Paradoxos da Douta Ignorância

Criticar o catolicismo tornou-se prática tão comum nos dias de hoje, por todos aqueles que olham para os fatos históricos cometidos pelos homens em nome desta fé – o que ocorre com todas as religiões – que muitas vezes grandes pensadores católicos ficam perdidos e esquecidos. Isto sem dúvida é uma pena, porque recuperar vários deles demonstraria a enorme unidade que há em todas as tradições religiosas, ao menos para mim quando vejo esta identidade das idéias mais profundas e centrais só sinto reafirmar a minha fé nesta unidade fundamental e a crença de que toda diferença aparente é má tradução, entendimento superficial ou mero apego a preconceitos.
Alguém pode objetar que diversos destes grandes pensadores acabaram sendo contestados, até humilhados e condenados, em particular pela Inquisição. Não nego, mas apenas destaco mais uma vez o risco de toda institucionalização, que torna as pessoas mais surdas a ouvir aquilo que lhes desagrada – e por alguma secreta lei dos grupos é ao comum que os mais medíocres sejam os mais dedicados á institucionalização, portanto mais avessos a qualquer talento.
Dos vários nomes que poderia citar dedico-me hoje a escrever sobre Nicolau de Cusa e sua tese – tão próxima do Vedanta Advaíta, dos mestres zen, de variadas ordens sufis – da “Douta Ignorância”. Engraçado, para começo de conversa, que Nicolau me pareça claro e transparente em sua exposição de uma idéia tão complexa, enquanto a imensa maioria de seus comentadores me parecem obscuros porque enchem de explicações metafísicas e lógicas o conceito justamente da incapacidade de compreender.
Se precisasse resumir em uma frase a idéia de Nicolau de Cusa (claro com todas as inevitáveis fragilidades de tal redução) diria que o centro da “douta ignorância” é o reconhecimento de que a natureza da divindade não pode ser conhecida. Pensando em como todas as diferenças religiosas se dão justamente pro tentar compreender e delimitar o “divino” dentro de limites do conhecimento humano- tarefa fatalmente condenada ao fracasso – já se imagina o grande potencial para a superação das diferenças religiosas que existia nele (como também no Mestre Eckhart que o antecede, outro grande pensador católico precisando ser recuperado).
Uma das questões de “método” de Nicolau de Cusa diz respeito justamente àquela maravilhosa figura do pensamento que é o paradoxo. Não é estranho que mestres vindos de caminhos tão distintos utilizem tanto os paradoxos – dos mitos gregos aos poemas zen, passando, claro, pelas histórias do mullah Nasrudin – afinal o paradoxo requer uma reflexão mais elevada, a superação do conhecimento discursivo, só pode ser resolvido deixando-se de lado as regras da lógica. Cada paradoxo me parece sempre como uma escada a um plano mais elevado do pensamento, não sujeito a estas limitações de nossa compreensão limitada.
Nicolau de Cusa vê Deus justamente como a superação das dualidades, vistas como ilusões provocadas exatamente pela nossa incapacidade de enxergar mais profundamente. Como tantos pensadores tradicionais, Nicolau de Cusa enxerga que apesar de Deus não poder ser compreendido pela razão humana, marcada pelas dualidades e pelas limitaçõe, ainda assim a finalidade fundamental e essencial do homem é justamente conhecer a Deus, o que é possível olhando-se não para fora ou para cima, mas para dentro de si, visto que o homem é a imagem contraída da divindade, em uma escala ainda maior do que o é também toda a natureza.
O processo então para chegar-se a esta compreensão é a via da “douta ignorância”, aquela que se dá conta da impotência do saber racional e, que pro efeito desta libertação dos conceitos, busca imaginar a divindade não como algo que seja – portanto limitado a uma compreensão ou comparação com as categorias existentes – mas pelo processo da “teologia negativa” constituída justamente no despir das qualidades, formas, limites, até ser capaz de compreender justamente o vazio e a negação. Ao mesmo tempo o pensador tem enorme preocupação em justificar sua posição dentro de uma visão ortodoxa da sua fé, só com muito esforço seus inimigos e detratores conseguem levar adiante as acusações de heresia contra ele, anos depois, pro sinal deixadas de lado. Se tem aqui outro paradoxo – a nos fazer ao menos desconfiar de todo pensamento heterodoxo repleto de “novidades” - que é o de concepções tão próximas em religiões distintas ao mesmo tempo esforcem-se por justificar-se e explicar-se dentro dos limites ortodoxos, a ponto até de em muitos casos terem sido estes pensadores que revitalizaram e deram novo impulso a estas tradições. Nicolau de Cusa não conseguiu ter a mesma influência sobre o catolicismo que teve por exemplo, Shankara, para o hinduísmo, Al-Ghazalli para o islam sunita, mas nos pontos de contato não se poderia destacar o paradoxo de que os três eram ortodoxos em suas fés.

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