Reflexões de vésperas de aniversário
Dizer que a idade é psicológica ou um estado de espírito é sempre um lugar comum, destas coisas que repetimos muito sem pensar. Não acho que seja correta a interpretação que se faz em geral destas expressões tentando dar legitimidade a comportamentos pueris ou de adolescentes em cabeças grisalhas, como no poema de Hugo creio que “cada idade tem seu prazer e sua dor”. Porém, acho que há uma disposição dentro de nós que dá a medida da nossa idade na medida em que mesmo nos comportando de acordo com as responsabilidades de nossa idade somos capazes de enfrentar desafios e planejar o futuro com a curiosidade e coragem das crianças.
Eu, particularmente, nunca tive uma boa relação com a minha idade. Tive poucos amigos adolescentes quando era um deles e tenho vários hoje quando há muito já deixei de ser um. Mas há muito já tinha a esperança de sempre ser capaz de manter aquele espírito audacioso, despojado, generoso dos jovens – o qual infelizmente está se extinguindo mesmo neles por conta desta nossa cultura individualista e consumista.
Quando leio algo que escrevi há algumas semanas e não concordo mais com aquilo isto me dá alegria, não por ser incoerente, mas por perceber uma evolução no meu pensamento sobre aquele ponto. Se eu precisasse descrever este sentimento de juventude que mencionei em um único traço usaria esta capacidade de não ter certezas absolutas e não aceitar as verdades absolutas por mero comodismo.
Não deixa de ser curioso que não tinha este tipo de sentimento de forma tão clara quando era jovem. Vivia naquela época a necessidade das certezas absolutas, Falei duas vezes nos últimos tempos sobre professores e mestres e me lembrei de uma conversa há alguns dias com a Cláudia e a Márcia na qual mencionei um outro mestre que eu tive, este já na universidade, Albertino, que me ensinou justamente o quanto eu não sabia, o quanto eu encolhia o mundo pro tentar enquadrá-lo, como Proteu, em meus esquemas analíticos, na minha cosmovisão.
Certamente ele teve este papel fundamental de libertar a minha mente e elevar a minha percepção e mesmo sendo ateu abriu-me as portas para tantas experiências espirituais que depois tive. Sem dúvida alguma, me ensinou o caminho até esta fonte da juventude mental que é a dúvida. Foi uma das muitas pessoas que tive a felicidade de encontrar pela minha vida que foram capazes de ensinar-me algo muito valioso. Algumas vezes a lição precisou ser amarga porque eu reagia a ela, em outras foi doce quando me submetia ao aprendizado, mas todas as vezes que recusei-me a aprender e me afastei do meu caminho, abandonei este meu ímpeto jovial de aprendizado naufraguei e perdi o sentimento de unidade em mim mesmo.
Vejo pela rede muitas pessoas se intitulando de mestre, coisa que nenhum que o fosse de verdade faria, às vezes rio da pretensão, às vezes me preocupa que capturem algum incauto, eu e Cláudia discutimos justamente isto ontem à noite. Até de brincadeira, lá no meu país virtual, é um título que me preocupa. Mas como ninguém é vítima totalmente inocente avalio que mesmo os falsos mestres podem ensinar algo aos discípulos que os aceitam, porque acabarão mostrando a eles que o caminho da liberdade e do conhecimento exige a aniquilação da vaidade e não o incentivo dela e que aqueles que alimentam o orgulho próprio ou dos que desejam dominar mais cedo ou mais tarde desvelarão suas faces.
Voltando às escolas e à juventude, preocupa-me às vezes alguns métodos modernos de ensino no qual em nome de não se impor uma relação de submissão ou frustrar a criatividade se acaba deixando de ensinar a domar o orgulho e a ter uma postura de humildade frente ao conhecimento. Tive algumas boas mestras no segundo grau – como comentei em post anterior - que em momentos de dificuldade, isolamento, frustração me fizeram exercitar, descobrir e valorizar meus talentos e certamente foram importantes, mas o professor que me ensinou a duvidar do que eu sabia foi ainda mais fundamental. A atual ausência de professores que detenham a autoridade – friso a diferença fundamental com o poder – para varrer as certezas e ensinar a disciplina que leva á liberdade é um problema educacional mais grave do que verbas, projetos ou coisas similares. Ainda mais neste momento do mundo no qual a escravidão do egoísmo cega a tantos olhos que a vêem como liberdade.
O equilíbrio entre a busca constante da juventude e a humildade que só a maturidade pdoe conferir é a meu ver uma meta possível em nossas vidas. Da juventude este ponto de equilíbrio traz a consciência que deverá ser sempre um processo e não um lugar ou momento definitivo, da maturidade este equilíbrio recebe o legado de não ser mais necessário buscar a auto-afirmação, compensar as inseguranças.

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