Tiranias

Em um aparente paradoxo, sempre são as massas que criam as ditaduras, os totalitarismos. Historicamente mesmo as várias democracias tem sido momentos de transição para as tiranias, ainda que ao menos pareça que se consegue algo novo em alguns momentos.Ortega y Gasset diz que "quando a massa atua por si própria, o faz de uma só maneira, porque não tem outra: lincha". Tocqueville assinala o risco de um Estado que é tudo frente a um indivíduo que não é nada como caminho quase natural da democracia, no qual os cidadãos são "mais que reis e menos que homens".

É preciso notar, contudo, que este tipo de risco só ocorre e só existe na medida em que aqueles que deveriam dar a linha e a direção, as elites - ou como diz Gasset "as minorias excelentes" - deixam de cumprir com eficiência o seu papel de guia e perdem a sua autoridade, seja pela sua falta de disciplina moral, egoísmo, cobiça de direitos ou preguiça de cumprir os deveres. Em geral estes motivos acontecem exatamente porque em algum ponto da história o critério do método de formação desta elite fracassou, particularmente quando o que deveria ser baseado no mérito passou a ser definido por critérios familiares ou de afinidade.Em outras palavras, quando uma elite deixou de ser de fato uma minoria excelente, quando perdeu a autoridade e restou apenas o poder e por isto se torna odiosa.

A noção de um Imperador, ditador, presidente, enfim de um governante todo poderoso é cara à massa porque coloca todos os cidadãos em uma mesma e idêntica posição de submissão, cumpre a ambição da massa de aniquilar qualquer coisa que se sobreponha à média. Quando uma elite está em processo de decomposição, ou seja já perdeu a sua Autoridade, assume perante este desafio uma postura defensiva e arrogante, incomoda-se com os símbolos de poder e em requisitar privilégios, justificando assim os desejos da massa. Já a elite verdadeira que ainda detém a vitalidade do conhecimento do próprio mérito e missão não se incomoda com os sinais externos de poder, porque sabe que eles não significam nada.

É por este motivo que mesmo vendo todos os inconvenientes e riscos da democracia, continuo a acreditar que dentre todos ela é ainda o método de seleção de uma elite mais adequado. Mesmo com todas as dificuldades, ela ainda é um meio no qual os méritos pessoais e a disciplina pode contemplar no longo prazo, ou seja, depois que todos os excessos da massa e todas as tentativas de aniquilar a excelência chegam a extremos, haverá espaço para que uma elite de verdade - daquela que não se preocupa com os direitos mas sim com os deveres - consiga eleger-se. Ao menos é o único método que a história não provou ainda que falha, como todos os outros produzidos pelas diversas aristocracias ao longo da história, que no final sempre produzem personagens como Fernanda del Carpio de "Cem anos de Solidão", apegada ao pinico de ouro com brasão como última coisa que sobrou da herança familiar.

É evidente que há uma enorme distância ente o que a democracia é e o que deveria ser. Quando acordo otimista acho que um dia esta distância será reduzida e penso que dentro de qualquer verdadeira elite só a democracia poderia ser uma forma de governo, porque a disciplina, o desprezo pelos luxos e símbolos de poder, o respeito natural à sabedoria que não considera aviltante reconhecer hierarquias de fato, tudo isto faz com que os fantasmas da democracia estejam afastados. Assim só uma elite educada no princípio de que pode votar e deve votar sempre no melhor dentre os seus pares será capaz de um dia obter o respeito da massa, a "Autoritas", tornando assim a democracia um meio mais efetivo de tornar-se o que deveria ser, ao invés de ser apenas o caminho para os autoritarismos.

 

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