Olhar do coração

“O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)

Tenho esta mania de ver identidades nas mais diversas e aparentemente distintas tradições religiosas. E uma das identidades que mais salta aos olhos é que todo livro sagrado, todos os mestres, ensinam que o homem deve se esforçar por mudar a si, melhorar-se, disciplinar-se, em uma situação ideal ser capaz de suportar com igual reação tanto as intempéries quanto os dias de Sol que o Destino nos reservar. A este comportamento se dá nomes e efeitos variados, sabedoria, disciplina, moderação, liberdade (que não quer nada é livre, já dizia Pessoa).
Não é uma tarefa fácil. O destino, como diziam os poetas árabes e eu repito sempre, é um camelo cego e louco no meio de um tumultuado mercado persa. Se há um sentido ou não nos descaminhos dele, se este sentido, existindo, pode ser compreendido por outro senão por Deus, se daquilo que parece destrutivo sairá algo de bom e daquilo que parece bom sairá algo destrutivo, nenhuma destas questões tem resposta nestes tantos livros que falam destas perguntas.
Este sentido, se há, certamente não poderia ser compreendido pelo homem. Por mais que se busquem justificativas desconhecemos as balanças e os pesos pelos quais seremos julgados tanto como desconhecemos por quais caminhos o camelo cego nos levará no seu trajeto cheio de voltas e zig-zagues. A complexidade destas operações, cálculos, medidas só poderia ser compreendida por uma mente capaz de ver de forma simultânea para além destes nossos limites de tempo e espaço.
O debate em torno disto sempre me pareceu um tanto quanto estéril. Só sabemos de duas coisas, que havendo um julgamento ele se dará por aquilo que está encerrado em nossos corações, não por qualquer aparência e, como destacam também todos os livros sagrados, a misericórdia do juiz é superior a sua ira. Se o resultado deste julgamento está expresso em termos de Céu, Inferno, com ou sem purgatório e limbo, transmigração, se estes céus e infernos são gradativos ou não, se ele deve ser entendido em termos mais “genéricos” metafísicos ou até em reencarnação, com as devidas ressalvas a esta última, diria que todos são expressões diferentes de uma mesma idéia.
Nada disto me parece ser realmente relevante e em muitos casos até contraproducente na medida em que pode nortear as ações em termos de recompensa e castigo e assim contaminar aquela sinceridade de coração essencial. Estou entre os que acreditam que, sem que seja naturalmente bom, o homem sempre é capaz de distinguir entre o correto e o incorreto, esta distinção, por sinal seria a base que dá lógica ao livre-arbítrio.
Lembrei-me de um grão-rabino judeu, dos últimos dias antes da Queda de Jerusalém, Hillel, que foi procurado por um homem que lhe disse que se o rabino lhe explicasse o talmud – o livro de jurisprudência judaica – em cinco minutos se converteria. O Rabino olhou para o homem e disse: “não façai ao outro o que não deseja que façam a ti”. A mesma regra no máximo com variações de termos – e ás vezes nem com isto – está prescrita pro todo canto, não bastasse isto faça a si a pergunta antes de alguma ação e verá como sabe bem a resposta a ela na imensa maioria dos casos, salvo naqueles nos quais estamos prejudicados por um conhecimento imperfeito da situação.
A questão essencial, portanto, é saber se existe Deus – chame-se lá como o deseje porque certamente todos os nomes de Deus são puros. Nesta questão resume-se todas as questões metafísicas, teológicas e morais, convergem todas as religiões, os sentidos esotéricos e exotéricos delas. Se temos a medida da balança e sabemos se há um juiz ou não – e mesmos estas duas questões poderiam ser resumidas a uma – então se chegou ao debate essencial.
Os mais metafísicos buscariam ir além e debater a essência da divindade, mas eles mesmos – ao menos os verdadeiros – saberiam que esta discussão é secundária visto que não é um debate compreensível ou útil a todos, e ainda assim gerando um resultado similar. Até já tive a oportunidade de expor aqui no blog que deuses não é o plural de Deus, ainda que os dois termos tenham se contaminado ao longo dos séculos nas linguas ocidentais – até por isto Deísmo, de deuses, e Teismo, de Theos, sopro, são termos opostos, ainda que não obrigatoriamente excludentes.
O grande e imperdoável pecado, assim, seria a descrença em Deus. Todos os outros seriam em algum grau uma variação ou conseqüência dele já que aquele que acredita - cito nas palavras da tradição islâmica, mas presente de maneira similar pro todo lado – que deve agir como se estivesse vendo deus, proque Ele o estará vendo sempre, dentro do seu coração não cometeria nenhuma outra falha intencional. Os graus desta compreensão são certamente variáveis, mas certamente também serão levados em conta levando em conta a pureza – e no extremo a libertação – das intenções.
Duas imagens, ambas também da tradição islâmica, e destaco que para aqueles que se sentem mais confortáveis com outras perspectivas enxerguem as metáforas nelas, me vem a memória agora. A primeira é de um gênio do mal do Alcorão que quase com deboche se dirige àqueles que pedem seu socorro na hora final e aos quais ele responde que jamais compartilhou da crença deles de que era um igual a Deus, eles o seguiram proque quiseram. A segunda, contada por Al-Ghazalli fala de um homem que gritava mais alto que todos os outros ao queimar no inferno. Quando questionado do motivo diz: “Já fui julgado, mas não desespero da misericórdia de Meu Senhor” e então é salvo.
Como se trata fundamentalmente do que há no coração de cada um pareceu-me mais do que oportuna a citação de Pessoa ao invés de algum texto religioso que fatalmente estaria sujeito a ser olhado meio de soslaio por pessoas de uma ou outra fé. Com qual direito podemos mostrar o caminho para outro se não o conhecemos na profundidade da nossa vivência e quanto de uma vida seria necessário para que se adquirisse este conhecimento do caminho. Portanto salvo no caso de santidade – que também asseguram as tradições é eleição divina e não mérito pessoal – haveria muito poucos que teriam tempo livre para “salvar o mundo” depois de dedicar-se a salvar a si próprios e esta tarefa, ainda por cima, levaria a tantos e tantos riscos – como a história sempre mostra – que o dano passível de ser causado pelos “santos imperfeitos”, pelos santos “para os outros” e santos do pau-oco seriam muito maior que qualquer eventual benefício.
Não há nesta questão nenhum individualismo, pelo contrário. O homem que se esforça por melhorar-se acaba por melhorar a vida dos que estão ao seu redor, compreendendo os outros, sendo generoso, não sendo egoísta, enfim, sendo um pouco melhor a cada dia, no limite torna-se uma pequena luz que se expande, mas mesmo sem levar isto em consideração se chega de novo á questão de cada um fazer a sua parte sem buscar no vizinho as justificativas para a auto-condescendência.

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