A pena e a bomba
Como disse outro dia, estou relendo "O Crisântemo e a Espada" - estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.
Um dos muitos aspectos relevantes do livro é que não é um estudo desinteressado, mas um levantamento cuidado feito a peio e com o patrocínio do Ministério da Guerra americano com o intuito de auxiliar na formulação da política americana em relação ao Japão durante e após a guerra. Algumas das perguntas que o estudo precisava responder eram quais seriam as melhores formas de redigir a propaganda atrás o front e avaliar quais seriam as dificuldades da invasão e capitulação. Não ficaria surpreso se o estudo não estivesse entre os argumentos que embasaram e "justificaram" o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki - lamentável acontecimento que faz aniversário nos próximos dias.
Como disse outro dia, estou relendo "O Crisântemo e a Espada" - estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.
Um dos muitos aspectos relevantes do livro é que não é um estudo desinteressado, mas um levantamento cuidado feito a peio e com o patrocínio do Ministério da Guerra americano com o intuito de auxiliar na formulação da política americana em relação ao Japão durante e após a guerra. Algumas das perguntas que o estudo precisava responder eram quais seriam as melhores formas de redigir a propaganda atrás o front e avaliar quais seriam as dificuldades da invasão e capitulação. Não ficaria surpreso se o estudo não estivesse entre os argumentos que embasaram e "justificaram" o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki - lamentável acontecimento que faz aniversário nos próximos dias.
Parto desta aparente contradição para destacar o que considero um dos aspectos mais simplificadores do estudo de Ruth Benedict: a oposição entre o crisântemo - a apurada e delicada preocupação estética japonesa - e a espada - a índole guerreira de seu povo. Também se poderia falar da pena e a bomba para descrever esta cooperação patriótica que coloca o estudo científico a serviço dos interesses militares sem ver qualquer tipo de conflito.
É preciso lembrar - saindo do universo etnocêntrico americano - que a associação entre artes, em particular a poesia, e a guerra não é algo inusitado como ela defende nos pressupostos do estudo. Pelo contrário ao longo da história é praticamente o padrão que um mesmo segmento social se dedique às duas tarefas, muitas vezes de forma simultânea. Quase me sinto tentado a dizer que o ocidente a partir da Idade Moderna é que é a exceção à regra, hipótese que teria inclusive a explicação de que isto se deve à "desaristrocratização" da guerra, popularizada pela conscrição e pela adoção da pólvora que passou a recrutar a população - e em geral segmentos marginais da população - ao invés de algum tipo de estrato guerreiro.
Nas sociedades hindus, por exemplo, tanto poetas como guerreiros pertencem à casta xátria e as características dos dois papéis são consideradas inseparáveis, como o emocionalismo, a coragem, o preparo, a inspiração. No mundo budista, da mesma forma, há uma associação entre o preparo para a luta e a inspiração artística. Estadistas, generais, filósofos e poetas confundem-se em diversas culturas tradicionais como a islâmica, a greco-romana em seus momentos clássicos, a renascença italiana, na cultura provençal.
Como quase sempre somos melhores em enxergar o outro que a nós mesmos, não é estranho que ela não enxergue a conexão entre a ciência e a guerra que, de certa forma, marca a cultura ocidental. Ligação esta que não existe somente em termos de tecnologia - na qual as relações promíscuas entre ciência e guerra são evidentes - mas também em relação às humanidades. O papel da antropóloga no caso em questão é uma sofisticação do papel de auxiliar do colonialista que cientistas de humanidades desempenharam - em particular mas não só no século XIX.
Papel não só de justificar a colonização, mas de estudar as melhores formas de implementá-la, avaliar as ferramentas a serem utilizadas, estabelecer estratégias de dominação e controle e, por fim, treinar "elites" nativas ocidentalizadas para garantir que com a substituição as metrópoles tudo continuaria funcionando de forma integrada ao sistema econômico.
Muito de toa a rejeição ao ocidente que percorre o mundo - em particular o mundo islâmico - deriva destas estratégias coloniais e o fracasso estas "elites substitutas" ocidentalizantes - ainda que quando providas de um discurso de esquerda ou revolucionário, como Saddam Hussein.
Outra importante posição que Benedict vê e que é uma das teses centrais do estudo, a "explicação" das diferenças entre as duas nações - Estados Unidos e Japão - segundo ela é a oposição entre a visão orientada à igualdade como valor fundamental nos EUA e a estrutura fortemente hierarquizada do Japão. Assim colocada parece ser muito simpática a visão dela, fundamentada em grande parte na imagem que Tocqueville teve da América, mas ignorando as advertências que o diplomata francês fazia sobre as conseqüências desta determinada visão de igualdade.
Penso que pouca coisa do estudo sobrevive a um confronto com a realidade moderna. Na medida em que o amor pela igualdade transforma-se, como aliás previu Tocqueville, numa imensa fraqueza e insulamento dos cidadãos que os torna frágeis frente ao Estado e às grandes corporações e a aversão a qualquer hierarquia transforma-se em dissolução da autoridade, horror ao mérito e elemento desagregador verifica-se que há algo de errado no modelo.
É preciso pensar, então, em qual medida este ideal de igualdade não é um discurso servindo a outro interesse mais do que uma realidade. Há, aqui, uma conexão fundamental com a dissociação entre o crisântemo e a espada que a autora faz. Para ela o soldado é algum tipo grosseiro que vive em uma trincheira, portanto há uma enorme distância entre este elemento desagradável mas necessário e o guerreiro japonês, capaz de terrível crueldade mas também preocupado com a poesia e outras expressões estéticas.
Ao mesmo tempo, ela própria é a pesquisadora, a aparentemente neutra cientista detentora do conhecimento e da técnica que pode colocar-se acima d qualquer critério, inclusive ético, para orientar a ação militar. Não há concepção de igualdade entre ela e o pobre soldado enlameado que luta nas ilhas do Pacífico e ela até permite-se certa justificativa romântica do tratamento cruel dos japoneses com os prisioneiros de guerra. Ao mesmo tempo que legitima a guerra em defesa de uma concepção de igualdade sente-se atraída pelas virtudes japonesas. Mereceia talvez um estudo antropológico a forma crescente pela qual o "país da igualdade" de direitos vem demonstrando crescente preocupação com as virtudes heróicas. O filme "O último samurai", por sinal, é quase uma reatualização dos valores demonstrados por Benedict, ver os dosi demonstra o quanto uma determinada concepção evolui em meio século.

Comentários
Comentar