Revistando o camelo

Minha história preferida de Nasrudin, que até já contei aqui mas repito hoje, é aquela na qual todos os dias o mullah passava pela fronteira com um camelo – bom, na história original parece-me que era um burro, Millor colocou uma motocicleta na sua versão da história, eu gosto de pensar em um camelo porque é um animal grande, evidente, difícil de não notar, além de dar um tom mais exótico.
Todos os dias o mullah atravessava a fronteira entre a Síria e a Pérsia – também não venham me dizer que não há esta fronteira proque a história não é sobre geografia – com o camelo, o guarda da fronteira revistava a carga e o deixava passar. Como Nasrudin dava sinais de estar enriquecendo todos desconfiavam que ele se dedicava ao contrabando e revistavam ainda com mais rigor, sem encontrar nada.
Muitos anos depois o guarda da fronteira se aposentou e pediu que Nasrudin lhe contasse seu segredo, fazendo mil promessas de não revelá-lo. O mullah respondeu apenas:
ora, eu contrabandeio camelos!
A infinidade de sentidos que se pode dar a esta história são quase infinitos e ao mesmo tempo único. Cada um, certamente, pode encontrar o camelo que a historinha conta se procurar bem. Mas este texto também não é sobre isto, mas sobre como o conhecimento pode ser encontrado não onde é procurado, mas onde está tão evidente que ninguém o procura.
Por isto prefiro procurar o conhecimento na literatura e em particular na poesia, e as vezes nas coisas banais, do que em grossos volumes que se propõem a explicar tudo. Há palavras que quando escuto tenho vontade de sair correndo, como filosofia, por exemplo, porque isto me lembra um monte de gente petulante incapaz de distinguir entre aquele que tem um diploma de filosofia, a quem chamam por algum motivo obscuro de filósofo, daquele que pensa, que são tão poucos e não dependem de nenhum símbolo externo para serem sábios.
Sempre que visito os sebos do centro de São Paulo vejo prateleiras e prateleiras de livros ditos “esotéricos”, “místicos”, “ocultistas”. A própria existência destas prateleiras seria por si só uma prova da inutilidade destes livros – muito raro, por exemplo, vejo um livro de Borges num sebo. Se realmente dessem algum poder secreto àqueles que o buscam o proprietário original não teria se desfeito dele em hipótese nenhuma.
Não sou tão radical neste assunto como, por exemplo, Schuon e Guénon que escreveram diatribes ferozes contra estas superstições mágicas que tentam apresentar como o esotérico justamente o seu inverso, a superstição, a mágica. Quando falo do assunto apenas destaco a pergunta: o que você está realmente procurando o conhecimento ou o poder que acha que ele dará.
Minha tendência meio natural à tolerância – graças a Deus – faz com que eu veja sinceridade entre muitas destas pessoas que estão procurando algo que não sabem bem o que é em um lugar onde esta coisa nunca estará – em outras palavras que estão revistando o camelo.
Com todos os recursos do marketing, toda esta pressão de uma sociedade individualista que faz as pessoas desejarem fazer parte de algum grupo, seja lá qual for, toda esta indústria do “misticismo de boutique” no qual se vêem iniciações diversas sendo vendidas por um módico investimento, acho que há sim gente sincera perdida nestas ruelas do submundo dando ouvidos aos magos Simão high-tech.
Uma das poucas pessoas que leram estes autores e demonstra que os entendeu e os vive – também a única pessoa que quando me chama de sábio eu quase acredito - me falava estes dias que quem trava a luta é este outro lado, aquele que detesta tudo que é seleto. Lembrei-me na hora de Ortega Y Gasset e do que ele fala sobre o horror do homem-massa a tudo que é elevado, nobre, à razão e à argumentação.
As coisas nas quais pensei só me fazem desconfiar ainda mais dos livros que prometem ensinar algo, porque salvo estas pouquíssimas pessoas que leram e entenderam, a maior parte dos leitores de Guénon também o tratam como um símbolo de poder, caem em um intelectualismo estéril, na necessidade de provar-se superior aos outros por ter lido. No fundo também buscam um poder mágico nos livros que lêem e com isto acabam se tornando iguais ao que mais combatem, também revistam o camelo.
Há uma infinita beleza e sabedoria, por exemplo, em um poema de Rumi. Alguns, talvez a maioria, o leiam sem perceber nada, outros encontrarão ali um oceano de sabedoria que não poderia estar contida em toda uma daquelas estantes de sebo que mencionei. Penso nisto e quase que acho o camelo...

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