Política e insanidade
Não sou autoritário em política, mas não acredito muito nesta questão de “ouvir a sociedade”. Evidente que não porque ouvir a sociedade não seja importante, mas porque quase sempre por detrás deste lugar comum esconde-se ou a ausência de propostas efetivas ou a falta de coragem de enunciar projetos realmente novos. Ademais na medida em que há pouca cultura cívica, noção de cidadania, hábito do debate racional, há casos nos quais por “ouvir a sociedade” entende-se de fato “reunir uma massa de manobra para aplaudir entusiasticamente alguma idéia pré-concebida”. Este simulacro de democracia é muito mais comum do que parece.
Até do ponto de vista de um pequeno grupo que se reúna para uma tarefa coletiva, por exemplo redigir um texto, por mais democrática que seja a relação entre elas ninguém redige a várias mãos. O trabalho mesmo na pequena equipe não ocorrerá senão na medida em que as tarefas forem divididas e alguém for escolhido para definir um texto, uma base concreta sobre a qual depois poderão ser feitas as alterações, modificações, acréscimos e edições.
Falei de dois problemas, falta de idéias ou falta de coragem para expressá-las. Não deixa de ser curioso que aos loucos não faltem nenhuma delas e seja comum que as pessoas que buscam as lideranças políticas com soluções para os grandes ou pequenos problemas do país sejam muitas vezes lunáticos.
Por incrível que pareça há vezes nas quais mesmo destes saem idéias interessantes. Lembro-me de uma vez na qual uma destas pessoas com alguns parafusos a menos, famosa até na cidade, fez uma ponderação relativa ao fato dos esfignomanômetros – os aparelhos que medem pressão – poderem errar. A questão nos intrigou e fizemos alguma pesquisa no assunto, verificando não só a ausência de alguma norma a respeito como até que em todo o país havia só um aparelho de aferição. Alguns meses depois, quando o Inmetro lançou as normas de aferição destes equipamentos – e é preciso dizer que o fez muito prontamente – iniciou o programa justamente na Câmara Municipal do interior onde eu trabalhava e que era presidida pelo vereador que teve o bom senso de dar ouvidos à “louca” e tomar as providências.
Curioso parece que no processo geral de degradação de tudo nem mesmo os loucos são mais como os de antigamente, como tantas e tantas personagens da mitologia, do floclore e da história que se expressavam com a absoluta liberdade concedida àqueles que são loucos, que certamente tem no bobo-da-corte o seu arquétipo, mal compreendido na imagem moderna do personagem. Hoje até os loucos calculam, pensam, buscam interesses pessoais ou estão tão fora da realidade que falta aquele tom de discernimento. Também engraçado que boa parte daqueles que procuram um gabinete político sejam loucos – de um tipo ou de outro – porque no fundo isto parece estar me dizendo que só eles ainda acreditam que algum político possa resolver algo.
Os momentos quando me sinto mais ligado à política são paradoxalmente aqueles nos quais me deixo levar também por certa insânia, por certa expectativa ou esperança de que é possível fazer diferença. No meu juízo perfeito preocupo-me apenas em fazer o meu trabalho da forma mais profissional possível, até de sair caçando trabalho quando não há; mas é só quando deixo um tanto do juízo de lado que começo a articular e sonhar em como as coisas poderiam ser diferentes, como se pode romper o paradigma vigente para se pensar em algo novo, começo a traçar propostas que não estão embasadas em “ouvir a sociedade”, mas tentam construir uma nova forma de ver as coisas.

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