Uma reunião com o coronel Kurtz
I saw this station, these men strolling aimlessly about in the sunshine
of the yard. I asked myself sometimes what it all meant. They wandered
here and there with their absurd long staves in their hands, like a lot
of faithless pilgrims bewitched inside a rotten fence. The word 'ivory'
rang in the air, was whispered, was sighed. You would think they were
praying to it. A taint of imbecile rapacity blew through it all, like a
whiff from some corpse. By Jove! I've never seen anything so unreal in
my life. And outside, the silent wilderness surrounding this cleared
speck on the earth struck me as something great and invincible, like
evil or truth, waiting patiently for the passing away of this fantastic
invasion. (Joseph Conrad, No Coração das Trevas)
Poderia falar muitas coisas de Joseph Conrad, de como é impressionante que uma pessoa adquira tal maestria em escrever em uma língua que não só não é sua língua nativa - ele é polonês de nascimento - mas que aprendeu tardiamente, poderia falar de suas descrições precisas e encantadoras, poderia falar em como utiliza com cuidado conhecimentos técnicos de navegação e reconstrói suas experiências pessoais. Mas na verdade o que me atrai mais nele é a loucura de um tipo muito especial que acomete seus personagens.
Este sentimento está na culpa de Lord Jim, na obsessão política e infame do Agente Secreto - grande estudo da personalidade do terrorista - mas está, sobretudo, na progressiva perda de sentido da realidade de Kurtz em "No Coração das Trevas". Conheço poucos casos de adaptação bem sucedidas de livros para o cinema como o relacionamento que há entre o livro de Conrad e "Apocalipse Now". Ao mesmo tempo são enredos distintos contando a mesma história, resumida, no filme, ao essencial que é esta loucura.
A transformação do cenário das florestas do Congo para o Vietnã, do comércio de marfim para a guerra, dos belgas para os americanos, dos agentes coloniais para os soldados, apenas acentua o caráter central da história. Como naqueles jogos de Borges no qual ele conta uma mesma história em contextos distintos ou elenca os múltiplos cenários nos quais poderia inserir uma história, as diferenças entre a novela de Conrad e o roteiro de Apocalipse Now só acentuam a história central.
Uma das oposições centrais de "No Coração das Trevas" parece-me ser entre a monotonia rotineira e desmotivada dos agentes coloniais em oposição à apaixonada ação de Kurtz. Ao longo de todo o trajeto - seja no Vietnã ou no Congo - o protagonista vai ouvindo falar de Kurtz. Só ele quer estar ali, só ele tem idéia do que fazer ali, só ele não está de passagem, só ele leva a sério certo discurso de civilização e humanismo. Não tenho dúvidas que por tudo isto Kurtz é irmão de Quixote e, como ele, enlouquece de uma insânia que nem por ser mais violenta deixa de ser a mesma.
Kurtz tem me ligado diversas vezes nestes dias. Acordei hoje com ele ao telefone me falando de suas idéias enquanto ia a uma reunião. No final da tarde sou eu quem me reúno com ele lá no coração das trevas. Como o protagonista da história de Conrad vou me sentindo percorrendo o rio e ouvindo falar de Kurtz e suas historias e projetos, me fascinando com aquele ponto alucinado de luz em meio a um dos lugares mais escuros da terra.
Encontrar Kurtz me anima, faz com que eu sinta que não sou como os demais personagens que Conrad coloca no livro - notadamente a maior parte deles sequer tem nome - um peregrino sem fé. Confronta-me, como diz o protagonista de No Coração das Trevas com algo grande e invencível, como o mal ou a verdade. Preciso parar agora para atender ao telefone, é Kurtz chamando...

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