Seleção e eleição
Uma de minhas maiores ambições intelectuais – cuja dificuldade de ser realizada não impede que seja um estímulo à reflexão – é ser capaz de juntar as duas pontas opostas do legado da Grécia Clássica. De um lado a filosofia – de natureza essencialmente aristocrática – e de outro sua antítese a democracia, contra a qual os filósofos – em especial a ainda insuperada tríade Sócrates, Platão e Aristóteles – construiram a maior parte das suas idéias.
De um lado o argumento aristocrático, a noção de que aquele que governa deve ser preparado, treinado, aprimorado, disciplinado – lembro de Sócrates comentando que para montar um cavalo era preciso treinamento, mas não para dirigir um Estado – é quase irrefutável. De outro o argumento democrático de que toda aristocracia degrada-se durante o tempo e o que era dever reduz-se a privilégio inadmissível está mais do que comprovado pela história. Até Nietzsche – talvez a última voz que defende sem subterfúgios o domínio da elite – faz um parênteses “dirigido aos idiotas” para esclarecer que quando fala de aristocracia não está falando do “Almanaque de Gotha”.
Em um mundo ideal as duas visões não seriam antitéticas, pois a liberdade de escolher levaria a se escolher os melhores e mais qualificados. Contra esta perspectiva utópica vários autores falam de uma certa aversão da massa ao excelso e ao que se destaca, ainda que seja talvez o autor que, na minha modesta opinião, melhor conceitualizou estas questões – Ortega y Gasset – seja justamente um dos poucos que acredita – de forma meio quixotesca como a minha – que um outro futuro no qual esta dualidade homem-seleto/homem-massa possa se resolver.
Em tese, ao menos, eu acredito que a Democracia tem o potencial de ser o mais eficiente e perfeito meio de seleção possível para a formação de uma elite. Os critérios “hereditários” - que graças a Deus ninguém mais leva a sério hoje em dia – já demonstraram que são ótimos para desmoralizar o conceito de “aristocracia”, tirando dele seu sentido original de governo dos melhores, que se sacrificam por sentir um dever maior, para dar a ele a idéia degradante de gente degradada e decadente aferrando-se a privilégios e furtando-se aos deveres, julgando-se superior sem precisar demonstrar de fato superioridade alguma.
Certas concepções de “carreiras abertas ao talento”, seleções por concursos diversos, certas concepções de “mandarinato” (como nos milênios em que funcionou na China) tem também sérios inconvenientes porque com o tempo leva a certa estagnação e burocratização além do limite, afinal há qualidades, notadamente qualidades políticas e mesmo certas características de carisma, que não podem ser apuradas através de “concursos”. Assim este sistema de seleção, com o tempo, tende a gerar crises internas, em particular quando a solidez e estabilidades do sistema que cria acaba tornando-o impróprio para a realidade. Isto não significa que a idéia é ruim, apenas insuficiente para dar conta de todas as situações.
Ademais eu não compartilho da crença de que a educação resolve todos os problemas. Usando um exemplo que gosto muito pela simplicidade – e talvez para que cada um pense em si próprio -é o caso do trânsito. As maiores barbaridades que vejo no trânsito – costuras e ultrapassagens arriscadas, carros investindo contra pedestres, fechadas que quase geram tragédias, atropelamento em massa por direção arriscada - não são provocadas na imensa maioria das vezes, por carros velhos e pobres, mas pelos carros importados, pelas grandes peruas, por carros esportivos pilotados por algum “ás no volante” - copiando o trocadilho de um amigo – cuja educação, bom nível social, acesso à cultura, vida confortável não foram capazes de produzir um bom cidadão.
Se aqueles que foram aquinhoados com o que a sociedade tem de melhor não são capazes de ter a estatura ética e moral de um pequeno camponês hoplita da Grécia, ou até menos de algum servo medieval, que tinha mais nobreza na compreensão de seus deveres que tantos parvenus, então só se pode concluir que o problema está muito além de educação, dinheiro, bem estar. Lembrei de um crítico de Nietzsche, Will Durant, que assinalando o óbvio diz que basta olhar em volta para ver que as virtudes dos fracos que ele identificava com o judaímo/cristianismo, não estão obrando, mas faltando em um mundo onde prevalece justamente as cóleras individualistas e egocêntricas daqueles que se julgam super-homens superiores aos outros.
A democracia mesmo nesta situação conturbada tem certo mérito porque ao menos seleciona – pelo menos em tese – aqueles que não só tem as condições “técnicas” de exercer o poder, mas também aqueles que – ainda que em um mundo ideal - tivessem as qualidades “políticas” de persuadir, convencer, negociar (no bom sentido do termo hoje tão degradado) e trazer apenas pelo poder da palavra a maioria em favor de sua visão.
O problema, assim, estaria localizado – como viu Ortega y Gasset – em criar uma tal educação política e consciência cívica nas massas que em algum momento do futuro elas viessem a escolher pelos motivos certos a tal ponto que a escolha seria também uma seleção. Esta tarefa, que ele próprio considerava necessária e quixotesca, só poderia ser feita por uma elite de fato – jamais pelo Estado, que distorceria a tarefa em proveito próprio e com tendência estagnante – que sem preocupar-se com o poder estivesse disposta a realizar esta tarefa, sobretudo pelo exemplo e pela disciplina.

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