Responsabilidades

Fiquei quase dois meses sem escrever, primeiro por conta do excesso de trabalho no final do ano, depois por conta das férias com meus filhos, depois pela necessidade de colocar o trabalho em dia depois da volta das férias e finalmente por conta de nova onda de trabalho e atividades distintas. Com tantos assuntos na cabeça, acumulados ao longo deste período todo, nem sei direito por onde começar.
Começo então fazendo algo que normalmente eu não gosto, que é falando do próprio blog. Sempre acho certa “pobreza” os blogs que falam sobre si mesmos, sobre escrever um blog ou coisas do tipo, num arremedo de meta-linguagem que geralmente esconde a falta de assunto. Mas sem dúvida há momentos nos quais um balanço é necessário.
Acho que sempre lembrarei do ano de 2006 como o “ano do blog”, afinal ainda que ele não tenha sido o acontecimento mais importante teve um papel central em tudo que me aconteceu no ano passado. As rotinas nunca me agradam, sinto-me a vontade para ser “conservador” ou “libertário”, meditativo ou ativo, político ou literário, enfim, em assumir o papel necessário para realizar as tarefas que devem ser feitas. Penso que o blog me ajudou se não a entender ao menos a racionalizar estas diferentes facetas necessárias a vida cotidiana.
Penso que também em parte estas funções diversas auxiliaram a me fazer ficar um pouco distante do blog. Havia, afinal, algumas necessidades de agir a partir de muitas reflexões feitas e nem sempre estas ações combinam com a reflexão. Claro que isto não quer dizer “ligar o piloto automático” e agir por impulso. Como dizia já Ibn Khaldun no século XIV – os pensadores em geral são as pessoas menos apropriadas para governar porque estão por demais preocupadas nas questões gerais, nas concepções abstratas, nas grandes linhas, enquanto o governo exige atenções específicas, escolhas muitas vezes mais táticas que estratégicas.
Numa outra linguagem brinco sempre que para algumas atividades é necessário ser brâmane e em outras ser xátria. Nas crenças hindus e budistas esta distinção fica clara na medida em que os avatares muitas vezes pertencem à casta guerreira e não à sacerdotal. Só os santos, capazes de superar os sentimentos essenciais – “gunas” na terminologia hindu – são capazes de estar além e acima de qualquer limitação de visão e ação de casta. Claro que penso aqui em castas no sentido de tipos de personalidade a partir dos valores e emoções que orientam cada um – portanto abertas a cada um no seu processo individual de aperfeiçoamento – e não em distinções baseadas no nascimento.
Como avaliar qual é o momento de agir e qual o de apenas observar e orientar... Esta é uma questão que estou sempre me fazendo, talvez jamais aja uma resposta padrão.
2006 foi um ano no qual mergulhei um bocado dentro de mim mesmo, enfrentei lutas interiores, esforcei-me para aprimorar-me. 2007 parece ser um ano voltado para uma esfera mais pública, com outros tipos de tarefas e desafios. Há certamente uma continuidade entre os dois momentos, sem a evolução da disciplina e do auto-conhecimento jamais pensaria neste outro horizonte de tarefas.
Da mesma forma não buscaria estas atuações em outros horizontes. Mas como pessoa que costuma aceitar seu destino não fujo das tarefas que aparecem a minha frente, nem tento me esquivar das responsabilidades que surgem sem que eu tenha buscado por elas. E me lembro aqui, mais uma vez na minha vida, de uma tradição islâmica que diz que o muçulmano não deve buscar as honras da função pública, mas se for escolhido deve aceitar, contando então com a proteção de Deus. Há seis anos tornei-me servidor público obedecendo a esta regra e renovando-a a cada novo desafio. Agora de novo tenho de invocá-la.
Leitor apaixonado de Gasset não me desiludo com a democracia e a política mesmo quando parecem não faltar motivos para isto. Em 2006, mesmo em plena eleição, pude ser o pensador do tipo que Khaldun menciona, preocupado com as grandes questões gerais, tanto quanto possível despreocupado com o que Lobato chamava de “papeluchos que uma gente deposita numa caixa chamada urna”. 2007 começou com a política “real” batendo na minha porta e me convocando para romper os tecidos que a separam daquela outra política de pensadores, deixando que outros valores, métodos e debates irrompam nestes nossos horizontes turvos.
É o tipo da situação que é muito tranqüila quando vista de forma abstrata, mas terrível quando colocada de forma concreta na sua frente reclamando, mais uma vez, uma escolha. Continuar em um universo quase sempre contemplativo, reflexivo, como nos últimos meses; ou atender o chamado à ação, à prática, ao embate concreto nem sempre no plano ideal, sacrificando algo ou muito da flexibilidade e comodidade, mas por outro lado podendo demonstrar com mais clareza que outros caminhos são possíveis. Não é uma escolha fácil, mas é uma escolha que o sentimento de dever já fez por mim e que, sobretudo, chega na hora certa – seria imprópria em 2006, por exemplo – e mais uma vez me coloco a serviço do meu destino.

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