Um leitor sincero
Li ontem em um ensaio de Anaïs Nin a afirmação dela de que só ao escrever ela conseguia a unidade, ou seja a superação das dualidades e conflitos. Não só pelo mesmos motivos, mas também por outros sinto também esta unidade quando escrevo, mesmo quando às vezes sento para escrever algo e o texto acaba falando sobre outro assunto. Não poderia deixar de ser desta forma, porque é um momento, quando há sinceridade, no qual o que circula no papel é o que está no coração, para além das aparências, interesses e vaidades.
Não significa que estas outras coisas não interfiram, mas conforme vão se tornando mais importantes tendem a gerar um conflito difícil de superar, acabam tendendo a quebrar aquela unidade que só a sinceridade é capaz de dar. Não é incomum que o processo de escrever, e também em outras artes, acabe levando à loucura ou às drogas, ou ao menos a um consumo da própria pessoa na ação, por um lado, e à queda na mediocridade e no óbvio, de outro. Sintomas de que deixou de existir o momento de unidade, que o autor deixou de ser uma ponte entre dois mundos porque optou por um deles.
Penso, então, em um romance de Tolstói, Redenção. Difícil imaginar a coragem de auto-crítica tão ferrenha e aqueles que louvam Ana Karênina ou Guerra e Paz como obras do grande mestre deviam ler Redenção ao menos para saber o que o próprio achava delas. Ele jamais será o mesmo depois deste livro, se dedicará a coletar e consolidar contos populares, escrever para crianças, redigir histórias de cunho mais religioso e ás vezes político, mas no bom sentido do termo, preocupado não com o poder, mas à autoridade espiritual a qual este poder deve estar submetido.
Mas a sinceridade também é necessária a quem lê – e como Borges orgulho-me mais das páginas que li do que as que escrevi – e hoje ela também é algo que falta porque nem sempre se tem as melhores intenções ao se ler. Esta sinceridade é tanto da boa vontade com o autor, lê-lo sem preconceitos, sem julgá-lo de antemão, deixá-lo tentar convencer, só emitindo julgamento após este esforço receptivo, quanto também do que se busca ao lê-lo.
Esta primeira condição é mais fácil de ser descrita, porém mais difícil de ser colocada em prática porque nem sempre nossa mente pode se ver livre destas noções prévias. A segunda condição é difícil descrever, mas qualquer um que foi obrigado a ler livros na escola – e acho que todos passaram por esta experiência – sabe bem qual é a sensação de se ler sem sinceridade, portanto sem vontade. Nesta última também é preciso incluir aqueles que leram para dizer que leram, mas este ultimamente tem buscado mais os almanaques, as resenhas, as orelhas, que dão o mesmo efeito da aparência de conhecimento com muito menos esforço.
Eu tive a felicidade, quando era criança, de não saber que existiam livros difíceis de serem lidos, clássicos que precisavam de erudição e coisas do tipo, lia o que me caia a mão e em especial uma coleção de livros clássicos da Abril cujos volumes chegavam a cada semana. Uma das minhas frustrações na época foi não ter conseguido ler Ulysses de Joyce – um dos poucos livros que até hoje não consegui ler nem com sofreguidão e muito esforço – e levei uns 10 anos para descobrir que a falha não era totalmente minha.
Guénon cita em um artigo comentando a decadência da modernidade, justamente como exemplo desta, que a Summa Teologica era um manual universitário á época que foi escrito mas que poucos poderiam ler hoje. Sem nem precisar ir tão longe diria que mesmo para muitos adultos hoje seria difícil ler os livros infantis de Lobato.
Parte da culpa disto é de uma civilização visual, como comentei em meu segundo post da segunda, outro tanto talvez seja da degeneração da educação, ainda que nem sempre no sentido que se diz. Mas sobre isto gostaria de falar em outra oportunidade, com mais espaço e tempo, até porque o assunto merece. Mas cada um de nós também tem a responsabilidade nas suas mãos, todos aqueles que enxergam estas coisas tem de pensar também sobre como agir, como fazer a sua parte ao invés de simplesmente colocar-se em uma posição de vítima de alguma destino cruel, de alguém que é vítima de um sistema.
Para fechar volto a Tolstói, uma dos contos dele com lugar de destaque entre meus preferidos, “A História de Ivan, o Imbecil”, porque Ivan tornou-se czar por acidente e era um imbecil, resolveu agir como todos os seus súditos e trabalhar, como todos os espertos resolveram sair do reino e só ficaram os imbecis tudo corria na mais perfeita ordem e perfeição, afinal cada um era ignorante demais para saber que o esforço de uma única pessoa que fizesse a sua parte seria suficiente para mudar algo. Impossível pensar em Utopia mais singela e ao mesmo tempo tão funcional.

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