Perdei a esperança, vós que entrais
Depois de vários dias com posts “pesados” -tanto na temática quanto no tamanho - tentarei hoje ser mais leve e mais breve.
De novo peço hoje o gancho em um ensaio de George Orwell – do mesmo volume, Dentro da Baleia, por sinal recomendo a leitura. Em um dos textos ele fala sobre a sua experiência como livreiro de um sebo e como gerente de uma biblioteca ambulante que aluga livros e destaca justamente como estes públicos – incluir também o que observou nas bibliotecas públicas – comportam-se de forma diferente e lêem livros distintos.
O mais sincero de todos, diz ele, é o cliente que aluga livros. Este é o único que somente pega os livros que realmente lê, porque tem de pagar por eles, então a quase totalidade das obras retiradas é aquilo que se chama hoje de best sellers. Um outro ensaio do livro de Orwell – Bons Livros Ruins – fala justamente de alguns destes que são bons livros.
Já o leitor que retira livros em uma biblioteca tem certa preocupação com o “status” e retira, na opinião de Orwell, os livros que gostaria de ler. O principal público dos sebos, por outro lado, não seriam os ávidos ratos de biblioteca nem glamourosos pesquisadores de obras raras, mas principalmente estudantes pobres, pessoas em busca de presentes baratos e curiosos.
Quase já desisti de participar de comunidades do Orkut destinadas a livros e leitores de uma forma genérica. Nas que se dedicam a um autor específico costuma haver discussões muito interessantes e ao menos a possibilidade de conhecer outras pessoas apaixonadas por este ou aquele autor, mas nas comunidades mais genéricos como “Amo livros”, “Adoro Ler” e similares quase só há aqueles jogos ridículos e de vez em quando lendo alguns perfis, alguns comentários sobre os últimos ou mais importantes que leu acabo vendo algumas personificações daquele “leitor de biblioteca típico” retratado pelo autor inglês.
Pego apenas um pequeno exemplo como poderia pegar uma dezena ou centena de outros: alguém que disse estar lendo “A Divina Comédia” e comentando que “esta gostando muito, por enquanto está muito legal, mas não chegou no final ainda”.
Mesmo achando que o comentário fala por si, arrisco-me a tentar “explicar a piada” porque acho que o tema merece. Li algumas vezes a Divina Comédia e até discuti o livro várias vezes, inclusive com pessoas que tinham trabalhos acadêmicos sobre o assunto, mas de forma nenhuma poderia dizer que é uma leitura leve, muitas vezes fiquei meio perdido tentando decodificar os símbolos, perdido no labirinto das referências históricas e biográficas, tentando entender os diversos níveis de leitura, enfim se não chegou a ser uma leitura desagradável certamente foi penosa. É evidente que pode ser que seja alguma deficiência minha, algo que uma pessoa com maior compreensão não teria, então admita-se este primeira possibilidade.
O resto do comentário, contudo, é mais difícil de ser salvo. “Legal” é um dos poucos adjetivos que não consigo enxergar associado à obra de Dante. Ainda mais quando a referência se faz às primeiras partes da obra, ou seja O Inferno e o Purgatório. Sem dúvida o Inferno é a seção mais citada da DC, ainda que o paraíso seja mais rico de símbolos, mas todo o caráter sombrio do Inferno com seu ambiente de masmorra, seus castigos atrozes, Salvo no caso de alguém com alguma fixação sádica parecer ser bem estranho que alguém ache o horror dos círculos infernais como “legal”, dá até vontade de falar para tão estranha leitora para não se preocupar porque no final tudo termina bem, mas cheguei à conclusão que seria um comentário ainda mais desnecessário.

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