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Reflexões de aniversário

"Contra o que se sóe julgar, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em essencial servidão. Não saboreia sua vida se não a faz consistir em serviço para algo transcendente. Porisso não considera a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por azar lhe falta, sente desassossego e inventa novas normas, mais difíceis, mais exigentes, que o oprimam. Isto é a vida como disciplina - a vida nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos." (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)
 
Todos os que proclamam algum processo de elevação espiritual como algum tipo de processo mágico jamais poderão ser capazes de sentir a satisfação e o efeito das pequenas ações cotidianas que marcam o caminho longo deste processo e estão acessíveis a qualquer um capaz de um mínimo de disciplina. Falo isto para justificar este meu post de aniversário, afinal uma das ações que tem sido mais relevantes para a minha vida tem sido planejar minha ações a cada dia e fazer o balanço do que consigo ou não realizar e porque no final do dia.
Esta contabilidade da vida, seguindo os fluxos naturais de dia, semana, mês, ano, nos ajudam a assumir o controle da própria vida, a não ser apenas reativo ao que ocorre, mas tomar a frente de nosso destino. Ao mesmo tempo a avaliação constante nos ajuda a ver onde e porque falhamos - partindo do princípio, claro, que somos capazes de sermos sinceros conosco, o que por si só é um desafio. Libertar-se da postura estéril de culpar-se para tomar a posição de avaliação do que precisa ser corrigido e melhorado é por si só um elemento de separação entre elite e massa, afinal nada mais simples que culpar-se, portanto se punir, ao invés de fazer o esforço para corrigir-se.
Penso que em poucos momentos da minha vida evolui tanto quanto neste período entre meus dois aniversários. Passei a compreender de fato, no coração, questões que compreendia só em tese. Libertei-me de boa parte das ambições e ao livrar-me delas, suponho, coloquei-me à altura de enfrentar desafios maiores. Penso que me libertei também de muitas fraquezas, como o desejo de agradar e a preocupação excessiva - diria quase "nipônica" lembrando-me do livro de Ruth Benedict "O Crisântemo e a espada", que ando relendo - com a reputação. Ser capaz de livrar-me destas cadeias me deixou mais sincero comigo mesmo e com os outros, infenso a tentar temperar minhas opiniões e ações segundo a vontade alheia. Esta servidão à própria imagem não deixa de ser ao mesmo tempo uma escravidão e uma idolatria ao próprio ego, concluí.
Penso que estas reflexões tiveram um papel fundamental nesta imensa parte de mim que sempre foi a vocação política ter voltado a ser um território habitado. Foi preciso que eu a tivesse deixado de lado, como mera tarefa profissional - a ser cumprida da melhor forma como qualquer tarefa, mas sem paixão - tivesse resistido a todos os cantos de sereia do Coronel Kurtz, já tivesse optado por ser outra coisa, enfim tivesse me libertado desta paixão. Então as circunstâncias atropelaram minhas opções com novas e jamais pensadas oportunidades.
Ao mesmo tempo em que surgiram oportunidades já esquecidas, eram resgatados pelas circunstâncias estes sonhos, tudo parecia ao mesmo tempo novo e inesperado e renascido do passado. Mas, por paradoxal que seja, e como se eu soubesse que seria assim, cada passo foi imaginado, previsto, construído. Não imagino que este processo pode ser descrito de forma adequada, mas achei uma descrição bem satisfatória revendo a série de entrevistas de Joseph Campbell - que tem o título de seu livro mais conhecido "O Poder do Mito" - quando o antropólogo fala de um momento em nossa vida que parece justificar nossa existência até então, que dá ordem a todo processo caótico que nos levou até aquele momento, como se toda nossa vida tivesse a finalidade de nos preparar para aquele momento.
A Márcia tem sido a grande parceira neste processo todo, juntos enfrentamos os momentos ruins e os bons momentos, as vitórias e conquistas. E sem dúvida às vezes estes últimos são muito mais difíceis de serem enfrentados. Ainda mais quando as vitórias exigem um grau de dedicação ao trabalho e esforço muito acima da que seria exigida de um trabalho qualquer. A tranquilidade que ela me dá para cumprir meu destino é mais do que extraordinária ou imaginável.
