Polir a armadura
A paixão da política abandonou-me com o tempo, fui chegando à conclusão de que adianta pouco tentar mudar algo no Estado ou na sociedade, valendo mais a pena mudar o homem em si. E, como diz Pessoa, mudar-se a si exige tanto esforço que não sobra tempo para quem está empenhado sinceramente na tarefa de tentar mudar qualquer outro.
A política, contudo, não me abandona. Há seis anos ela é a minha profissão, com desafios e responsabilidades crescentes. A vocação da política é algo curioso, por mais que a paixão seja essencial nela, estar desprovido das paixões facciosas e dos encantamentos do poder tem um efeito benéfico na compreensão não só do que a política deveria ser, mas também o distanciamento necessário para auxiliá-la a trilhar este caminho.
Mencionei muitas vezes uma tradição do profeta do islam segundo a qual não se deve ambicionar uma função pública, mas que ela deve ser aceita quando ofertada porque então terá a orientação necessária. Fico um pouco constrangido de dizer estas coisas porque faz parte da praxe da política simular a surpresa e a ausência de desejos e ambições, mas só posso dizer que não é hipocrisia.
O antigo amigo que chamo pelo codinome de Kurtz, em referência ao personagem de Conrad, foi o grande responsável pela minha entrada na vida política em um momento no qual aquilo não era mais objetivo vital meu. Há seis anos, depois de vários anos sem contato, ele me ligou e disse que precisava de mim. As circunstâncias, as necessidades, as estratégias, o destino, enfim, fez com que sem nos afastar seguíssemos caminhos distintos – ainda que em contato e próximos.
Há algumas semanas ele ligou de novo, conversamos várias vezes, com o brilho nos olhos que dá a ele mais ainda o perfil de Kurtz, os planos, os projetos, a expressão da vocação política em sua forma mais pura, ele diz que é hora de reagrupar – “É o projeto da nossa vida!” – diz ele em um tom que resume.
É um ponto de inflexão, um momento no qual as decisões são necessárias. Mesmo sem acreditar mais que a política possa de fato mudar e melhorar a vida das pessoas nem por isto ela deve ser deixada nas mãos daqueles que poderiam piora-la. É hora de novamente vestir a armadura, selar o cavalo e combater, transformando a desilusão com a política na capacidade de distanciar-se e observar objetivamente.

Comentários
Boa tarde Alexandre! Lendo
Boa tarde Alexandre!
Lendo seu post de hoje, me ocorre que através dos seus textos, das suas reflexões sobre problemas do cotidiano, comentários sobre filmes, livros, etc, você já faz política - no sentido que Platão atribuía a essa palavra, ou seja: discussões sobre os problemas da polis, da sociedade civil. Essa política você faz de maneira bem feita! Faço votos que na política partidária você e Kurtz consigam manter a pureza dos seus ideais!
Abraços com carinho,
Marisa.
Pensar com as emoções, sentir com o pensamento.
Há dias de objetividade, em que tudo o que foi previsto, planejado, acordado, costurado, tem vez de solenidade e espaço na mídia. Outros são de litros de café, velhas idéias de roupa nova, insights e longas horas sonhando paz, justiça, liberdade e respeito.
Os dois momentos, do sensível e do prático, do devaneio e da lógica, se misturam e confundem, às vezes duelam por quem será prioritário a cada instante, pra logo depois ceder energia, suor, conexões mentais no caminho paralelo que equilibra o anterior.
Não acredito em objetivos sem fé, nem contemplação que não retesa os músculos. E se há a vocação, se há o chamado, e eles acendem o desejo de tornar reais os projetos de uma vida, que se faça com paixão para o bem de todos e cada um.
(nota: Do kurts conheço muito mais a lenda, escuto as histórias, percebo os sinais. De você, meu querido, vejo o brilho dos olhos, me entusiasmo pela luta e enterneço por esta bela amizade.).
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