Poder e Autoridade

Poder e autoridade

“A Massa esmaga todo o diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não seja como todo mundo, quem não pense como todo mundo, corre o risco de ser eliminado” (Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)

Dizia ontem que um dos maiores mal entendidos em relação à questão das “elites” é a confusão entre Estado e Sociedade, o qual por sua vez leva a se confundir a noção de elite com as múltiplas oligarquias que tem usurpado o poder ao longo da história em nome de algum tipo de pretensa legitimação aristocrática. Certamente este abuso do conceito de elite tem grande parte da culpa pela degradação que hoje transforma o termo em ofensa, tanto quanto certa aversão e desconfiança da massa àquilo que não se conforma a seus gostos.
O sentido original de elite é o da fração especializada, seleta, de um grupo e todas as comunidades, por mais vulgares que sejam, sempre tem uma “minoria seleta”. A Aristocracia, em seu emprego original, era a defesa de que aos melhores da sociedade deveria ser entregue a pesada e severa responsabilidade de governar. É neste sentido que praticamente todos os filósofos gregos são inimigos da democracia e defensores da aristocracia.
Sócrates sempre destacava que era necessário preparar-se para comandar um cavalo, mas não um povo, Platão idealizou uma sociedade ideal governada por uma elite austera duramente selecionada e diariamente provada, Aristóteles considerou a aristocracia como a melhor forma de governo. É necessário dizer que se há um grande responsável pela degradação e desmoralização do conceito sempre foram aqueles que transformaram aquilo que era um dever de mérito em um privilégio de nascença, desde a Grécia clássica até os tempos de hoje.
Penso que Tocqueville foi o primeiro a dizer que o espaço político ocupado pelas aristocracias, “cujos privilégios a tornaram odiosa”, precisava ser preenchido ou se teria um Estado Tirãnico e absoluto. Ele via, já no inicio do Século XIX, na sociedade civil organizada o mais promissor substituto de uma força que detinha autoridade por si mesma e portanto poderia enfrentar o Estado a condição essencial para a defesa da liberdade. Mas outro dia comento melhor isto.
Interessa agora mais discutir outra coisa, que é a distinção entre dois conceitos fundamentais para se compreender esta questão das elites: Poder e Autoridade, normalmente confundidos. Se fosse preciso distingui-lo em uma única questão diria que o Poder é algo atribuído a alguém ou a um grupo, enquanto a autoridade reside em si própria, nos méritos de quem a detém.
Certamente quem detém a Autoridade – por conta de seus méritos, qualificações, disciplina, enfim, por algum motivo que o distingua da massa, pode e em geral tem algum poder. Já a posse do Poder, ainda mais nestes tempos de hoje, não dá a ninguém alguma autoridade, podendo até em geral retirá-la na medida que o exercício do poder sempre revela o que de mais profundo existe no espírito. Nenhum exemplo talvez possa ser melhor do que a recente passagem pelo poder de Lula e do PT, no qual toda a autoridade moral como defensores da ética, acumulado em duas décadas, dissolveu-se nos escândalos do exercício do Poder.
Também coisa similar ocorreu com as diversas “elites” - no sentido e com a conotação que o termo tem hoje, de simplesmente um grupo que detém o poder e não dos melhores – as quais por conta de seu egoísmo, ignorância, arrogância, privilégios, conseguiram tornar odioso ao termo e transformar idéias como as de aristocracia, nobreza, como sinônimo de corrupção, degeneração, putrefação. É mais que evidente que as qualidades que dão a autoridade não se transmitem pelo DNA, pelo contrário, em geral a transmissão hereditária do Poder, ao invés da seleção pelos méritos, causa uma degeneração rápida de qualquer qualidade porque retira do beneficiado a necessidade de aprimorar-se e competir para ocupar a posição de destaque. Desta degenerescência à transformação daquilo que era dever em um privilégio oligárquico é apenas um pequeno passo e assim qualquer nobreza hereditária, monarquia, oligarquia, pretensão de superioridade pelo sangue ou nascimento só pode ser estúpida e ser defendida pro estúpidos ainda maiores que através destes argumentos falaciosos buscam ocupar uma posição para a qual não estão qualificados por suas qualidades.
Assim penso que só a Democracia oferece o ambiente adequado de competição que promova a seleção natural das lideranças realmente aptas. A dificuldade disto é apenas ser capaz de dar à democracia a objetividade necessária para julgar aqueles que tem autoridade suficiente para exercer o poder.
Aos verdadeiramente dotados de mérito a aversão da massa ao “seleto” não é um obstáculo, mas um desafio e uma prova de sua Autoridade. Por mais problemas que esta aversão represente – e neste sentido me sinto oposto ao de Ortega y Gasset – a capacidade de lutar apesar dela é um filtro muito mais apropriado do que qualquer outro que a história registrou.
Boa noite e até amanhã, quando espero ser capaz de concluir este texto.

Comentários

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Excelente texto

E excelente blog... Vou xeretar um pouco mais por aqui...

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