Realistado
“No dia seguinte atirei-me ao trabalho, digamos que voltando
as costas ao posto. Parecia-me a única forma de continuar
ligado às saudáveis realidades da vida. Mas é difícil uma
pessoa não olhar de vez em quando à sua volta; e então
reparava no posto, no disparatado vaivém dos homens no
cercado, à torreira do sol. Muitas vezes perguntei a mim mesmo
o que significaria tudo aquilo. Vagueavam por um lado e outro
a empunhar absurdos varapaus, como peregrinos sem fé que
circulassem, enfeitiçados, dentro de uma cerca apodrecida. A
palavra marfim, passava no ar segredada, suspirada. Parecia
que lhe faziam preces. Um cheiro a imbecil rapacidade bafejava
tudo como um cheiro a cadáver. Júpiter nos valha! Nunca na
vida eu vira coisa tão irreal. E à volta a silenciosa selva,
que apertava aquele pedaço de terra nua, parecia-me enorme e
tão impossível de vencer como o mal ou a verdade, que estava à
espera, com paciência, do fim daquela invasão fantástica.” (Conrad, No Coração das Trevas)O mundo andava chato e sem sentido. O sintoma claro do meu desencanto era aquela vontade reiterada de mudar pro mato e plantar jabuticabas, goiabas, gabirobas e coisas do tipo.
Digo que andava sem sentido não com aquela sóbria visão como a que Caeiro/Pessoa diz que basta uma coisa existir para ser completa e que são vãos e inúteis todos os esforços do pensamento de tentar compreender a mínima coisa. Digo sem sentido porque quando não se sabe para onde vai mesmo que se veja a estrada não há com se decidir por um lado dela.
Digo que andava chato porque parecia que mais nada nele conseguia despertar do enfado do cotidiano, nada quebrava o sono que não era o bom sono de quem está no mundo sem ser do mundo, mas sim o sono da apatia de quem não está no mundo mas tampouco fora dele.
Andava nestas quando Kurtz ligou de seu posto lá no ponto mais negro do Coração das Trevas.
Ele continua o mesmo, eu mudei e marfim nenhum mais é capaz de mover-me, é de andar atrás dele ou desejar andar ao lado dele que fiquei atonteado por tanto tempo, sem coragem de escrever para que as asas não voltassem a crescer e tomando a pena como alabarda rachasse algumas cabeças.
Ou talvez seja o contrário, eu continuei o mesmo e compreendi a inutilidade do movimento e ele mudou e descobriu a realidade.
Enfim, andava mais como os peregrinos sem fé de que fala Conrad, não por ter me tornado um deles, mas porque andava achando que não pagava a pena ostentar a diferença, ter aquela mesma marca de distinção e ameaça que Kurtz tem.
A coisa mais maluca da política para quem vive nela e dela é que a amálgama de sentimentos distintos tem fórmula secreta e complexa e uma pitada a mais ou a menos dos opostos necessários ao equilíbrio costuma causar explosões de assustar qualquer otimista. É impossível sobreviver são – em todos os sentidos de sanidade, da integridade à sobrevivência política – porque nela se morre muitas vezes como já percebeu um estadistas destes famosos e sempre citados – ou seja dos princípios mais absolutismos até a mais pragmática “manobra tática” sem uma combinação precisa de ingenuidade e matreirice.
Aquele que não tiver a dose mínima de ingenuidade jamais conseguira confiar em nada nem ninguém, nem nos seus ideais e nem em si mesmo. É preciso ser ingênuo para crer que o mundo pode ser mudado, tanto quanto para ter certeza que ele não mudará e portanto esta dose de ingenuidade é necessária à esquerda e à direita.
Ao mesmo tempo é necessário ser tão ardiloso a cada passo para que os planos traçados de forma ingênua sobrevivam no meio dos lobos que não raro s’aqueles que crêem muito profundamente no sentido maior daquilo que fazem – ou descrêem por completo de qualquer coisa e portanto não temem nenhuma conseqüência - são capazes de ser bem sucedidos neste mundo. Na me espanto quando vejo os mais profundos idealistas tornando-se os mais venais cínicos porque na verdade ambos costumam estar tão repletos destas doses elevadas e viciantes de ingenuidade e pragmatismo que uma gota a mais de um ou outro acaba por fazer o equilíbrio transbordar.
É verdade que não há canalhas se transformando em paladinos heróicos na mesmo proporção que a mudança ao contrário, mas é que aos canalhas falta a ingenuidade e por isto podem se manter estáveis, ainda que sempre ouça relatos de canalhas conhecidos que eram adorados pelos que lhes eram próximos pela suas virtudes pessoais.
Enfim, Kurtz me liga naquele momento em que estou mais pronto a segui-lo d que já estive em qualquer outro momento. Não tenho ilusões ou veleidades mais como da primeira vez que o segui. Se o encontrasse no coração das trevas e um trono de marfim cercado pro alucinado bando de nativos em êxtase eu só queria ser o bobo da corte que diz as verdades inconvenientes, tão alheio a imbecil rapacidade dos jogos de poder que pode enxergá-la com a clareza de um oráculo sibilino.
Tantas vezes ele chamou e o barco que leva ao Coração das Trevas naufragou tão misteriosamente como o de Conrad que eu mantive o espírito amordaçado, acorrentado e cangado para não alçar vôos de esperança daqueles que terminam em desfiladeiros sombrios de frustração.
Mas como as cosias ganham sentido quando queremos lá no fundo eu sabia que agora era a hora certa e por aquele sensato fatalismo com o qual adornamos todas as cosias que vão se desfiando caóticas a nossa frente de um sentido maior vou achando muito tautologicamente que havia experiências pelas quais precisava passar.
Por quanto tempo vou continuar querendo só o enorme privilégio de continuar pensando, algumas vezes em voz alta, eu não sei. Nada é mais importante que esta maravilhosa condição muito propícia a quem quer estar no mundo sem ser do mundo. Mas no meio de tanto marfim acabamos por esquecer disto muito rapidamente.
Enfim, o estoque de ingenuidade está reabastecido para pegar o próximo vapor para o coração das trevas, sem saber se lá é a mais profunda realidade ou a mais absoluta irrealidade.

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