Professores e mestres
Estou com uma meia-dúzia de posts na cabeça para escrever hoje, mas como acredito em uma frase que é tanto um hadith muçulmano – ou seja uma frase proferida pelo profeta do Islam - como uma das preferidas de Abraham Lincoln segundo a qual uma boa ação todos os dias é mais valorosa do que inúmeras que são feitas em um único dia e esquecidas, tenho de escolher um dos temas e opto justamente pelo menos promissor deles, justamente para que as outras idéias tenham mais tempo de amadurecer, de ser buriladas na troca de correspondência com os amigos, que encontrar apoio em alguma linha de algum livro.
Todas as pessoas sensatas falam há muito tempo que não há saída para o país sem educação. Monteiro Lobato já fazia cruzadas sobre este assunto na década de 20. Não faltam nas campanhas eleitorais as promessas de prioridade e até os projetos mirabolantes destinados a causar a impressão que se dá importância à educação.
Vou decepcionar talvez a quase todos vocês dizendo que isto não é verdade. A educação não foi concebida – ao menos neste nosso modelo ocidental, mas também em outros lugares e culturas – para provocar mudança, mas justamente para gerar conformidade. Se nunca se dá muita bola para o assunto no Brasil – salvo quando há necessidade de mão de obra mais especializada – é porque o povo brasileiro é tão pacato, tão rebanho, que ela nunca foi muito necessária para sossegar os ânimos.
Antes que me crucifiquem, isto não quer dizer que eu ache que se devam fechar as escolas ou que eu ache que a educação é importante. Certamente a educação é importante na medida que é ferramenta essencial – mas não suficiente – para a aquisição de uma compreensão mais elevada do mundo. Por si só ela não produz mudança alguma, quando funciona muito bem – o que não é o caso do Brasil – pode até inibir muito qualquer mudança necessária.
Este potencial modificador que se espera da educação vem a meu ver da cultura. Antes que o foco se pera em intermináveis discussões sobre o sentido do termo cultura abrevio o debate dizendo apenas que estou usando estes dois termos – educação e cultura – no sentido “administrativo” que eles tem.
Chego, então a um dos pontos essenciais que queria debater, aquele momento no qual a estrutura educacional criada para gerar conformidade começa a ser subvertida de dentro pela descoberta que aquele mundo que nos ensinam a entender e aceitar não é o único possível. Este processo se dá em especial quando não se tem um professor – profissional burocraticamente empenhado em enfiar no cérebro dos alunos o conteúdo curricular – mas um mestre – alguém que considerar ser seu dever criar uma ponte entre o ser humano aos seus cuidados e outros mundos melhores.
Sempre existirão mais professores do que mestres, mas sempre acredito que quase sempre basta um para dar um novo rumo à vida de alguém. Eu poderia reclamar do fato de ter tido tantos professores, mas prefiro louvar a benção de ter tido tantos mestres.
Desde o primeiro grau até o segundo, curiosamente, todos las, ou melhor todas elas porque foram quatro professoras Lucila, Angela Izabel e em especial Wanda com quem convivi por maior tempo - foram de língua portuguesa. Me pergunto às vezes se ao invés de ter tido a felicidade destas quatro mestras tivesse um que me fizesse me apaixonar, pro exemplo, pela matemática ou pela física e hoje estaria ao invés de lidando com o poder da palavra estaria preocupado com a beleza das fórmulas e a poesia dos símbolos. Curioso que embora a escola pública onde cursei o segundo grau me provoque até hoje o pesadelo recorrente de ser obrigado a voltar a estudar lá pro algum erro burocrático, tão traumática foi minha experiência por lá, destas professoras guardo uma imagem muito carinhosa e de profunda gratidão.
Não é uma hipótese implausível, afinal quando era criança e até boa parte do segundo grau pensava em ser biólogo ou químico, em alguns instantes houve algo na abstração da matemática que quase me encantou (até para reforçar o argumento diria que na universidade apaixonei-me pela estatística, mas destas coisas falo outro dia), depois tomei nos livros o gosto pela história e pela política e ingressei no curso de Ciências Sociais, mas este amor à palavra estava lá dentro, entranhado, fazendo seu avanço aos poucos e quando entrei em um redação, como um bico, nunca mais consegui sair desta esfera de ação da palavra, mesmo em outros empregos e funções. Digo isto não para falar de mim, apenas para destacar a responsabilidade de cada professor em, se não for um mestre, ao menos não ser cúmplice em matar algo em seus alunos.
Assim, voltando à linha principal, a subversão começa a se instaurar na fábrica da conformidade quando surge alguém que ao invés de fazer o que se espera dele, dizer aquilo que as pessoas tem de pensar sobre o mundo, resolve fazer o que deve fazer, que é fazer com que as pessoas ao invés de apenas olhar, sejam capazes de ver e chegar ás próprias conclusões. Enfim, a amar não o conhecimento que se adquire, mas exatamente apaixonar-se pelo processo de aprender.

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