Um email do arquipélago
Eu tenho poucos amigos no sentido mais estrito e profundo do termo. Alguns sequer conheço pessoalmente - Renilde, Daniel, Wagner - outros passo anos sem ver, mas quando os reencontro é como se tivéssemos mantido contato por todo aquele tempo. São amizades que dispensam a presença física e até mesmo o contato freqüente para se manter ativas e fortes, mas é sempre um grande prazer reencontrar qualquer um destes grandes amigos.
Assim, foi com enorme satisfação que abri minha caixa de emails ontem e encontrei uma mensagem do meu amigo argelino, que não vejo há uns 10 anos e que não tinha mais contato há tempos. Sei que algumas das pessoas com as quais converso imaginam que meu amigo argelino é uma espécie de personagem literário, alguma versão islâmica de Mr. Slang - o amigo inglês no qual Lobato coloca alguns comentários - mas na verdade ele existe mesmo e a maioria das histórias que conto em tantas conversas aconteceu mesmo.
Uma das histórias envolvendo meu amigo argelino que mais conto é aquela na qual ele, encantado com o Brasil, me pede algumas sugestões de lugares para visitar. Entre as sugestões menciono as cidades históricas de Minas. Ele me pergunta quantos anos elas tem, eu respondo algo entre 300 e 400 anos, mas com o auge em cerca de 250 anos atrás. Ele então responde, não com afetação ou orgulho, mas com simplicidade, que a casa onde ele mora na Argélia - situada em uma cidade construída pelos romanos, mas famosa pelas suas mil mesquitas - tem mais de 800. Não porque nos achasse sem história, mas por viver em um mundo tão repleto de história no qual sempre viveu na Argélia e na França aquilo que é eterno, em particular a natureza, interessava muito mais e tornava o Brasil muito mais fascinante para ele. Diria que preferia ver as criações de Deus às dos homens.
Falávamos - e mesmo nos emails acontece isto - uma algaravia meio misturada de português, que ele não falava bem embora compreendesse, de francês, que eu compreendo mas falo mal, de inglês que ambos tinham um domínio relativo e termos esparsos de árabe, quase inevitáveis quando se discute o Islam. Ainda assim nos entendíamos bem, mesmo quando nas sextas-feiras reuníamos a nossa minúscula congregação - que incluía também um marroquino e um chinês - para as orações, que ele sempre fazia questão que eu dirigisse porque era o brasileiro, era aquele que ia ficar.
Imagino que uma das coisas que leva alguns ouvintes e leitores a suspeitar que ele seja um personagem ao invés de pessoa real é a interessante combinação de elementos com os quais o pinto. Ele é uma pessoa de carne e osso, sim, mas nem por isto deixa de ser também um símbolo.
Descendente da dinastia andaluz dos Almohadas - outra história popular é o quanto ele se surpreendia em ver logo a primeira geração de descendentes de estrangeiros se considerarem brasileiros porque sete séculos depois sua família ainda se considera andaluz mais do que argelina. Mas também de veteranos da guerra de independência argelina, a mais cruel e suja de todas as guerras coloniais - e outra história é que apesar de ter a vida toda ouvido falar de Ibn Khaldun - que escreveu o seu livro mais famoso, ainda que pelo prefácio - os prolegômenos - mais do que pelo conteúdo do livro propriamente dito, foi nas nossas conversas sobre o autor que ele viu o quanto o autor era tão atual e capaz de explicar processos históricos bem recentes.
Muçulmano devoto - boa parte do tempo discutíamos versículos do Alcorão e preceitos islâmicos e eu checava se o sentido de um ou outro versículo era aquele mesmo que estava nas traduções - mas também cientista - estava no Brasil justamente fazendo seu pós-doutorado em engenharia química e na Argélia trabalha em um importante centro de pesquisa.
Uma outra história dele que gosto de contar porque me parece uma belíssima declaração de amor, é que preocupado com o isolamento da sua mulher permitiu que ela deixasse de usar o véu - delicado véu argelino com bordados dourados - e pediu a Deus que o peso, a carga, daquele pecado caísse sobre ele. Uma abnegação tão grande que oferece aquilo que tem mais valioso como tributo de um amor feito não com a grandiloqüência dos atos heróico e hipócritas, mas com uma postura singela, tranqüila, mais uma vez sem nenhuma ostentação.

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