O Voto é Sagrado
A escola onde voto em São Paulo – a FAI, na Avenida Nazaré no bairro do Ipiranga – já foi um seminário e conserva algo da atmosfera de mosteiro com os arcos ao estilo mourisco nos corredores ladeando o jardim, além dos diversos ciprestes.
Deve ser diferente votar em uma destas escolas modernas, todas feitas para serem muito parecidas, retangulares, retas, desprovidas de praticamente todos os adereços. É de se imaginar que nestes locais também o voto deva ser um processo meio industrial, automatizado, rápido tal como o ambiente. Já no meu local de votação, pelo contrário, é quase impossível não fazer uma reflexão mais profunda, desde a primeira vez que fui votar lá já senti esta sensação de grave respeito enquanto percorria os corredores procurando a seção na qual voto.
Quando falo de sagrado é claro que não me refiro a nenhuma forma destas misturas de religião e política que correm por aí se desmoralizando mutuamente pela profanação daquilo que devia ser santo para ambas que é a consciência do eleitor. Falo de sagrado no sentido de que decidir quem deve liderar o grupo a partir do livre arbítrio de um lado e do uso da razão do outro é uma das mais elevadas ações humanas.
Traços rudimentares da política já existem no reino animal, em especial ente nossos parentes mais próximos – chimpanzés e bonobos – entre os quais nem sempre a decisão é pelo critério exclusivo da força bruta
Mas o tipo de racionalidade que torna o voto sagrado é outro. Se todo tipo de autoridade legítima é em certo sentido uma unção divina – seja lá o tipo de divindade que se adote – a escolha do eleitor consciente deve ser capaz de enxergar para além de si mesmo, refletir obre o destino que deseja para a comunidade do qual faz parte, buscando nas opções existentes as melhores qualidades.
A primeira violação a este sacralidade é a gerada pelas intromissões da força – seja a força bruta seja a que emana do vil metal. Acovardar-se em uma decisão importante ou transformar uma escolha que deveria ser motivada pelo interesse coletivo em uma fonte de vantagem individual são verdadeiras blasfêmias.
Em um patamar quase tão baixo como as anteriores, mas difícil de fugir nesta era das massas, está a escolha determinada a partir dos engodos da antipolítica que é o “marketing eleitoral”. Toda a parafernália criada para transformar a decisão nobre e racional em um impulso emocional de multidão subverte a própria essência da política e serve a uma diminuição, amesquinhamento mesmo, do homem transformado em gado a ser conduzido às urnas como se fosse a um matadouro.
Poucas coisas conectam tanto o homem ao sagrado quanto a esperança – talvez por isto mesmo ela é a dúbia virtude que fica presa à aba da caixa de Pandora. Talvez muito desta “dessacralização” do voto venha da falta generalizada de esperança que reina. Ainda assim há a escolha de deixar levar pelas profanações ou nos portar como seres humanos de fato e transformar o momento de voto numa reflexão profunda e não em impulso.

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