O voto de Pilatos
Leio nos jornais que a campanha pelo voto nulo já começa a preocupar as instituições e o TSE inicia campanha de esclarecimento> Até, por sinal, para coibir as informações falsas e contraditórias que circulam neste sentido, em especial pela Internet onde a informação costuma mesmo ter este caráter ao mesmo tempo fugidio e minucioso que a faz parecer verdadeira.
Neste sentido específico de assegurar que o voto nulo não é nada mais do que aquilo que parece – ou seja, a negativa em tomar parte na decisão sobre quem irá nos governar – acho a campanha do TSE mais do que válida. Vir e mexe encontro teorias mirabolantes, todas elas muito bem assentadas e fundamentadas em leis e decisões inexistentes, que asseguram que o voto nulo serve pra algo. Sempre fico curioso se quem espalha estes boatos é apenas um idiota desinformado ou alguém que premeditamente quer mesmo que todos os que estão revoltados se abstenham de votar deixando a decisão nas mãos daqueles que estão satisfeitos, conformados ou alienados.
No primeiro caso demonstram que não são diferentes daquela parte dos políticos que criticam, espalhando comentários e promessas sem fundamento em busca de atenção ou pânico, no segundo estarão diretamente a serviço destas forças ocultas da política. Em ambos em nada contribuem para debate algum, nem mesmo a favor do voto nulo.
O voto nulo só pode ser analisado com exatidão pelo que realmente é. Ou seja, não como uma forma de “Revolução Branca”, maneira de derrubar o governo, meio para cassar os deputados que escaparam impunes, estas teorias conspiratórias malucas que circulam pela Internet. Desprovido deste papel messiânico o voto nulo pelas razões certas – ou seja para omitir-se de participar de um sistema com o qual não concorda – é certamente um direito de qualquer um.
Não quero cassar de ninguém o direito de omitir-se, acho até que ganharíamos muito se o voto fosse facultativo, permitindo a todos que aproveitem o domingo da eleição da forma que lhes aprouver. Confesso até que já anulei meu voto em algumas eleições majoritárias nas quais a decisão era terrível demais, como na disputa entre Maluf e Fleury pelo governo do estado em 90. Nas eleições parlamentares a grande oferta de candidatos torna quase impossível não haver opção e qualquer generalização é uma homenagem aos corruptos, uma ofensa as pessoas sérias que dão a cara a tapa e um reflexo da pesquisa de pesquisar a história dos candidatos para encontrar algum.
Salvo poucos casos de pessoas que por uma opção consciente não acreditam no sistema tal como está – posição que respeito – a maioria dos que votam nulo, pelo contrário, querem poder passar os próximos quatro anos sentindo-se com a consciência limpa, podendo dizer que não votou em nenhum dos que estão aí, abstendo-se de qualquer responsabilidade pelas barbaridades que vierem a ocorrer. É o voto de Pilatos.

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