Revoluções, evoluções e involuções
A primeira vez que li George Orwell estava ainda na infância. Familiares decidiram que A Revolução dos Bichos era uma leitura interessante para me curar das minhas precoces inclinações comunistas. Li e gostei do livro, mas o remédio não teve o efeito previsto, tanto que alguns anos depois, com 13 anos tornei-me militante de um PCdoB que ainda se orgulhava de ser stalinista e ainda na ilegalidade, mesmo que já fora dos períodos mais sérios da ditadura militar.
Lembrei-me desta história nestes dias relendo Lutando na Espanha – relato de Orwell sobre a sua experiência na Guerra Civil Espanhola - e a coletânea de ensaios Dentro da Baleia. Orwell tem a capacidade de chamar a minha atenção e proporcionar-me o prazer da leitura até mesmo quando ataca coisas nas quais acredito. Em Dentro da baleia ele desmonta vários de meus autores preferidos – Tolstoi, Russel e Swift em especial – ainda assim lá estou lendo pela enésima vez lendo e refletindo sobre os textos, até dando razão a algumas das críticas feitas. Minha consolação vem em parte do fato de que lá no fundo, nas entrelinhas, há muita admiração e respeito de Orwell pelos mitos pelos ícones que ele se propõe a destruir, talvez seja isto que faça a análise dele ser repleta de sinceridade e portanto de verdade e beleza.
Revolução dos Bichos, Lutando na Espanha e 1984 são um mesmo livro contando a história de formas deferem relato da guerra civil espanhola é a matriz na qual os outros foram plasmados, é uma descrição que impulsiona as narrativas nas quais o resultado daquelas práticas que ele denuncia vão gerando outros cenários. Há casos nos quais se percebe como os indivíduos da fábula foram decalcados a partir de personagens da vida real. Sansão, o cavalo fiel e batalhador que toma com motto “O camarada Napoleão tem sempre razão” é um é moldado em um dos milicianos com quem ele se encanta nas trincheiras da Catalunha.
Ele não enxerga estes dois militantes dedicados com desprezo, por mais profunda que seja a crítica às vãs esperanças que motivam os dois personagens. Sobre o personagem de Lutando na Espanha ele afirma:
“Era um moço de seus vinte e cinco anos de idade, com expressão carrancuda, espadaúdo, cabelo meio avermelhado e louro. O quepe de couro, de bico, estava repuxado de modo feroz sobre um dos olhos, e de perfil para mim, tinha o queixo encostado ao peito, olhando com perplexidade um mapa que um dos oficiais abrira sobre a mesa. Alguma coisa, em sua expressão fisionômica, causou-me profunda emoção. Era o rosto de um homem que assassinaria outro, ou daria sua própria vida por um amigo, o tipo de rosto que se espera encontrar num anarquista, embora com toda a probabilidade ele fosse comunista. Encontravam-se, naquela expressão, candura e ferocidade ao mesmo tempo, bem como a reverência patética que os analfabetos possuem por aqueles que julgam seus superiores. Estava mais do que claro que ele não entendia patavina do mapa, cuja leitura e interpretação deviam, a seus olhos, constituir estupenda façanha intelectual. Eu não sei por que, mas poucas vezes vi alguém que me agradasse de modo tão imediato”.
Já sobre Sansão, a admiração de Benjamin, o burro, pelo cavalo é expressa de forma semelhante ao do autor. Por mais que deplorem a ilusão, admiram a força e até a ingenuidade do iludido tanto quanto odeiam o ilusor.
Neste sentimento mais de admiração que de desprezo pela “disciplina proletária” é que julgo que há a enorme diferença entre Orwell e outros tantos que denunciaram a manipulação dos dirigentes sobre os liderados. No passado a discussão política da esquerda chamava isto de stalinismo e o deplorava ou defendia, mas para muito além dos partidos comunistas foram se traçando com mais ou menos nuances estas práticas.
A diferença sensível é que muitas e muitas vezes esta denúncia da disciplina e do chamado “centralismo democrático” era no fundo aquilo mesmo que os defensores da medida – stalinistas em maior ou menor grau – diziam: uma aversão pequeno-burguesa à disciplina, de um lado, e um sentimento de superioridade de alguns indivíduos, particularmente os intelectuais diversos, sobre a massa do povo.
Estas discussões todas parecem ter ficado guardadas em algum baú de recordações do passado, de uma época em que estas questões todas passavam por inúmeras horas de discussão. Mas o pior é que não são, se na por outros motivos porque foi neste universo que surgiram e se formaram muitas das lideranças políticas que estão por aí – e não só as de esquerda, mas muitos, em especial os mais insignes, de direita.
O autoritarismo stalinista soçobrou, mas sob inúmeras formas e pretextos continua sendo cada vez mais o método de organização política mais efetiva e mais comumente colocado em prática por aí. Pior! As alternativas a ele são em geral coisas ainda piores e mais deploráveis, ou é o quadrilhismo puro e simples, ou o personalismo caudilhista ou uma mescla de sentimentos ressentidos envenenados até o cerne por sentimentos fascistas, fascistóides e preconceituosos.
A efetividade de algum tipo de “centralismo democrático” dá a quem o utiliza uma enorme vantagem sobre os grupos menos organizados e disciplinados, faz com que ativistas diversos em vários locais falem a mesma língua e compartilhem de um plano de ação comum, isto sem dúvida dá a eles uma enorme vantagem estratégica. O fluxo na direção contrária, da base par o topo da pirâmide, mesmo sempre sendo um aspecto secundário do centralismo democrático, mesmo quando utilizado de forma mutilada tem a vantagem de produzir informações, muitas vezes relativamente precisa. Mesmo com a prática de “decidir antes para depois fazer a reunião” tal método enquanto estratégia de combate é excelente.
Preocupa-me saber como este processo inevitavelmente termina como a história, inclusive a história recente do país, não cansam de dizer. Preocupa-me ainda mais a falta de alternativas a este processo.
Só me resta descobrir se esta desesperança este em mim ou está no mundo!

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