Curioso que jamais tenhamos discutido, nem nos bons nem nos melhores momentos destes meses todos. E esta ausência de discussão por menor que seja não é pelo motivo esperado, pela nossa capacidade mútua de dialogar sobre tudo, de conversar com calma, não se chegou jamais a um momento no qual esta disposição para o diálogo teve de ser sacada e utilizada. Bastou a empatia, a capacidade de sentir o outro e identificar-se com ele para que tudo fluísse com incrível calma e naturalidade - toda tensão colocada no lugar certo, no momento certo, aonde ela realmente é útil. Em outras palavras, há calma não pela frieza ou ausência de emoções ou excesso de racionalidade, há calma justamente porque se transcende tudo isto em um outro grau de via compartilhada. Nem estranho quando tantos comentam nossas semelhanças, até físicas.
Mas houve metas nas quais fracassei e falhas. A principal delas foi, na minha avaliação, não ser capaz ainda de atingir aquela superação da raiva e do ódio, até da vingança. Sei que o bom guerreiro é capaz de lutar sem nenhuma paixão, sem ódio àquele que enfrenta. Aliás nenhuma religião tradicional elimina a luta, o conflito, mesmo o extremamente pacífico Jesus que prega santidade diz que não veio trazer a paz, mas a espada. Todas as fés nos ensinam a lutar contra o mal, a começar pelo mal dentro de nós. Mas todas exigem a disciplina de não lutar com ódio ou medo, porque neste caso estaríamos de fato lutando nas fileiras contrárias.
A satisfação toda que senti, por exemplo, com a queda e humilhação de pessoas que me perseguiram, por exemplo, não pode ser um sentimento positivo. Eu ter expressado claramente minha satisfação e até participado de algumas correntes de comentários e boatos foi algo que fez com que depois eu me sentisse fraco e indigno do papel que imagino para mim. Certamente não devia ter sido hipócrita somando-me a muitos que aparentavam um pesar que não tinham, mas também não deveria ter me somado aos que festejavam cada notícia envolvendo o nome do perseguidor em um escândalo.
Deveria, antes, ter me considerado contemplado e protegido por ter sido afastado de um lugar onde os relâmpagos da desonra caíram muitas vezes. Eu mesmo sempre havia dito a vários amigos, em especial à Renilde, que Deus havia sempre me concedido servir apenas a pessoas sérias e jamais ter sido confronto com algum dilema ético. No nível racional compreendi que todos os dissabores que passei tinham uma finalidade maior, mas creio que no coração a lição não foi totalmente absorvida.
Ao mesmo tempo cheguei a um grupo político no qual este tipo de compreensão é absolutamente essencial. Grupo perseguido, humilhado, traído, atacado duramente pelos últimos quinze anos, só será capaz de obter a vitória na medida em que se liberte dos ódios e ressentimentos. Também tem o grande mérito de ser um grupo que passou por todos os filtros que a vitória e ainda mais a derrota podem oferecer, aqueles que sobraram resistiam a todas as tentativas de cooptação, não sucumbiram ao desânimo, não abriram mãos de ideais e só fizeram crescer a vontade de fazer diferente e criar o novo. É ao mesmo tempo um orgulho fazer parte não só do grupo como de seu núcleo formulador, assim como é enorme desafio a mim mesmo estar á altura da tarefa. Mas para isto terei de ser capaz de enfrentar minhas fraquezas e ser bem sucedido onde falhei.
Por fim em meio a tantos aspectos positivos e grandes vitórias a vaidade, que andava há anos sob controle, vai achando espaço para ressurgir e eu penso que tenho falhado muito além do aceitável em controlá-la. Vaidade baseada às vezes no medo, às vezes no sentimento de vingança, enfim, naqueles sentimentos inferiores. Reconhecer estas fraquezas me ajuda também a ser mais tolerante, outro problema com o qual tenho lidado mal, afinal se eu que deveria ter uma consciência muito maior da importância da autodisciplina falho com tanta frequência como posso cobrar melhor desempenho de outros.

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