Representação Política da Mulher

Chega a ser triste ver o Dia Internacional das Mulheres - que é um marco da luta das mulheres pelos seus direitos mais do que uma homenagem ao feminino - transformar-se em mais uma data comercial, ser esvaziado de seu conteúdo para ser exatamente uma celebração fugaz não só sem relação com o sentido original mas em muitos sentidos oposto a ele. Um dos efeitos disto é que a mulher que acaba sendo homenageada é aquela que menos tem a ver com a data, até porque as que estão na trincheira desta luta não tem quem as presenteie com mimos.
Nos últimos quatro anos tenho associado esta data com uma das parlamentares com as quais eu tenho a honra de trabalhar, a Delegada Rose. Assim este 8 de março foi excepcionalmente triste porque ela não foi reeleita e a data também assinala a última semana de uma sucessão de mandatos iniciada em 1991. Deputada preocupada com o trabalho parlamentar, presente, interessada, diretamente ligada à questão dos Direitos da Mulher antes mesmo de ser a titular da primeira Delegacia de Mulheres, uma das poucas vozes com bom senso ao se manifestar com conhecimento de causa sobre segurança pública, mesmo nos períodos de histeria sobre o assunto – eqüidistante do discurso fantasioso e exagerado dos direitos humanos quanto da truculência demagógica.
Quando ela não se reelegeu senti certa culpa, gostaria de ter feito mais, ter contribuído mais. Turvou um tanto a minha alegria de ver meus candidatos eleitos ter sabido que ela não se elegeu. Pensei muito no quanto os julgamentos da sociedade são injustos com tantas pessoas dedicadas que sacrificam a vida pessoal à carreira pública.
Fala-se muito da questão da participação política da mulher e da necessidade de ampliá-la, mas não se diz o mais importante, que o gênero não pode ser programa de governo. Em outras palavras é excelente que um número maior de mulheres seja candidata e que as pessoas votem nelas, mas para ser uma representante feminina – e o mesmo vale por etnia, idade, opção sexual, enfim qualquer segmento que se pense – é preciso mais do que apenas pertencer àquele segmento, é preciso ter consciência, identidade e bandeiras de luta. Neste sentido a Delegada Rose é uma expressão precisa do que é uma representante feminina no parlamento e tanto o legislativo como a sociedade, em particular as mulheres e a polícia, ficarão muito mais pobres sem a presença dela a partir da outra semana.

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