A sobrevivência de uma metáfora
Não entendo quase nada de cinema, como em todas as artes fora a literatura – da qual reconheço que de tanto ler os autores e jamais ler a imensa maioria dos críticos acabei aprendendo um pouco – só posso opinar como espectador, como público vulgar. Por isto sempre me agradam mais as grandes sacadas estéticas, as tiradas filosóficas, as entrelinhas dos filmes comerciais do que os chamados filmes de arte, ainda mais aqueles para os quais é preciso ter doutorado em cinema para compreender.
Tiro do baú um exemplo que muitos considerariam grotesco, bateriam na madeira e excomungariam com a atitude da bisneta de Tia Nastácia, PHD em cinema. Uma comédia mais do despretensiosa, comercial, pop, Mudança de Hábito (Sister Act, 1992). No filme, se é que alguém não assistiu, tanto que passou pela TV, Whoopi Goldberg, representa uma cantora de cabaré que após testemunhar um assassinato é escondida em um convento de freiras e acaba por revolucionar o coral da igreja. A sacada absolutamente genial é a adaptação que ela faz das canções de cabaré em música sacra, colocando Deus no lugar do galã da música.
Considero genial a transformação porque na verdade a maior parte da poesia lírica vem justamente da utilização do amor entre homem e mulher como metáfora do amor divino, nascido da poesia música de diversas culturas, mas principalmente da islâmica, e vice versa, da utilização das imagens religiosas consagradas deste amor para expressar um sentimento mais carnal. Dos autores mais modernos acho que o último grande nome que faz isto é Rilke, ele próprio inspirando-se em grande parte na poesia islâmica, em especial Rumi.
Assim o impacto da transformação de música quente de cabarés em música sacra não deixa de ser uma recolocação da questão em sua fonte. Nem sei se o diretor ou os roteristas sabiam disto quando bolaram, mas este conhecimento é quase irrelevante, até porque não é preciso saber disto para apreciar a cena, ainda que acrescente mais prazer, quase deleite estético ver esta brincadeira. Quando tantos ritmos modernos surgiram da música sacra, em especial dos negros americanos do sul dos EUA – provável referência mais próxima dos roteiristas – só se pode concluir que estas duas imagens do amor são intercambiáveis, mesmo numa cultura tão secularizada e individualista como a nossa, a ponto de um filme feito “para as massas” com este jogo possa ser compreendido e apreciado. Esta constatação, para mim ao menos, é muito mais relevante do que conhecer as referências históricas de quem fez o roteiro.
Mas todas as sutilezas teológicas não param por aí. Justamente por ter como base as canções de cabaré a freira-corista destaca exatamente o amor passional, incondicional, prazeroso, tal como na poesia, por exemplo, de Saadi ou Shams al-Tabrizi, não as imagens edulcoradas do amor fácil, belo e frio que tantos tentam chamar de amor a Deus. Não o amor a si próprio, mas o amor ao outro, no qual não há espaço para estas tantas imagens modernas de aflições provocadas ao próprio ego, ao sujeito deste amor e não ao objeto.
Mesmo fora do campo da poesia, nunca é demais lembrar que o sheikh al-akbar – o maior dos sheikhs – ibn 'Arabi – descreveu sua teofania nas Revelações de Mecca através das imagens de seu amor pela bela Nizam, filha de seu mestre. Por sinal, A Interpretação dos Desejos, uma das partes deste livro consiste de poemas especialmente dedicados a Nizam.
Curioso que há tempos penso escrever sobre o assunto, acho até que desde a primeira vez que assisti ao filme e até já ensaiei alguns artigos sobre o tema mas sem mencionar o filme. Curioso que comece de coisa tão prosaica com um filme já velho, destes que passam na sessão da tarde, para chegar a um dos maiores pensadores muçulmanos. Nada curioso que só agora finalmente tenha conseguido realmente escrever um texto começado tantas vezes, porque ao invés de apenas conhecer o tema, desta nossa forma livresca – como faria o djinn – agora falo de coisas que sei e posso compreender melhor este aspecto completo destas experiências.

Comentários
a sobrevivencia de uma metafora
Dá gosto ver que os filmes comerciais podem ser exaltados quando se levam em conta mensagens subliminares contidas em metaforas que somos incapazes de perceber. É confortador que pessoas como o Hilal existam para remover o Véu de Isis que encobrem nossos olhos. E no prosaico filme analisado com tanto brilhantismo pelo articulista, encontramos pegadas de Rumi e ibn'Arabi, os intermediarios do divino humanizado, do amor possivel, da luz que pode ser tocada.
E é exatamente isto que o filme se propõe; mostrar-nos que Deus pode ser experimentado dentro da humanidade, da sombra-luz de que somos todos feitos.
Otimo!
Concordo plenamente, exelente, parabéns...
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