Síndrome de Mowgli
No ensaio “O abate do elefante” o escritor George Orwell fala de seu drama pessoal quando servia na Birmânia tendo em vista o conflito entre a visão anti-imperialista que já tinha e a clara sensação de que enquanto estrangeiro era tão odiado pelos nativos que bastaria deixar de ter a proteção por um segundo para ser massacrado. De imediato lembrei-me de outro inglês que viveu no Sudeste Asiático, Ruyard Kipling, em particular da parte final do conto de Mowgli, quando o menino-lobo sente que não tem lugar nem na sociedade dos homens nem na alcatéia e prefere seguir o caminho sozinho com alguns poucos amigos, trecho do livro editado no famoso desenho por motivos óbvios.
Os indianos cunharam uma expressão pejorativo “Brown Sahibs” para designar certa elite ocidentalizada de seu país que não só acabou no governo na maior parte do mundo descolonizado pós-independência como, em ainda maior escala, assumiu para si muitos valores culturais do ocidente. O termo foi se expandindo, em especial em sua dimensão cultural visto que em geral produziu governos desastrosos, e hoje paradoxalmente é mais aplicado a alguns escritores e pensadores de esquerda, alguns até voltados para certo resgate cultural “nativo”, quase todos condenando o “imperialismo”.
Em uma aplicação mais ampla do termo poderiam ser classificados nele personalidades muito distintas, de Saddam Hussein – cuja história e programa partidário sempre foi a defesa da ocidentalização, laicização e modernização da região – e Nasser – entre outros partidários do “nacionalismo (categoria completamente ocidental) árabe” - a Edward Saïd – que utiliza-se das ferramentas do pensamento ocidental para criticá-lo em um linguagem essencialmente ocidental, passando por diversos escritores tanto popularescos, como Tariq 'Ali, quanto de vanguarda como Salman Rushdie.
É evidente que uma categoria que se torna assim tão ampla acaba perdendo o próprio sentido, perdendo precisão e portanto utilidade. Ainda assim eu restringir ia o “modelo” como sendo o “personagem” que aceitando certa roupagem típica, parte dos valores tradicionais da sua cultura, para disseminar uma visão de mundo que é essencialmente ocidental. Não e uma classificação fácil, ainda mais porque corre o risco de cair em um certo relativismo cultural que pro si só é um pouco um dos veículos deste processo.
Mas a questão que mais me interessa neste texto e pelo qual eu comecei a escrevê-lo, ainda que meio perdido na longa introdução, é o “brown sahib” de segunda mão, dizendo melhor, aquele que vivendo em alguma outra parte do mundo toma a visão apresentada pelo “brown sahib” original como um retrato válido daquela região e se espelha nela para criar uma identidade.
É evidente que o processo é mais forte nas comunidades que tem raízes entre imigrantes da região. Diria até que o “caso ideal” que me inspirou o conceito foi dos descendentes de árabes que em busca de algo de suas raízes lêem o que lhes cai em mão e a parti disto formam a sua imagem da terra dos ancestrais.
Auxilia muito este processo o fato de que em geral estes autores escrevem em línguas ocidentais, inglês como Tariq 'Ali, francês como Amin Maalouf, portanto são mais facilmente traduzidos e acessíveis do que os autores que escrevem nas linguagens “nativas”. Como há poucos livros disponíveis então acabam se baseando naquilo que tem em mãos. Vendo o sucesso que Paulo Coelho tem em alguns países, em especial o Irã, imagino que processo análogo também deve ocorrer por lá. Penso que efeito semelhante também ocorra, ainda que não tenha um conhecimento mais preciso para generalizar a observação, em comunidades de descendentes de japoneses, chineses e de várias outras linguagens cuja disponibilidade de boas traduções e edições não seja muito presente, ainda que nestas culturas a proporção de “brown sahibs” deva ser menor visto não terem experimentado a colonização direta.
Mas é evidente que o processo não se limita às colônias. Vejo que é muito comum, por exemplo, entre boa parte dos muçulmanos de diversas origens, daqueles que simpatizam pelo hinduísmo ou budismo, de todos que tem uma atração pelo que há de exótico nas outras culturas, porque ma das armas literárias deste processo todo é justamente este exotismo, justamente aquilo que Saïd mais condena como uma ferramenta do discurso imperial.
Nos últimos tempos em especial tem ocorrido um fenômeno idêntico com sinal inverso – ou seja a utilização do discurso imperial mas como uma discriminação positiva – através de uma certa idealização do terceiro-mundo por certas correntes à esquerda. De minha parte lastimo esta mentalidade porque ela acaba por jogar no lixo algo que havia de bom no “contrabando intelectual” ocidentalizante de muitos destes “brown Sahibs” - a condenação da tirania e da demagogia, a crítica à manipulação da religião para servir a interesses políticos e sociais, a defesa dos direitos individuais e pelo Estado de Direito – para ir ao poucos se transformando em mais um meio de legitimação das tiranias, visto que elas afinal lutam contra o “imperialismo”.
Analisando os tumultuados debates no Irã no período anterior à Revolução Iraniana de 79 o pensador e mártir Murtada Mutahari dizia que a política do Islam como devoção privada defendida então pelos setores pró-ocidentais significa, em termos políticos e estratégicos, que eles queriam que os iranianos fossem muçulmanos o suficiente para não se aliar aos comunistas, mas jamais ao ponto de buscarem uma forma própria de organizar sua sociedade. Hoje julgo que ocorre uma estratégia idêntica por parte de segmentos de esquerda, dos “red Sahibs” que quer que o terceiro mundo seja muçulmano – ou qualquer outra identidade do tipo – o suficiente para odiar os Estados Unidos e Israel, mas não o bastante para resgatar suas tradições próprias.
Ou seja, é uma corrente de pensamento que ao mesmo tempo tenta tirar aquilo que é típico de cada cultura, destruir sua visão de mundo reduzindo-a mero “exotismo”, idiossincrasia cultural, tornando-a portanto estéril e inofensiva, ao mesmo tempo em que nega aquilo que era positivo em muitas reivindicações inspiradas pelo ocidente. Ao invés de se “buscar o que há de melhor nos dois mundos”, como dizia um poeta paquistanês, tentando construir uma síntese que de alguma forma possa ser tanto universal quanto particular, se tenta amalgamar em uma massa amorfa e não criativa diversas antíteses que só compartilham ódios por meio de táticas políticas.
Não posso dar um juízo político absoluto sobre a questão porque tenho muitas dúvidas e raras certezas, mas do ponto de vista estético ao menos posso dizer que os “brown sahibs” escrevem melhor, até porque mais sinceros nas suas palavras nas quais se confunde o amor á identidade e o respeito pelos efeitos de alguns valores ocidentais.

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