Um personagem implausível

No meio de tantas coisas a escrever depois de vários dias fora de casa e da cidade resolvo escrever meu balanço deste último ano, aproveitando ainda o restinho dos sentimentos de aniversário. Dou uma olhada nesta minha guarda de djinns – como nem o nome deles quero saber os apelidei de Norte, Sul, Leste, Oeste, de tantas divisões quatripartites a que me pareceu mais apropriada - sempre me incomoda escrever com qualquer um por perto, sejam reais, imaginários ou imaginais.
Aporta se abre e entra Hilal, sorridente.
A paz esteja com você! Sauda ele com uma voz amistosa, apesar de tê-lo mantido meio a distância há mais de uma semana.
Assalamu 'alaikum warahmatullah, Hilal, o que veio fazer aqui. Digo salientando esta impaciência com o maravilhoso que me ocupa nestes dias.
Não acha que eu posso ajudar neste seu balanço? Afinal faz um pouco mais de um ano desde que você me personificou, acompanhei bem este período.
Este balanço é um exercício individual, você sabe.
Você é muito racional. Diz ele.
Perco de vez a paciência:
Porque de repente todo mundo resolveu me falar isto, hein! A Cláudia, o Djinn e agora até você! Se fosse tão racional como dizem não estaria aqui conversando com um sheikh imaginário e sim com um xeque de verdade.
Curiosa distinção esta que faz na linguagem entre sheikh e xeque, já a tinha observado há dias.
Claro, a um sheikh de verdade chamo pelo forma aportuguesada, mas você é um sheikh saído de alguma má tradução das Mil e Uma Noites, provavelmente da Galland, ao menos o djinn deve ter vindo da de Burton.
Também curioso que liste a Cláudia entre aqueles que considere personagens, alguém poderia imaginar que ela está na mesma categoria – Diz ele, e na sua voz vejo um sorriso irônico, quase maldoso e vingativo, e eu que imaginava que este sorriso vinha do djinn.
Se quer me ajudar, manda esta escolta, esses carceireiros embora, porque eles me irritam. Digo eu sinalizando com o olhar os quatro djinns.
Ás vezes concordo com a Cláudia que é ingênuo, não entendeu o que eles são, porque eles são necessários neste momento, nem que o senhor deles é você próprio, não eu.
Ah é, se sou assim ingênuo, me explique então o que eles estão fazendo por aqui! Digo já irritado com estes métodos dele.
Esta sua guarda só está aí para que não se esqueça do poder que tem, para lembrá-lo que seus dons tem de ser usados de forma responsável, sem ansiedade, sem ira. Se estes djinns vão seguir a sua natureza de fogo e ar – violentos e volúveis – destruindo ou vão ser compassivos e ponderados construindo templos, só depende da sua vontade. Estão aí só para ajudar a que se decida e os visualizando pense que cada palavra sua é uma legião de djinns que lança pela blogosfera.
Confesso, por um momento fiquei pasmo mesmo com a minha ingenuidade, tanta coisa faz mais sentido com esta perspectiva e até o incomodo que Hilal e eles me causavam torna-se mais leve. Retribuo:
Agora até pareceu mesmo um xeque!
Todas as respostas estão sempre dentro de você. Dizemos que é racional demais porque não consegue enxergá-las, não houve sua intuição. Há coisas que não podem ser catalogadas, ás vezes nem entendidas, tem de ser sentidas.
Então me ajude, como avalia que foi meu ano?
Daquele ser infeliz, abatido, deprimido que era há um ano avançou muito. Daquilo que ainda tem em potencial está muito distante ainda. Escrever ajudou muito a você se encontrar, a descobrir estes mundos dentro de você. Mas ainda é muito cheio de medos que impedem que veja a si.
Pelo menos descobri a fonte daquela minha ansiedade.
Mas ainda não a curou de todo, senão não viveria fumando, mesmo quando está com a Cláudia.
Minha disciplina, contudo, melhorou muito, olha minha alimentação, meus jejuns, meus textos quase todos os dias. Como avancei no controle da minha vaidade, submeti boa parte do meu orgulho. E, o melhor, fiz tudo isto resgatando a mim mesmo, lendo, escrevendo, produzindo, garanto que não é fácil controlar o orgulho e manter a vaidade em limites admissíveis tendo reconhecimento.
Mas acho que o principal é ter conseguido a simplicidade, já deixou muito daquele gongorismo, já aprendeu que há muitas coisas que não sabe, já se despiu de muito conhecimento inútil, já começou a examinar as coisas como se as visse pela primeira vez. Mas ainda tem muita arrogância lá no fundo, tem ainda alguns bolores. Comenta ele muito sério.
Acho que é fácil encontrar a medida correta de liberdade e responsabilidade, não é não...Comento eu que começava a pensar nas coisas que ele me dizia.
Pois é, este é seu principal bolor, esta tensão toda por conta de fazer a coisa certa sempre, este medo de errar, que ás vezes não te deixa fazer nada e te imobiliza. Só não se erra quando não se faz nada ou quando se cumpre ordens. No fundo não confia no seu coração, se confiasse não teria todo este medo, até o djinn te disse isto.
Daqui a pouco vai querer me convencer que eu também sou um personagem...
Claro que não! Diz ele.
Que alívio, respiro mais calmo.
Seria um personagem muito desinteressante e implausível...Dispara Hilal.

Comentários

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.