há sim quem resista a libertar-se e voltar a si. Eu mesmo tantas vezes me sinto teimoso nisto, por mais que tantas vezes tenha vislumbrado o prazer do real. Como disse um xeque sábio, nenhum ladrão quer roubar uma casa vazia e assim – ao contrário do que dizem os que prometem fórmulas e amuletos mágicos – quanto mais se avança na trilha com mais furor investem os saqueadores, animados com o tesouro espitirual amealhado ao longo do caminho.
Mesmo na bondade e na compaixão, até no amor que é este sentimento que tanto auxilia a jornada, às vezes há armadilhas. Ao menos comigo sinto às vezes que minhas qualidades se tornam servas de meus defeitos, confundo auto-controle com covardia, humildade com subserviência, compaixão com condescendência, amor incondicional com a ausência da necessária auto-suficiência.
A verdade é que os pontos de equilíbrio não são fáceis, exigem sabedoria tal que só pode vir de Deus, como uma graça, não é algo que se obtém estudando ou pensando e, neste sentido, Pessoa tem toda a razão ao dizer que pensar é estar doente dos olhos. Como eu disse em outro exercício de poesia, a virtude do oásis é estar cercado pelo deserto, é isto que o torna aprazível e desejável, assim por incrível que possa parecer é preciso as vezes se sentir mesmo sedento no deserto para que eu lembre de orar a Deus e pedir que ele indique o Oásis mais próximo onde posso beber esta água refrescante da sabedoria.
Assim vou levando minha caravana de oásis em oásis, esperando sempre um dia conseguir chegar à cidade natal e de novo me descobrir falcão.
http://www.verdeislam.com/vi_09/901d.htm

Comentários
trilhas
Esta trilha de garrafas e oásis pareceu-me extremamente útil e refrescante, para quem realmente busca a Senda da casa natal e não teme atravessar os inevitáveis desertos.
Bom é percorrer a senda; bom é atravessar o deserto, mesmo sob o risco dos saqueadores dos tesouros que vamos acumulando pelo caminho; bom é beber da fonte da sabedoria. Bom também é sentar-se à sombra de uma palmeira, contemplar o caminho percorrido e olhar de frente o que ainda há para pecorrer até à casa natal.
Lindo post, Alexandre! Amei!
Filosofia Ishraq - Suhrawardi
Tem uma área no site no link do site abaixo com muitos materiais de Surhawardi e algumas convergências.
Biografia, textos, convergências e tb um glossário.
Vale a pena.
http://www.nokhooja.com.br/ishraq/index.html
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