Progressista
Eu já não saberia classificar-me segundo os rótulos do enquadramento político. Nos extremos acho que há ideias interessantes com as quais me identifico na Rebelião das Massas do conservador Ortega y Gasset a Sociedade do Espetáculo do situacionista Debord assim como acho que Marx ainda tem muito a nos dizer. Não acho que seja algum ecletismo de minha parte, apenas uma preocupação em analisar as questões não segundo sistemas pré-fixados e eivados de pré-conceitos, nos quais as análises devem se limitar a em qual gavetinha devem ser colocadas cada coisa.
Acho que esta visão multifacetada não me impede uma dose bem razoável de radicalismo, inclusive na minha atuação pública – já que a vida sucessivamente tem me colocado em trabalhar do lado do poder e frustrando minha enorme vocação crítica de oposição – em especial no esforço de criar o novo, abrir portas para pensar e construir alternativas inovadoras. Considero, de minha parte, que sempre estive mais preocupado com o que fazer com o poder e não com mantê-lo, assim como semrpe tenho em mente a frase de Ghazalli de que o pior dos sábios é o que frequenta os príncipes e o melkhro dos prínciupes é o que frequenta os sábios.
Todo este longo prólogo eivado de personalismo para dizer que quando cheguei ao 2o. Encontro de Blogueiros Progressistas em Brasília no final de semana não sabia bem o que estava fazendo ali ou se devia estar ali. “Progressista” é termo amplo e portanto vago. Com exceção de reacionários, contra-revolucionários, fascistas e uma certa parcela dos conservadores (Ortega y Gasset é conservador mas ao mesmo tempo progressista na medida em que não deseja uma volta ao passado e tem alguma perspectiva otimista de um futuro possível e boa parte de sua análise e militância está focada no combate ao fascismo e ao franquismo) quase todo o resto pode se dizer progressista.
Não tenho dúvidas que minha ação pública é progressista, talvez mesmo mais radical em alguns pontos – como nas questões de urbanismo - que a de muitos ativistas de esquerda cuja atuação está focada em agendas muito momentâneas e de curto prazo, eleitorais. Não há, contudo, muitos méritos neste posicionamento porque em um país com tal grau de desigualdade como o Brasil, com tal domínio patrimonialista das instituições estatais e políticas, com tal carência de políticas sociais e públicas, com enorme fragilidade da sociedade civil, estar a esquerda é praticamente uma obrigação e um raciocínio lógico porque aquilo que existe é inaceitável e indefensável.
Não bastasse isto o discurso “conservador” vai se tornando tão eivado de grosseria e reacionarismo, tão focado em escândalos fabricados a partir de picuinhas e manipulação, tão contraditório aos valores fundamentais da democracia e mesmo aos direitos humanos que passa a ser ele próprio um discurso que Ortega y Gasset consideraria um discurso do homem-massa e que na avaliação dele cedo ou tarde descamba para o fascismo. Assim qualquer um que tenha compromisso sincero com a democracia tenderá, estou certo, a se sentir cada vez mais desconfortável em estar ao mesmo lado desta grita fascistóide.
Estava pensando nestas coisas quando vi o artigo de Vargas Llosa no Estadão comentando a eleição peruana e saudando a vitória das forças progressistas contra o neo-fascismo de Fujimori. Era o perfeito exemplo que eu precisava. O mesmo Llosa que fez da condenação do estatismo e do populismo uma de suas bandeiras há alguns anos, o mesmo Llosa que escreveu o “Manual do Perfeito Idiota Latino Americano”, estava apoiando o candidato progressista e saudando a derrota fujimorista.
Creio que este episódio é rico em sinalizações. Todas as alianças e unidades fundadas em princípios podem fazer sentido em um determinado tempo e espaço. Há sempre uma linha divisória traçando estas unidades possíveis e sem dúvida aquela que separa o fascismo de todo o resto das forças políticas é uma delas. No passado o fascismo conseguiu triunfar, em grande parte, pela incapacidade de se pensar nesta linha divisória e ser capaz de se construir uma aliança ampla o suficiente porque quase todos estavam muito preocupados com agendas políticas próprias e fragmentárias.
Considero que há forças políticas que cometem hoje este erro gravíssimo de desejarem tanto o poder que cortejam o discurso proto-fascista de negação dos direitos humanos e com variados matizes reacionários. Os segmentos opostos, por sua vez, também não desejando perder estas correntes reacionárias da opinião pública acaba fazendo um discurso frágil e contemporizador, daí tristes episódios como a carolice conservadora da última campanha eleitoral na qual faltou pouco para defenderem a volta do padroado e questões sociais foram tratadas no âmbito religioso e não como políticas sociais, como a questão do aborto.
Neste contexto todo só posso dizer que fui me sentindo a vontade no meio “progressista” do encontro que foi capaz de garantir a todo instante, com intricada habilidade política, tanto a diversidade quanto a horizontalidade – tão raras no ambiente político fragmentário e imediatista de hoje. Houve sim defesas do governo federal, mas não defesas subservientes, tanto como cobrança por posicionamentos claros, assim como houve críticas ao PSDB, mas não infundadas e sim bem fundamentadas na defesa da liberdade de imprensa contra a escalada judicial contra ela e contra o AI-5 digital, enfim, nada que fosse mera expressão de paixões partidárias ou meras opiniões, mas sim argumentações.
Há mais de uma década estava ausente de eventos similares, os quais ocuparam boa parte de minha adolescência na década de 80. Cheguei ao 2blogprog sem saber se devia ter ido e sai me sentindo em casa. Não posso deixar de admirar a visão generosa e ação motivada por uma exta análise de conjuntura dos organizadores.
Não poderia, assim, terminar antes de deixar o link do Instituto Barão de Itararé promotor do evento:
http://www.baraodeitarare.org.br/
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